Ser pobre, sim; rico, não! artigo de Gilvander Luís Moreira

 

artigo

 

Gilvander Luís Moreira1

[EcoDebate] O evangelista Lucas não é extremista, mas é radical ao abordar a relação entre pobreza e riqueza. Ele percebe a íntima relação que existe entre pobres e ricos. Parece que Jesus e Lucas tinham claro que acumular bens é, ao mesmo tempo, roubá-los de outros.

Considerado autor do Evangelho de Lucas e de Atos dos Apóstolos, Lucas é um dos escritores do Segundo Testamento que mais questiona os/as discípulos/as com relação ao uso das riquezas materiais. O retrato “ideal” das primeiras comunidades cristãs – como elas deveriam ser e não como eram -, que “tinham tudo em comum… vendiam suas propriedades e depositavam o dinheiro aos pés dos apóstolos” (At 2,42-45), marca muito a imagem de Lucas com relação aos bens materiais.

Lucas conserva muitas máximas de Jesus sobre a questão da “riqueza”: “… deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11); “… mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58); “Não pergunteis, pois, que haveis de comer ou que haveis de beber, e não andeis inquietos, porque os gentios do mundo buscam todas essas coisas; mas vosso Pai sabe que necessitais delas” (Lc 12,29-30); “… ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses. Dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu não lhe tornes a pedir” (Lc 6,29-30); “É mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus” (Lc 18,25); “Olhando ele, viu os ricos lançarem as suas ofertas na arca do tesouro; e viu também uma pobre viúva lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Em verdade vos digo que lançou mais do que todos esta pobre viúva, porque todos aqueles deram como oferta a Deus do que lhes sobra; mas esta, da sua pobreza, deu todo o sustento que tinha” (Lc 21,1-4); “Dai, pois, a César, o que é de César e a Deus, o que é de Deus” (Lc 20,25). (Lembrete: Isso não significa separação entre fé e política. De Deus é a terra, o povo e a vida, nos diz o Primeiro Testamento. Logo, César, o imperador, não tem direito de tomar a terra do povo e nem de escravizar o povo. A fé de Jesus Cristo o leva a lutar contra a latifundiarização e a escravização. Eis a política da fé do Nazareno.) Judas Iscariotes traiu Jesus por dinheiro (Lc 22,5); “Jesus ouviu o jovem rico e disse-lhe: Ainda te falta uma coisa: vende tudo quanto tens, reparte-o com os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me” (Lc 18,22).

Nas máximas de Jesus registradas por Lucas são colocadas as seguintes condições para seguir Jesus: ser pobre, libertar-se do desejo de acumular, ser desprendido e solidário,2 não agarrar as coisas para si mesmo e livrar-se da idolatria do capital.

Desde o início da sua narrativa Lucas já revela grande sensibilidade e um acentuado interesse e amor preferencial pelos pobres ao contrapor “ricos” e “pobres”.3 Zaqueu é colocado como modelo do autêntico discípulo de Cristo, pois dá aos pobres a metade do que tem e devolve quatro vezes mais o que roubou (Lc 19,8). Barnabé tinha um terreno em Jerusalém. Sente-se movido a dispor dele em favor da comunidade; vende-o e coloca o dinheiro aos pés da comunidade cristã. Esse gesto revela a abertura de espírito de Barnabé. Pouco a pouco, ele vai sendo guiado pelo Espírito de vida e sente necessidade de colocar sua vida à disposição do Evangelho. Torna-se um dos principais missionários nas comunidades cristãs primitivas.

Observando mais atentamente a obra lucana – Evangelho de Lucas de Atos dos Apóstolos -, constatamos que nela aparecem duas posturas com relação aos bens materiais, uma moderada e outra radical.

Uma postura moderada, que aparece nas seguintes passagens: “Reparta sua túnica com quem não tem” (Lc 3,11), mas pode ficar com uma. Um credor dá um desconto na dívida do endividado (Lc 16,8a). Mulheres ajudavam Jesus com seus bens (Lc 8,3). “Dai em esmola o que tendes e tudo vos será limpo” (Lc 11,41).4

Uma postura radical de despojamento aparece nas seguintes passagens: “… emprestai, sem nada esperardes… Sede misericordiosos” (Lc 6,35-36); “Nada leveis convosco para o caminho, nem bordões, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas vestes” (Lc 9,3); “Vendam os seus bens e dêem o dinheiro em esmola… onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Lc 12,33-34); “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13); “Se não renunciar a tudo que tem, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33).

Na narrativa sobre Ananias e Safira (At 5,1-11), em Atos dos Apóstolos, observamos que quem retém algo para si mesmo se torna réu de morte. À primeira vista o motivo da morte é a mentira proferida pelo casal – mentistes ao Espírito Santo? -, mas, em nível mais profundo, percebemos que a causa da mentira é a retenção do dinheiro para si. Assim agindo, Ananias e Safira estão dentro da lógica do Império Romano que pautava pela acumulação. Quem abraça um projeto de acumulação acaba chamando para cima de si mesmo a morte, pois freia o imenso potencial humano que quer se desenvolver dentro da lógica da partilha e da vida comunitária. O projeto das primeiras comunidades objetiva partilha total dos bens. Quem não entra de “corpo e alma” no projeto caminha para a morte.

 

1 Gilvander Luís Moreira é Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos de Minas Gerais – CONEDH; Articulista e Colaborador do Portal EcoDebate; e-mail: gilvanderlm@gmail.comwww.gilvander.org.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira

 

2A partilha dos bens é uma utopia a ser cultivada, sobretudo em At 2,44-45; 3,6; 4,32-35.37; 5,1-11.

3Cf. Lc 1,53; 3,11; 7,24-25; 4,18; 6,20.24; 7,21-22; 12,16-21; 16,19-31; 10,35-37; 14,12-14.

4Cf. também Lc 16,9 e At 9,36; 10,2.4.18-23.31; 20,35.

 

EcoDebate, 02/07/2013


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Um comentário em “Ser pobre, sim; rico, não! artigo de Gilvander Luís Moreira

  1. Costumo ler os artigos de Frei Gilvander e sua luta pelos pobres.
    Neste artigo, no entanto, penso que ele comete um equívoco: exalta a pobreza e condena a riqueza. Ao condenar a riqueza, está condenando, indiretamente, o trabalho, pois ninguém trabalha para ser pobre.
    A exaltação da pobreza, baseando-se em textos bíblicos, foi uma das razões da grande disparidade entre os Estados Unidos e os países colonizados por Portugal e Espanha. Enquanto as colônias inglesas na América foram habitadas, principalmente, por calvinistas, que consideram a riqueza um dom de Deus, desde que adquirida honestamente, os países da América do Sul e Central foram colonizados por católicos tradicionais, a quem foi pregado o desprendimento das riquezas. Enquanto os habitantes da grande nação do Norte dão enorme importância ao trabalho, é típico o caso de D. João V, rei de Portugal, que teve seu país enriquecido pela produção das minas de ouro do Brasil, mas, ao invés de criar escolas, hospitais e abrir estradas, preferiu construir igrejas e doar dinheiro ao clero, esperando, com isso, obter a salvação eterna.
    Num país em que todos fossem pobres, como o país poderia pogredir?

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