Crise financeira na Espanha: Adeus eletricidade, luz e aquecimento, artigo de Esther Vivas

 

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[EcoDebate] A pobreza, atualmente, já não implica apenas não ter trabalho, o dinheiro não chegar até ao fim do mês, não poder pagar a renda da casa ou a prestação do empréstimo, mas também, não poder acender a luz, tomar uma ducha ou ter aquecimento. A nossa pobreza é invisível.

Se nesta época não se acendessem as luzes de Natal porque a administração não pudesse pagar a tarifa da eletricidade, veríamos a notícia nas capas dos jornais e na abertura dos noticiários da televisão. Todos gritaríamos. Pelo contrário, se na minha casa não puder acender a luz, ligar o radiador ou a máquina de lavar parece que isso não importa. Ainda que tal situação afete já 10% dos lares do Estado espanhol, cerca de quatro milhões de pessoas. O que não se vê, não conta.

A pobreza, atualmente, já não implica apenas não ter trabalho, o dinheiro não chegar até ao fim do mês, não poder pagar a renda da casa ou a prestação do empréstimo, mas também, não poder acender a luz, tomar uma ducha ou ter aquecimento. É o que se chama pobreza energética. E segundo a Associação de Ciências Ambientais, as suas consequências são: mais problemas de saúde, pior qualidade de vida e mortes. “Estima-se que a pobreza energética é responsável em Espanha por entre 2.300 e 9.300 mortes prematuras”, afirma a associação. Mortes que, tudo indica, não contam.

E não contam porque perante uma situação de emergência social, como a descrita, vemos que o preço da eletricidade não pára de aumentar. Assim foi anunciado hoje (19 de dezembro): o recibo da luz subirá em janeiro cerca de 11,5%. O Governo, uma vez mais, agacha-se às empresas elétricas, pondo os interesses econômicos destas à frente das necessidades básicas das pessoas, como não passar frio no inverno, cozinhar ou acender a luz. A ganância do capital não conhece princípios nem tem moral.

Nos últimos dez anos, o recibo da luz aumentou 78% e o preço do kW 119%, segundo dados da FACUA/1, “obrigado” às políticas de liberalização do mercado levadas a cabo tanto pelo governo do Partido Popular como do PSOE. O oligopólio das elétricas é, definitivamente, quem dita as Leis do setor. Se não podes pagar a fatura, adeus eletricidade, adeus luz, adeus aquecimento. Não importa se não tens rendimentos. O PP já recusou, em certa altura, uma trégua no inverno para as famílias mais desfavorecidas. Vem-me agora à lembrança o slogan de campanha de Mariano Rajoy nas últimas eleições: “Junta-te à mudança”. Então, “esqueceram-se” de explicar em que consistia exatamente a mudança. Duvido, se o fizessem, que tivessem ganhado.

Se nos tiram a água, a luz, a eletricidade, como têm tirado a muitas pessoas, também, as suas casas, não nos restará outra opção que tomar o que é nosso. Assim o fizeram durante anos diversos movimentos sociais em países do Sul repondo serviços essenciais às pessoas a quem eles foram cortados. Vemos o mesmo tipo de ação, também agora aqui com a Obra Social da Plataforma de Afetados pela Hipoteca, ajudando quem fica sem lar, enquanto milhares de casas se encontram vazias e nas mãos dos bancos. Uns amigos meus já puseram em prática essa ação e põem as suas “habilidades” à disposição de quem precise. Animá-los-ei a fazerem um workshop. Acho que se esgotarão as entradas.

Artigo publicado em Publico.es em 19 de dezembro de 2013. Tradução de Carlos Santos para Esquerda.net.

1/ FACUA – Consumidores en Acción é uma ONG de defesa dos consumidores do Estado espanhol.

 

**Esther Vivas, Colaboradora Internacional do Portal EcoDebate, é ativista e pesquisadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares, autora de vários livros, entre os quais “Planeta Indignado”. Esther Vivas é licenciada em jornalismo e mestre em Sociologia. Seus principais campos de pesquisa passam por analisar as alternativas apresentadas por movimentos sociais (globalização, fóruns sociais, revolta), os impactos da agricultura industrial e as alternativas que surgem a partir da soberania alimentar e do consumo crítico.

+info: http://esthervivas.com/portugues

EcoDebate, 07/01/2014


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Um comentário em “Crise financeira na Espanha: Adeus eletricidade, luz e aquecimento, artigo de Esther Vivas

  1. Ué, a Espanha não era até a pouco a vitrine das “energias renováveis” ? O que foi que houve ? elas quebraram o país e seus habitantes ? alías, não é só na Espanha que existe a pobreza energética. Na Alemanha e na Inglaterra e em outros pequenos da Europa também. Claro que assim se emite menos CO2 não é ? não geram absolutamente nada de energia e ainda custam os olhos da cara a ponto de deixar os pobres sem luz e sem aquecimento. As energias renováveis são uma grande fraude que infelizmente corrompeu até movimentos legítimos. Nosso país já tem uma das energias mais caras do planeta mas aqui não falta pregação e pregadores sobre os “benefícios” das “energias renováveis”, incluso este site. O que não é surpresa pois para quem prega intensivamente o “decrescimento”, turbinas eólicas e painéis solares são o nirvana.

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