Rio+20: Antropólogo denuncia exploração escrava do conhecimento tradicional dos piaçabeiros na Amazônia

 

Notícia

O conhecimento tradicional em manejo de piaçaba, fibra utilizada na vassoura, vem sendo explorado por comerciantes que utilizam a mão-de-obra escrava de indígenas de várias etnias, principalmente tucanos e bares, no Médio Rio Negro, em Barcelos, município da Amazônia que faz fronteiras com a Venezuela.

Esse foi o tema central da conferência “Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil”, proferida pelo antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – que faz parte da série SBPC na Rio+20, realizada no Armazém 4, do Pier Mauá, zona portuária do Rio de Janeiro.

Embora os indígenas sejam os protagonistas da Rio+20 pelo papel que exercem na preservação e conservação da Biodiversidade, o termo Sociobiodiversidade, que envolve a situação socieoconômica desses povos, é pouco explorado na Conferência sobre o Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), disse Almeida. “Essa é uma questão importantíssima [para ser tratada na Rio+20]”, afirma. “Os piaçabeiros do Médio Rio Negro trabalham em condições análogas a trabalho escravo, sem o reconhecimento real do custo de produção de seus trabalhos. O preço pago pelo trabalho dessas pessoas é ínfimo”, disse Almeida, destacando que as fibras são exportadas principalmente para Europa.

Conforme o antropólogo, conselheiro da SBPC, esses indígenas, que moram em uma região com alta incidência de barbeiro, vivem em condições muito sofridas. O dinheiro simbólico que os piaçabeiros recebem da extração da fibra é destinado ao sustento das famílias. “É uma troca muito desigual pela força de trabalho exercida por esses povos”, declarou.

Sob pressão de armamento dos comerciantes do setor de piaçaba, os indígenas recebem apenas R$ 0,25 centavos para cada rolo extraído da fibra, estimado entre 13 e 14 quilos, no mínimo. “É um ato de exploração da força de trabalho”, reafirma o antropólogo, coordenador do projeto Novas Cartografias Social da Amazônia. É um valor simbólico considerando que são utilizados 300 gramas da fibra, em média, na produção de cada vassoura de piaçaba.

Essa é uma atividade que exige muito esforço físico dos indígenas que têm de cumprir uma carga horária de trabalho de quase 15 horas (das 5h da manhã às 18h) por dia. Essa situação de clara exploração do conhecimento tradicional foi registrada em vídeo de 30 minutos apresentado pelo antropólogo durante sua conferência em um dos auditórios do Armazém 4. Para atingir as metas diárias, cada indígena produz 50 rolos da fibra.

Como ferramentas de trabalho utilizam apenas facas e facões afiadíssimos em um movimento repetitivo que requer muita habilidade das mãos e a ajuda dos pés que, sem nenhuma proteção, servem como ganchos para prender o molho de fibras e facilitar os cortes que parecem feitos por máquinas industriais.

Logística – Os rolos de fibras, praticamente prontos para produção da vassoura, são encaminhados para os industriais em um percurso estimado em 8 horas para chegar ao destino final. O produto artesanal é transportado de barco das águas de Barcelos para Manaus, que em seguida é destinado ao porto de Belém e de lá segue para Europa.

Matéria de Viviane Monteiro, no Jornal da Ciência / SBPC, JC e-mail 4522, publicada pelo EcoDebate, 21/06/2012

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