Cearês com legendas, artigo de Montserrat Martins

 

Cine Holliúdy

 

[EcoDebate] “Que tranqueira!”, eu disse, e foi um constrangimento geral. Me senti como se, num país exótico, tivesse falado um palavrão na língua deles. Estava no interior de São Paulo, perto da fronteira com Minas, num engarrafamento de carros na estrada, que aqui no sul chamamos de “tranqueira”, mas que pela reação deles devia ter outro sentido lá. “Tranqueira” lá significa uma pessoa “mal conceituada”, digamos assim, foi o que consegui entender afinal.

Lembrei da tese de que não falamos na verdade uma mesma língua nacional, mas sim vários dialetos locais, segmentados, uma tese que me parecia uma ‘viagem’ do prof. de Linguística da Fabico. E se faltava uma prova disso ela acaba de chegar aos cinemas, “Cine Holliúdy”, falado em cearês, com legendas em português. O filme que “butou pra discatitar”, ou seja, “butou pra voá as banda”, ou traduzido na gíria popular brasileira, “botou pra quebrar”. Botou mesmo, nos primeiros meses já bateu o recorde de público de Titanic no Ceará, com meio milhão de espectadores.

A tese dos dialetos locais e segmentados foi demonstrada em pesquisa, gravando-se as entrevistas feitas por assistentes sociais em serviço, na periferia de Brasília. Ficou evidente, lendo os diálogos dessas gravações, que se tratava de dois grupos sociais que não falavam a mesma língua. Lembro só de alguns trechos, por exemplo a assistente social perguntava porque eles não estavam presentes nas consultas marcadas no posto de saúde, a dona de casa da periferia respondia que nunca tinha ganhado presente lá, não.

Vi coisas que eu nunca entendi, por exemplo naquela viagem entre São Paulo e Minas, mesmo. Na divisa entre os dois estados, em que a cidade paulista termina numa rua e a mineira começa na rua em frente, estava conversando com paulistas e atravessei a rua, entrei numa loja mineira e fiquei impactado com a mudança brusca do sotaque. Do “meu” interiorano paulista passava para o “sô” arrastado mineiro, só atravessando a rua. Algo que se vê entre Livramento e Rivera, é claro, se fala português de um lado da rua e espanhol do outro, mas afinal são dois países diferentes. Foi quando tive a sensação que paulistas e mineiros também viviam em países próprios.

As aulas de Linguística, que eu não compreendia bem, passaram a fazer sentido. Uma delas explicava que cada som se caracteriza, em primeiro lugar, por “não ser” o que o outro é. Assim é que o C só é o C porque não é o S e o S só é o S porque não é o Z, ou o Ç, por exemplo. Quer dizer, os fonemas não se distinguem por características “intrínsecas”, mas por diferenciais. Ah, fonema é o som em si mesmo, não é a letra, que é a representação gráfica do fonema, “a menor unidade sonora de uma língua, que estabelece contraste para diferenciar palavras”. Muito louco isso né? Eu achava que eram meras teorias pernósticas, mas agora começo a compreender que “tem tudo a ver”.

Bom, tentei explicar do jeito que me lembro, não sei se expliquei direito, ou se a tese fez algum sentido pra você. Se ler esse texto na internet, você também pode ser de um local distante e algumas palavras significarem algo bem diferente para você do que para mim. Ah, eu também não tinha explicado o que é a Fabico, é o lugar onde estudam os fabicanos, claro.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 21/11/2013


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Alexa

Um comentário em “Cearês com legendas, artigo de Montserrat Martins

  1. Puxa, sou de Sampa, e “tranqueira” para mim, sempre quis dizer “lixo, coisa inútil”. Não tem tanta diferença assim para o pejorativo ” vagabunda” (tem diferença para caramba em relação a engarrafamento, nunca ia adivinhar essa), mas da capital para o interior já muda?!
    Pois é, falamos várias línguas e achamos que é uma só…

Comentários encerrados.

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