Os limites do crescimento econômico, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

limites do crescimento econômico

 

[EcoDebate] Em maio de 2013 houve um seminário internacional sobre “A idade dos Limites – Habilidades para uma Vida Sustentável” – conversas sobre o colapso do modelo industrial global – dedicado ao trabalho pioneiro de Donella Meadows, Jorgen Randers e Dennis Meadows e ao famoso relatório de 1972: Os Limites do Crescimento“.

O relatório “Os limites do Crescimento” antecipou uma realidade que hoje em dia se torna cada vez mais visível para quem se preocupa com a natureza, já que as atividades antrópicas já superaram os limites planetários e a pegada ecológica per capita mundial ultrapassou a capacidade de suporte (biocapacidade) do Planeta. Todavia, existe uma “cegueira” oficial e uma negação dos problemas ambientais, pois o crescimento econômico continua sendo um objeto de desejo dos capitalistas, dos trabalhadores, da classe média, dos políticos e até dos religiosos que querem aumentar o faturamento de seus dízimos. O desenvolvimentismo é a ideologia oficial da direita e da esquerda.

Em nome do desenvolvimento, a econometria continua fazendo modelos matemáticos sofisticados que, não raro, se distanciam cada vez mais da realidade. Os modelos de crescimento econômico fizeram enorme sucesso, especialmente depois da grande depressão dos anos de 1930. O modelo de Roy Harrod e Evsey Domar se tornou uma referência básica. No final da década de 1950, Robert Solow e Trevor Swan ampliaram o modelo de Harrod/Domar e reforçaram a idéia neoclássica de que o crescimento econômico pode acontecer ilimitadamente.

O modelo Solow/Swan considera que o crescimento de longo prazo é função da acumulação dos fatores: 1) capital; 2) trabalho e 3) progresso técnico. Considerando que o retorno do capital é decrescente (ou que existe uma tendência à redução da taxa de lucro), as variáveis fundamentais para o crescimento são o aumento da força de trabalho e a continuidade do ritmo ascendente do progresso tecnológico. Assim, a taxa de crescimento sustentável do modelo a longo prazo, chamada de taxa de “steady state”, depende essencialmente do progresso técnico.

Ou seja, a tecnologia virou uma panaceia a qual se atribui a capacidade de superar todos os limites naturais, elevar a produtividade do trabalho e resolver todos os problemas ambientais, enquanto avança o progresso desenvolvimentista. O pico do petróleo seria superado pela tecnologia do “hydraulic fracturing”. O aquecimento global seria resolvido pela “geoengenharia”. Os problemas do chão de fábrica seriam superados pelo “3D printing – Additive manufacturing”. A poluição e a escassez de água doce (potável) seriam resolvidas pela novas tecnologias de “dessalinização da água”, etc.

Contudo, estas panaceias tecnológicas são usadas, na maioria das vezes, para escamotear os problemas de degradação ambiental da nossa cultura industrial global e suas insustentáveis perspectivas de longo prazo. A mitologia da racionalidade tecnológica já foi questionada por Mary Shelley, quando escreveu o livro: Frankenstein, o Prometeu Moderno, publicado em 1818. A filha do iluminista William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft alertou para os efeitos não antecipados da racionalidade e da criatividade humana.

Na prática, o capitalismo utiliza a ciência e a tecnologia para seus objetivos de maximizar o lucro e garantir a continuidade do crescimento da acumulação de riqueza, embora haja uma pauperização crescente do meio ambiente. Mas na prática, a tecnologia não resolveria nenhum grande problema humano se não contasse com os recursos materiais e energéticos da natureza.

Assim, discutir os limites do crescimento econômico passa pela compreensão do conflito entre o processo de concentração da riqueza humana (com todas as suas desigualdades sociais) e o processo de depleção dos recursos naturais. É cada vez mais urgente se buscar formas de vida sustentável, respeitando-se a biodiversidade e os direitos intrínsecos da Terra. Não existe modelo econométrico capaz de resolver a equação do crescimento material infinito em um planeta finito.

Referências:

Age of Limits – Sustainable Life Skills. http://www.4qf.org/index.php/age-of-limits

RESENDE, André Lara. A economia nos limites. Entrevista ao jornal Valor, 26/04/2013

http://www.valor.com.br/cultura/3101306/economia-nos-limites

ALVES, JED. A tecnologia e o Frankenstein. Ecodebate, Rio de Janeiro, 18/04/2012. http://www.ecodebate.com.br/2012/04/18/a-tecnologia-e-o-frankenstein-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O positivismo e o fundamentalismo de mercado de Julian Simon e dos céticos do clima. Ecodebate, Rio de Janeiro, 16/05/2012

http://www.ecodebate.com.br/2012/05/16/o-positivismo-e-o-fundamentalismo-de-mercado-de-julian-simon-e-dos-ceticos-do-clima-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Planejando o decrescimento demo-econômico. Ecodebate, Rio de Janeiro, 05/06/2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/06/05/planejando-o-decrescimento-demo-economico-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

EcoDebate, 12/06/2013


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