Mecanização Agrícola e Agricultura Familiar na Amazônia, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

 

mecanização

 

[EcoDebate] A propósito há uma tendência mesmo dos agricultores assentados, de imitar a agropecuária de grande escala, tanto na pecuarização quanto na mecanização. Ambas as tendências resultando na insustentabilidade dos sistemas de exploração.

Existe um verdadeiro mito de que só com moto-mecanização a agricultura familiar na Amazônia pode se emancipar. Mas me proponho a discutir neste artigo duas situações da realidade na região que passarei a descrever: a mecanização com dependência e a mecanização com autonomia.

A primeira experiência presenciada de mecanização com dependência foi no período de 1980 a 1990. Com a implantação dos programas de desenvolvimento dessas décadas como o Polo Amazônia e na abundância de recursos financeiros, em quase todos os estados da região foram criadas “companhias de desenvolvimento” cujo objetivo principal era prestar serviços de mecanização subsidiado com prioridade para os pequenos agricultores familiares. No Amapá teve a CODEASA e nos demais estados as Codeagros, algumas sendo desativadas ou replanejadas em seus objetivos. Havia recursos para aquisição de máquinas e implementos, mas faltava para manutenção e aquisição de peças de reposição. A CODEASA no Amapá foi desativada no final da década de 1990. De 1991 a 1994 coordenei um programa de produção de sementes para o estado cujos implementos da patrulha mecanizada foram todos reaproveitados das “sucatas” da CODEASA, incluindo uma UBS (unidade de beneficiamento de sementes) que nunca havia funcionado.

Um exemplo que me marcou do desperdício de recursos públicos foi a recuperação de uma trilhadeira que estava abandonada às intempéries da chuva, que para operar foi necessário apenas a compra de uma correia que custou à época R$ 80,00. O fato é que os agricultores familiares foram os que menos se beneficiaram com os investimentos feitos nessas companhias.

A experiência mais recentemente vivenciada vem a partir da virada do século, mais ainda é prática atualmente em quase toda a Amazônia. Conselhos municipais pressionam prefeituras que por sua vez pressionam governos estaduais a investir em patrulhas mecanizadas para apoiar a agricultura familiar. Investimento pesado em máquinas e implementos não adequados a escala ou tamanho das lavouras da pequena agricultura feito por governos estaduais chegam às prefeituras municipais.

No sudeste paraense presenciei um fato inusitado. Como as prefeituras anualmente preparavam um cronograma de preparo de áreas mecanizadas aos agricultores familiares consegui convencer um prefeito daquela região que o programa poderia ser fortalecido com o financiamento de patrulhas de mecanização a tração animal. Assim com a autonomia dos agricultores capacitados na tração animal, o efeito multiplicador da patrulha municipal seria maior com o apoio a novos agricultores a cada ano. O prefeito comprou um kit de tração animal e lançaria o programa em um dia de campo com a presença do Governador da época. Na véspera do evento em uma reunião de planejamento o então secretário de estado de agricultura recomendou ao prefeito que desistisse da ideia porque a política do governador era pela moto-mecanização. Seis meses depois a prefeitura em que atuávamos em parceria recebeu sua patrulha mecanizada, cujo exemplo de inadequação, incluía uma plantadora de plantio direto de seis linhas, para semear lavouras com tamanho médio de 1 ha.

Outro exemplo negativo de dependência é o despreparo de operadores das prefeituras que não conhecem o básico de uma mecanização agrícola, como a velocidade adequada do trator para cada operação ou a umidade ideal do solo para iniciar uma gradagem. Resultado: áreas mal preparadas sujeitas à erosão do solo. No Baixo Tocantins no Estado do Pará, presenciei um absurdo de um agricultor principiante no preparo de área e plantio de 80 ha para mandioca em pleno período de estiagem, com a umidade do solo totalmente inadequada para um preparo sem pulverização, inadequado para a aplicação de herbicida e para a germinação da cultura. Recomendei a paralisação imediata das operações. O produtor respondeu dizendo que se perdesse naquele momento a oportunidade do trator da prefeitura, não mais teria como plantar sua lavoura. Resultado, prejuízo de mais de R$ 120.000,00.

Outro erro rotineiro dessas patrulhas é a utilização indiscriminada de grade aradora, formando o “pé de grade” e promovendo encharcamento do solo na época das chuvas prejudicando lavouras principalmente de mandioca, com ocorrência da podridão radicular. Em outra prefeitura do Baixo Tocantins a patrulha estava meses ao relento, pela falta de um galpão para estacionar e nem tratoristas tinha para operá-la. Ressalta-se que uma minoria dos agricultores é atendida por essas limitadas ações de mecanização agrícola. Na maioria desses municípios a aplicação resultante dessas patrulhas é, segundo depoimento dos próprios agricultores familiares, a coleta de lixo domiciliar na sede do município.

Algumas dessas patrulhas motomecanizadas hoje são repassadas diretamente aos agricultores em associações. Em outro município do Baixo Tocantins presenciei um racha na associação quando seu presidente recebeu a patrulha mecanizada. Essa patrulha quase não atendeu aos agricultores porque o trator de rodas quebrou o eixo em poucos dias numa tentativa transloucada de destocar um tronco de castanheira por ação de um operador despreparado. A patrulha não operou, pois a associação não dispunha de R$ 4.000,00 para repor o eixo quebrado. Com raríssimas exceções essas patrulhas são abandonadas por falta de recursos dos agricultores para manutenção e compra de peças de reposição.

Porém inúmeros exemplos de mecanização agrícola com autonomia podem ser relatados na Amazônia. Mesmo por que os agricultores em parte não deixam de ter razão quando pressionam a demanda por mecanização, considerando a escassez crescente de terra e mão-de-obra na região. Um bom exemplo é dos mandiocultores do nordeste paraense que estão financiando tratores e implementos adequados à escala de suas lavouras de em média 25 ha. Além de suas operações eles terceirizam serviços para os mandiocultores vizinhos. Outro exemplo de mecanização com autonomia é relatado dos horticultores que financiam micro tratores adequados à escala de suas atividades. Já os agricultores do município de Tracuateua não abrem mão da tração animal associada à fertilização do solo com esterco de curral no processo denominado de parcagem, para cultivo de mandioca e feijão. Os exemplos que tenho presenciado nestes 35 anos de agronomia na Amazônia, de sucesso da mecanização com autonomia é de agricultores que financiam tratores e implementos adequados à escala ou tamanho de suas lavouras e que tem pleno domínio de suas operações.

Raimundo Nonato Brabo Alves é Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

 

EcoDebate, 18/10/2013


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Um comentário em “Mecanização Agrícola e Agricultura Familiar na Amazônia, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves

  1. Trabalhei na FUNAI na década de 80 e guardadas as devidas diferenças, existe também uma enorme semelhança quando na transferencia de tecnologia com dependência seja para pequenos agricultores ou para índios que acabaram por resultar em um enorme frustração e grande desperdício de recursos públicos.

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