Fosso demográfico global: regiões com alto crescimento e com decrescimento populacional, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

Fosso demográfico global: regiões com alto crescimento e com decrescimento populacional

 

[EcoDebate] A população do Planeta continua crescendo, mas pode se estabilizar antes do final do século XXI. Porém, os números médios não mostram que existe um fosso demográfico global (Global Demographic Divide), pois os países considerandos desenvolvidos (More developed) devem apresentar um declínio da população, enquanto os países muito menos desenvolvidos (Least developed) devem apresentar um crescimento demográfico muito acelerado.

Os países hoje considerados desenvolvidos tinham, em conjunto, uma população de 811 milhões de habitantes em 1950 e passaram para 1,24 bilhão de habitantes em 2010. Na projeção média da ONU devem chegar a 1,32 bilhão e 1,34 bilhão, respectivamente, em 2050 e 2100. Na projeção alta os números são 1,48 bilhão e 2,04 bilhões. Na projeção baixa, as estimativas são de uma queda para 1,16 bilhão de habitantes em 2050 e de 830 milhões de habitantes em 2100.

A taxa de fecundidade total (TFT) nos países desenvolvidos era de 2,8 filhos por mulher no quinquênio 1950-55 e caiu para 1,6 filhos por mulher em 2005-10. Se a TFT continuar neste nível a população vai cair para 830 milhões em 2100. Se a fecundidade subir para 2,1 filhos, então valeria a projeção média de 1,34 bilhão até 2100 e se a fecundidade subir para 2,6 filhos por mulher então valeria a projeção alta de pouco mais de 2 bilhões de pessoas. O cenário mais provável é que a fecundidade continue baixa, pois a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos está fazendo as taxas de fecundidade cairem. Portanto, os países desenvolvidos devem chegar em 2100 com uma população parecida com aquela de 1950, com um montante por volta de 800 milhões de habitantes.

A mortalidade infantil era de 60 mortes para cada mil nascimentos em 1950-55 e caiu para 6,4 por mil em 2005-10, devendo chegar a 3 por mil em 2100. A esperança de vida era de 66 anos em 1950-55 e subiu para 77 anos em 2005-10, devendo chegar a 88 anos no final do século. Desta forma, com a queda da fecundidade e o aumento da esperança de vida, os países desenvolvidos vão ter um grande crescimento do grupo de idosos, sendo que a idade mediana já passou de 29 anos em 1950 para 40 anos em 2010 e deve ficar em 44 anos em 2050.

Já os países muito menos desenvolvidos vão apresentar um grande crescimento populacional ao longo do século XXI, muito maior do que o crescimento previsto para os países em desenvolvimento (que é um outro grupo, cujos dados não estão apresentados neste artigo).

Os países considerados muito menos desenvolvidos, os mais pobres do mundo tinham, em conjunto, uma população de 196 milhões de habitantes em 1950 e passaram para 832 milhões de habitantes em 2010. Na projeção média da ONU devem chegar a 1,73 bilhão e 2,69 bilhões, respectivamente, em 2050 e 2100. Na projeção alta os números são 1,95 bilhão e 3,95 bilhões. Na projeção baixa as estimativas são de 1,52 bilhão de habitantes em 2050 e de 1,77 bilhão de habitantes em 2100. Portanto, na projeção média – a mais provável – a população destes países muito menos desenvolvidos vai crescer cerca de 14 vezes entre 1950 e 2100.

No quinquênio 2010-15 devem nascer anualmente cerca de 14,2 milhões de crianças e devem morrer 12,7 milhões de pessoas, nos países desenvolvidos. Isto significa um crescimento de 1,6 milhão de pessoas por ano. Mas no quinquênio 2025-30 o número de nascimentos deve cair para 13,7 milhões e o número de óbitos deve subir par 14 milhões, significando uma diminuição de 340 mil pessoas por ano.

Já nos países muito menos desenvolvidos o número anual de nascimentos no quinquênio 2010-15 deve ficar em torno de 28,9 milhões para 8,8 milhões de óbitos, significando um aumento populacional de 20 milhões de pessoas ao ano. No quinquênio 2025-30 o número de nascimentos deve subir para 33,7 milhões e o número de óbitos para 9,8 milhões, significando um aumento de 23 milhões de habitantes por ano.

Este alto crescimento demográfico se deve ao lento processo de transição da fecundidade e à permanência de uma estrutura etária jovem, nestes países com menor nível de desenvolvimento econômico e social. O número médio de filhos por mulher era de 6,54 em 1950-55, caiu para 4,4 filhos em 2005-10 e estima-se, na projeção média, que caia para 2,76 filhos em 2045-50 e 2,13 filhos em 2095-00. Portanto, a população dos países muito menos desenvolvidos deve passar de 196 milhões de habitantes em 1950 para 2,69 bilhões de habitantes em 2100, mesmo em um quadro de queda da fecundidade. Se não houver a queda esperada o aumento populacional poderá ser bem maior e chegar a quase 4 bilhões de habitantes no final do século.

Evidentemente, este alto crescimento populacional dos países muito menos desenvolvidos vai dificultar a redução da mortalidade infantil, o aumento da esperança de vida e a diminuição da situação de pobreza. A mortalidade infantil era de 192 por mil em 1950-55 e caiu para 80 por mil em 2005-10, enquanto a esperança de vida subiu de 37 anos para 57 anos no mesmo período. Este conjunto de países pobres possuem uma estrutura etária jovem, com idade mediana em torno de 19 anos (metade da população tem menos de 19 anos) e uma alta razão de dependência demográfica que dificulta a decolagem do desenvolvimento. Se nada for feito exogenamente, estes países podem ficar presos à “armadilha da pobreza” e com dificuldades para mudar o círculo vicioso entre pobreza e alto crescimento demográfico.

No caso do Brasil e da China, que são considerados países em desenvolvimento, haverá também, após 2030, decrescimento populacional ao longo do século XXI. Ambos os países vão passar por um grande processo de envelhecimento populacional e, em termos demográficos, vão ficar mais parecidos com os atuais países desenvolvidos.

Os países desenvolvidos também vão ter uma alta razão de dependência demográfica (de idosos), mas como já possuem baixas taxas de mortalidade infantil, alta esperança de vida e altos níveis de escolaridade e renda, poderão suportar melhor os desafios demográficos. Mas provavelmente vão ter dificuldades para manter o crescimento econômico e sustentar o alto padrão de vida.

Em termos ambientais os países desenvolvidos (de alta renda) tinham, em 2008, uma pegada ecológica per capita de 5,6 hectares globais (gha) e uma biocapacidade de 3 gha, portanto apresentavam um grande déficit ambiental. Já os países muito menos desenvolvidos tinham uma pegada ecológica per capita de 1,14 gha e uma biocapacidade também de 1,14 gha, portanto em uma situação de empate entre pegada ecológica e biocapacidade, segundo o Relatório Planeta Vivo, da WWF.

Uma redução da população dos países desenvolvidos vai ajudar a diminuir a pegada ecológica. Contudo, um aumento muito grande da população dos países muito menos desenvolvidos vai criar um grande déficit ambiental nas regiões mais pobres do Planeta. A alternativa de migração das regiões pobres para a ricas pode até ser bom para os migrantes, mas aumentaria a pegada ecológica global, aumentando o déficit que já existe em escala planetária. Além disto, um volume muito grande de migração do “Sul econômico” para o “Norte econômico” tende a aumentar os conflitos sociais, os choques culturais e as manifestações de xenofobia.

Tudo indica que haverá pequeno crescimento, estabilização ou até decrescimento econômico nos países mais ricos e com alto déficit ambiental. Assim, a redução demo-econômica nos países ricos vai ter um impacto negativo nos países pobres. O fato é que o fosso demográfico (decrescimento em alguns países e alto crescimento populacional em outros) tende a aumentar outras desigualdades. A solução passa pelo apoio dos países ricos aos países pobres, para que haja aumento dos direitos de cidadania no mundo no sentido da construção de um planeta com maior equidade econômica, social e demográfica.

Referências e nota:
Mary M. Kent and Carl Haub. Global Demographic Divide, PRB, Population Bulletin, v.60, n. 4, 2005

UN/ESA. World Population Prospects: The 2010 Revision

Nota: Classificação da ONU para os países desenvolvidos (More developed) e países muito menos desenvolvidos (Least developed):

Paises desenvolvidos (Belarus, Bulgaria. Czech Republic, Hungary, Poland, Republic of Moldova, Romania, Russian Federation, Slovakia, Ukraine, Denmark, Estonia, Faeroe Islands, Finland, Iceland, Ireland, Latvia, Lithuania, Norway, Sweden, United Kingdom, Albania, Andorra, Bosnia and Herzegovina, Croatia, Gibraltar, Greece, Holy See, Italy, Malta, Montenegro, Portugal, San Marino, Serbia, Slovenia, Spain, TFYR Macedonia, Austria, Belgium, France, Germany, Liechtenstein, Luxembourg, Monaco, Netherlands, Switzerland, Bermuda, Canada, Greenland, United States of America, Australia, New Zealand and Japan).

Países muito menos desenvolvidos (Burundi, Comoros, Djibouti, Eritrea, Ethiopia, Madagascar, Malawi, Mozambique, Rwanda, Somalia, Uganda, United Republic of Tanzania, Zambia, Angola, Central African Republic, Chad, Democratic Republic of the Congo, Equatorial Guinea, São Tomé and Príncipe, Sudan, Lesotho, Benin, Burkina Faso, Gambia, Guinea, Guinea-Bissau, Liberia, Mali, Mauritania, Niger, Senegal, Sierra Leone, Togo, Afghanistan, Bangladesh, Bhutan, Nepal, Cambodia, Lao People’s Democratic Republic, Myanmar, Timor-Leste, Yemen, Haiti, Solomon Islands, Vanuatu, Kiribati, Samoa and Tuvalu).

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

EcoDebate, 18/01/2013


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