Educação ambiental e biologia: são a mesma coisa? artigo de Valdir Lamim-Guedes

 

artigo

 

[EcoDebate] As descobertas científicas são divulgadas ao publicar um artigo em periódico científico, com revisão “às cegas” dos manuscritos por pares, isto é, o revisor é anônimo, tem domínio sobre o assunto tratado no texto e, na maioria das vezes, desconhece a identidade dos autores, tudo isto para garantir independência e qualidade da avaliação, minimizando a divulgação de trabalhos fraudulentos. Compreendendo isto, foi com grande surpresa que recebi o comentário em itálico no trecho reproduzido abaixo, parte de um texto sobre ações de educação ambiental em museus:

(…) visitas a Museus de Ciência e Tecnologia, desempenham um importante papel para que práticas de educação ambiental e/ou do ensino de ciências e biologia (não são a mesma coisa?) obtenham sucesso…

O comentário do revisor estava em caixa alta e em cor vermelha, como se na verdade a intenção era dizer: “que besteira você falou!” Apresento, no texto a seguir, a justificativa de porquê educação ambiental (EA) e ensino de biologia e ciências não são a mesma coisa.

A EA é definida na Declaração da Conferência Intergovernamental de Tbilisi sobre Educação Ambiental, realizada em 1977 na capital da Geórgia (Tbilisi, ex URSS), como uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação, orientada para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente, através de um enfoque interdisciplinar e de uma participação ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade.

Nas escolas brasileiras, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), a temática sobre o meio ambiente é considerada um assunto transversal, que deve permear todas as atividades desenvolvidas com os alunos. Ou seja, não é responsabilidade única dos professores de ciências e biologia tratarem dos problemas ambientais. Assim, EA e Ensino de Ciências e Biologia não são a mesma coisa!

Existe também a ideia de que a EA é sinônimo de Ecologia. Como explica o ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, no livro Ecologia e Cidadania, nas salas de aula, a Ecologia é tratada como um conjunto de conhecimentos científicos e informações sobre os ciclos biológicos, sistemas de fauna e da flora e cadeias alimentares. O conhecimento desses fenômenos é indispensável para a compreensão da vida no planeta Terra e ajuda a defender o meio ambiente, mas não é o suficiente. Não basta conhecer a fotossíntese para entender por que se usam milhões de toneladas de agrotóxicos no Brasil, quais são as alternativas a eles e o que se pode fazer para que essas se viabilizem.

Portanto, EA é mais do que Ecologia. Muitos desafios atuais e conflitos ambientais não podem ser resumidos a questões técnicas ou fragmentadas. Muitas vezes, as atividades educacionais nas escolas têm este aspecto, e a transversalidade de um tema acaba sendo perdida.

Por exemplo, para se estudar adequadamente a Floresta Amazônica, deve-se tratar de sua importância ecológica, como reguladora do clima e produtora de chuvas para várias regiões da América do Sul, assim como detentora de uma riquíssima biodiversidade. Mas é imprescindível citar a problemática do desmatamento e os conflitos fundiários para além de problemas sobre a posse da Terra. A minimização dos aspectos daquela região do Brasil faz perder todo o sentido da vida e significado das mortes de pessoas como Chico Mendes (1944-1988), Irmã Dorothy Stang (1931-2005) e Zé Claudio (morto em 2011). Há questões maiores, como o sistema econômico, luta de classes, disputas históricas, vivências culturais e desafios socioambientais envolvidos.

Como citado no início do texto, se um acadêmico não percebe que a EA é diferente de uma aula de biologia, não é de se espantar as dificuldades em tratar da temática ambiental nas escolas, museus, na mídia ou até mesmo com a vizinhança.

Valdir Lamim-Guedes é biólogo e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Ouro Preto. E-mail dirguedes@yahoo.com.br

EcoDebate, 07/02/2013


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8 comentários em “Educação ambiental e biologia: são a mesma coisa? artigo de Valdir Lamim-Guedes

  1. MUITO BEM
    INFELIZMENTE HÁ MUITO CONFUSÃO E POUQUÍSSIMA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS BRASILEIRAS.ATÉ PORQUE A EDUCAÇÃO AINDA NÃO DEU O SEU SALTO QUÂNTICO!!!
    O TRISTE RESULTADO É QUE A NOSSA POPULAÇÃO INFANTO JUVENIL NÃO APRENDE O MÍNIMO SOBRE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA.
    SÓ SE VÊ LIXO, FOGO E EROSÃO POR TODOS CANTOS!!!

  2. Concordo perfeitamente que biologia e educação ambiental não sâo a mesma coisa. Meio ambiente é um assunto trasnversal e envolve a Engenharia Florestal, a Engenharia Ambiental, a Biologia e várias áreas afins. Estudar o ambiente, esquecendo-se do homem e de suas necessidades de sobrevivência (alimentos, moradia, energia…) é imaginar o paraíso.

  3. Parabéns pela oportuna diferenciação. A educação ambiental no Brasil não saiu da infância, onde os conceitos ainda estão confusos.

  4. A E.A tem ficado muito mais no papel do que na prática concreta, sobretudo no que tangeao dever-obrigação das instâncias governamentais responsáveis que pegam carona nas ONGs e nos ambientalistas para forjar uma E.A que eles não praticam.
    A aplicação dos inumeráveis processos metodológicos não passam de boas intenções que não vão efetivamente a campo e os educadores ambientais são “figuras decorativas” que não recebem respaldo para atuarem. São c omo os turismólogos que não têm apoio para atuar.

  5. Concordo plenamente! Fiz minha iniciação científica sobre a temática de como era a práxis da educação ambiental em museus de ciência, sendo que meus resultados também sofreram críticas de alguns acadêmicos que parecem possuir um pensamento fragmentado, e uma compreensão da “questão ambiental” um tanto quanto fechada e disciplinar; só me questiono se essa heterogeneidade de compreensões no âmbito de conceitos e práticas pertinentes a questão ambiental e da educação consequente não é algo, na realidade, ideológico, de conflitos entre atores no campo social, visando legitimar suas práticas e pensamentos. Postei as principais ideias por aqui, no ecodebate: http://www.ecodebate.com.br/2012/11/22/educacao-ambiental-em-museus-de-ciencia-estamos-sendo-adestrados-ou-educados-artigo-de-gustavo-da-costa-meyer/

  6. Na minha opinião Educação Ambiental, Ciências e Biologia são tão claramente “coisas diferentes” que um revisor que as considera “tudo a mesma coisa” não está qualificado para esta função.
    Independentemente da forma como a EA vem sendo trabalhada nas escolas, o que está sendo exposto aqui é o conhecimento de causa que o revisor deve apresentar acerca do trabalho que está sendo avaliado. Acho isso péssimo pois faz com que percamos a confiança neste sistema de avaliação. De que forma estes revisores são escolhidos? Como os próprios revisores são avaliados?
    Márcia Regina Carlon
    Bióloga, Mestre em Ciência e Tecnologia Ambiental

  7. Considero que a grande lacuna existente na Educação Ambiental (EA) se relaciona à falta de conexão dos problemas ambientais com sua causa primordial, que é a superpulação humana, e da conexão desta com o sistema econômico, o qual, para se desenvolver, depende de uma população crescente, e não atribui qualquer importaância à qualidade do meio ambiente quando esta entra em confronto com o tão almejado desenvolvimento, razão de sua sobrevivência.

  8. Considero que a grande lacuna existente na Educação Ambiental (EA) se relaciona à falta de conexão dos problemas ambientais com sua causa primordial, que é a superpulação humana, e da conexão desta com o sistema econômico, o qual, para se desenvolver, depende de uma população crescente, e não atribui qualquer importaância à qualidade do meio ambiente quando esta entra em confronto com o tão almejado desenvolvimento, razão de sua sobrevivência.
    [NÃO TENHO CONHECIMENTO DE NENHUMA MUDANÇA QUE JUSTIFIQUE UMA ALTERAÇÃO DO MEU DISCURSO. E MAIS: SE O DISCURSO É MESMO, O CONTEXTO É DIFERENTE].

    Prezado Valdeci, mais uma vez lembramos que nossa pequena equipe nem sempre está online e exatamente por isto nem sempre consegue moderar os comentários em tempo real.

    Você já foi informado disso diversas vezes, mas não adianta, porque parece acreditar em uma ‘perseguição’ pessoal, em uma deliberada opção pela censura da sua opinião. Aliás, censura apenas da sua opinião.

    Fazemos o que está ao nosso alcance da melhor forma que conseguimos. Pena que nosso esforço ainda não tenha sido suficiente para contar com a sua confiança.

    Atenciosamente, Henrique Cortez
    coordenador editorial do Portal EcoDebate

Comentários encerrados.

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