Infra, artigo de Montserrat Martins

 

Artigo

[EcoDebate] Frear pedágios abusivos é a mais popular medida do governo gaúcho até agora e mesmo se as concessionárias forem à Justiça esse será um bom debate, necessário, melhor do que deixarmos como está hoje. E que leva a uma questão ainda mais importante, nosso modelo de transportes e toda a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento da economia, principalmente porque as previsões são de anos mais difíceis pela frente, a partir de 2013.

Interessante a ideia exposta no rádio (não me lembro o autor) de que a EGR (Empresa Gaúcha de Rodovias) fosse ampliada para EGI, Empresa Gaúcha de Infraestrutura. Se é para criarmos uma estatal, com todos os riscos e efeitos colaterais embutidos, então temos de ir além das rodovias e pensar nas malhas ferroviárias e hidroviárias, que o país colocou em segundo plano há meio século. No sul mais ainda, pois o transporte de cargas no RS depende em 85% das rodovias, acima da média nacional de 65%.

Ciclovia nas cidades é uma ideia melhor se estiver conjugada com metrôs como acontece na Europa, onde você pode deixar a bicicleta ao lado da estação quando trabalha muito longe de casa. Com toda a crise no velho continente, eles tem uma “infra” de dar inveja e que levará muitas décadas para construirmos por aqui, a partir de quando acordarmos para isso. Aliás, também as rodovias de lá tem pistas de qualidade que contrastam com as nossas, esburacadas e remendadas, cuja precariedade estaria na falta de preparo adequado das camadas abaixo da cobertura asfáltica ou de cimento.

“Infra” é o que nos falta tanto a nível logístico, para uma economia sustentável, quando a nível simbólico, cultural. A imagem das superfícies remendadas, porque não cuidamos do que está abaixo delas, é a metáfora perfeita para um país que é uma potência ambiental, mas que vive numa cultura de superfície. Aqui discutimos e combatemos efeitos, não suas causas, por isso vivemos de “políticas compensatórias” (bolsa família, cotas raciais) que se eternizam porque não construímos políticas infra-estruturantes. Investimentos em áreas estratégicas como Educação (o caso da Coréia), uso planejado dos recursos hídricos (um dos “gargalos” da China), saneamento, novas tecnologias e energias renováveis (está na pauta de Obama, na de Hu e Wen, bem retratados em “On China”) são tão importantes quanto a logística de transportes que não temos e as políticas sociais que o país postula ter. Não são questões teóricas e sim práticas, que terão de ser enfrentadas por todas as nações “emergentes” na economia mundial, como o Brasil.

Na década passada, os gaúchos viveram uma onda de vendas de estatais (a privatização das telecomunicações, da CRT, por exemplo) que chegaram a ameaçar o próprio banco estadual. A lucratividade do Banrisul evidencia o mau negócio que seria o Estado se desfazer dele e além disso o dinheiro das vendas foi rapidamente consumido para tapar furos nas contas do tesouro. O que relembro aqui como contraponto às desconfianças sobre estatais, pois a verdadeira questão não se resume a se a gestão é privada (à americana) ou estatal (à chinesa), mas a sua competência e compromisso com a sociedade.

Quer dizer, que sejamos capazes de construir uma “cultura do interesse público” para questões que nos afetam a todos. Que venha a EGR e, porque não, passemos a pensar numa “EGI” e nas questões de “infra”, afinal.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 27/07/2012

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