Estagnação secular, fim dos emergentes e armadilha da renda média, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

Estagnação secular, fim dos emergentes e armadilha da renda média

 

[EcoDebate] O alto crescimento econômico é coisa do passado. Após a Segunda Guerra, os diversos países tiveram um incremento excepcional do Produto Interno Bruto (PIB), especialmente entre 1950 e 1973. Com o início da crise do petróleo, em 1973, e nas décadas de 1980 e 1990 o crescimento econômico foi bem menor. Houve uma certa retomada do crescimento na primeira década do século XXI, graças ao desempenho fantástico da China que possibilitou uma elevação do preço das commodities e favoreceu os termos de troca das “economias emergentes”.

Em 2001, Jim O’Neill, da Goldman Sachs, lançou a ideia dos BRICs acrônimo de grandes países que se tornariam potências emergentes. Mesmo depois da crise internacional de 2008 que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers a crença no desenvolvimentismo mundial acelerado não desapareceu. Em 2011, a firma de consultoria Price (PwC) lançou um estudo super otimista estimando que a economia mundial cresceria em torno de 3,5% ao ano até 2050 e os países emergentes (Brasil, Rússia, India, China, África do Sul, Indonésia, México, Vietnã, Turquia, etc) cresceriam mais rápido do que os países desenvolvidos e haveria uma redução das desigualdades e uma convergência de renda entre os países e as regiões do mundo.

Mas os cenários em 2014 não são otimistas e a moda agora é tratar de três problemas: 1) a “estagnação secular” (ou “Japanização”); 2) o “fim dos emergentes” e 3) a “armadilha dos países de renda média”.

Em discurso realizado no FMI em novembro de 2013, Larry Summers chamou de “estagnação secular” a ideia de que, além da paralisia da Europa e Japão, o atual período de fraco crescimento nos EUA (em que as taxas de juro nominais quase nulas já não são suficientes para reanimar a economia) pode permanecer durante muitos anos. A crise está longe de estar resolvida e ter a economia estagnada pode ser o “novo normal”. O prêmio Nobel, Paul Krugman, concorda e acrescenta que o baixo crescimento da População Economicamente Ativa contribui para o cenário de estagnação dos países desenvolvidos. Valeria a pena acrescentar a questão do processo de envelhecimento populacional que eleva a razão de dependência demográfica e aumenta custos e reduz a produtividade.

Se as coisas não vão bem para os países desenvolvidos, os chamados países emergentes também estão sentindo os ventos contrários. Para o economista Ruchir Sharma, – chefe de mercados emergentes e de macroeconomia global da Morgan Stanley – os chamados “países emergentes” não vão manter o ritmo de crescimento da primeira década do atual século e a ideia dos BRICS como potência mundial não passa de uma ilusão. Embora a China ainda possa manter taxas de crescimento acima dos países desenvolvidos e até fazer parte do clube dos países ricos, os demais países dos BRICS tendem a enfrentar dificuldades cada vez maiores. Ou seja, para Sharma, os emergentes vão continuar emergentes para sempre e não vão conseguir a paridade com os países mais ricos do mundo. O mesmo vale para os MINT (México, Indonésia, Nigéria e Turquia).

Portanto, pode se chegar ao terceiro problema que é a “Armadilha da renda média”. Ou seja, os chamados países emergentes apresentaram bons resultados econômicos na fase que passavam pelas transições urbana e demográfica, pela exploração dos recursos naturais e cresceram economicamente por “imitação” (adaptação criativa).

Porém, é mais fácil uma nação deixar um nível de renda baixa para o de renda média do que sair da renda média e ingressar no clube dos países desenvolvidos. A “Armadilha da renda média” é um obstáculo que impede o progresso das chamadas economias emergentes. Estar preso na faixa da renda média significa que o país é incapaz de prosseguir o seu caminho do desenvolvimento tradicional, mantendo indicadores ruins na área de infraestrutura urbana e transporte, baixa qualidade da educação e baixa capacidade de investimento e inovação tecnológica. O Brasil, com seu baixo crescimento econômico no último triênio (em torno de 2% ao ano), já é muito citado como um caso clássico de “armadilha da renda média”.

Desde a crise de 2008, a Europa é reconhecida com a região da estagnação e do alto desemprego. Países como Portugal e Grécia estão tendo decrescimento da população e da economia, com grande dificuldade em se manter no Euro. Segundo o FMI, em 2008, o PIB da Grécia era de 343 bilhões de dólares e de Portugal de 253 bilhões. Após 5 anos de queda, as estimativas para 2014 apontam para um PIB de somente 242 bilhões de dólares na Grécia e de 220 bilhões em Portugal. Desta forma, esses são países que estão no caminho da transição da renda alta para a renda média.

Estudo do CEBR, Centre for Economics and Business Research, de dezembro de 2013, mostra que a Itália vai passar da 8ª maior economia do mundo em 2102 para a 15ª em 2028 e a Espanha vai passar da 13ª para a 18ª economia no mesmo período. Segundo relatório do instituto de estatísticas Istat, a pobreza chegou ao nível mais elevado na Itália no atual século. A pobreza relativa, definida como uma família com duas pessoas vivendo com uma renda mensal de 991 euros ou menos, atinge 12,7% das famílias. O Japão, embora seja uma economia rica e com excelentes indicadores sociais, já vive 20 anos de estagnação e, com um endividamento interno crescente, não apresenta perspectivas de crescimento significativo para os próximos 20 anos.

Desta forma, a conjugação dos três fenômenos “estagnação secular”, “fim dos emergentes” e “armadilha dos países de renda média” aponta para um período de baixo crescimento econômico e de possibilidade de aumento dos problemas sociais no mundo nas próximas décadas. Mas, mesmo assim, as perspectivas são melhores do que há 100 anos, quando o mundo viveu a Primeira Guerra Mundial entre 1914-1918, a grande depressão dos anos 1930 e a Segunda Guerra Mundial entre 1939 e 1945.

O desafio atual é garantir a melhoria da qualidade de vida das pessoas e a saúde dos ecossistemas em um quadro de baixo crescimento econômico ou no âmbito do Estado Estacionário. Existem alternativas na linha em que Tim Jackson escreveu o livro: “Prosperity without growth? The transition to a sustainable economy”. Analisando as complexas relações entre crescimento, crises ambientais e exclusão social, ele argumenta que, além de certo ponto, o crescimento econômico não aumenta o bem-estar humano. O livro propõe uma rota para uma economia sustentável e defende uma redefinição do termo “prosperidade” em uma situação em que o crescimento econômico não seja a panaceia para todos os males sociais.

Referências:

GAVYN DAVIES. The implications of secular stagnation, FT, November 17, 2013

http://blogs.ft.com/gavyndavies/2013/11/17/the-implications-of-secular-stagnation/

Jim O’Neill. Building Better Global Economic BRICs, 30th November 2001

http://www.goldmansachs.com/our-thinking/archive/archive-pdfs/build-better-brics.pdf

PwC. The World in 2050: The accelerating shift of global economic power: challenges and opportunities

http://www.pwc.com.br/pt_BR/br/estudos-pesquisas/assets/world-2050-11.pdf

Ruchir Sharma. Breakout Nations, 2013

http://reflectionsvvk.blogspot.com.br/2013/05/book-review-breakout-nations-by-ruchir.html

Ruchir Sharma: How Emerging Markets Lost Their Mojo, June 26, 2013

http://online.wsj.com/news/articles/SB10001424127887324063304578524993315522844

Larry Summers. IMF Fourteenth Annual Research Conference in Honor of Stanley Fischer. Washington, DC, November 8, 2013

http://larrysummers.com/imf-fourteenth-annual-research-conference-in-honor-of-stanley-fischer/

Lawrence Summers. Washington must not settle for secular stagnation, FT, January 5, 2014

http://www.ft.com/cms/s/2/ba0f1386-7169-11e3-8f92-00144feabdc0.html#ixzz2pcYWI1EQ

Cebr’s World Economic League Table, 26 December 2013

http://www.cebr.com/reports/world-economic-league-table-report/
Tim Jackson. Prosperity without growth? The transition to a sustainable economy, Earthscan/Routledge, 2009 http://www.nfft.hu/dynamic/20090522_pwg_summary_eng.pdf

ALVES, JED. Economia, população e meio ambiente no “Estado Estacionário”. Ecodebate, RJ, 14/09/2011
http://www.ecodebate.com.br/2011/09/14/economia-populacao-e-meio-ambiente-no-estado-estacionario-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

EcoDebate, 17/01/2014


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