Resíduos de podas e limpeza urbana, artigo de Roberto Naime

 

[EcoDebate] Todos os administradores municipais e pessoal que trabalha em gestão ambiental incluindo a gestão de resíduos vegetais, conhecida como resíduos de podas conhece bem o desafio de harmonizar as redes elétricas suspensas com a arborização e vegetação que conferem características urbanas e antrópicas aos espaços físicos.

Os resíduos provenientes de podas preventivas ou corretivas atingem grandes volumes em todas as áreas urbanas e são constituídos de biomassa extremamente rica em carbono e nitrogênio, dentre outros elementos e não pode ser desperdiçada com o envio para onerosos aterros sanitários. São classificados na classe IIA da NBR 10.004/2004.

A lei 12.305 da política nacional de resíduos sólidos estabelece a diretriz de que num horizonte mediano de tempo, todos os resíduos devem ser valorados e utilizados de acordo com as suas características, finalizando com a concepção que todo o resíduo que não possa ser utilizado tenha um último tratamento para recuperação energética. Pelo que se depreende, este diploma legal em sua exgese aponta para a direção de não mais criar passivos ambientais intangíveis através de aterramento sanitário.

A compostagem é a solução mais indicada e mais adequada para este tipo de resíduo urbano devido a sua composição. Este processo é ainda mais valorizado na medida em que se possa consorciar a utilização do lodo proveniente das estações de tratamento de água (ETAs) e da série de estações de tratamento de esgotos (ETEs) que se encontram em implantação para solucionar o grave problema do saneamento básico.

Compostagem em pilhas revolvidas e estáticas ou através de qualquer outro método de aeração no tratamento das podas de árvores, com o acompanhamento da maturação do composto, através do monitoramento físico (temperatura, cor e odor), químico (pH, C/N, metais pesados e elementos nutrientes) e biológico (germinação de sementes e presença de patôgenos), ainda consorciada com lodos enriquecidos em carbono são procedimentos muito adequados.

Estes procedimentos são passíveis da elaboração de projetos de mecanismos de desenvolvimento limpo e certificados de redução de emissões de carbono. Existem atualmente 62 projetos deste tipo do mundo (CORTEZ et al, 2008), e outros 8 já aceitos, sendo destes 5 na Malásia, 1 na Colômbia, 1 na China e 1 em Bangladesh.

Dados de Cortez et al (2008) indicam que a maioria dos municípios ainda descarta este resíduo nobre pela sua composição, em aterros sanitários. Demore o quanto for, não é possível planejar um sistema integrado de gestão de resíduos sólidos, que preveja o envio deste tipo de resíduo para aterro sanitário. Primeiro porque até é contra a legislação vigente, segundo por que se trata de uma estupidez descomunal. E ainda poderíamos citar que o desperdício aumenta na medida em que não é considerado o consorciamento com o lodo, que acelera e enriquece muito o processo.

E a quantidade de lodos de ETAs e ETEs é muito grande para que não se planeje soluções sistêmicas e se continue apostando em soluções casuísticas ou espontaneístas para a enorme quantidade de lodo.

Quando dispostos em aterros, os resíduos de poda, pela sua composição, produzem grande quantidade de metano e gás carbônico que sendo lançado na atmosfera constitui grande quantidade de gases de efeito estufa (GEE). O metano particularmente tem potencial de aquecimento muito mais elevado que o gás carbônico para a atmosfera. Nos aterros também ocorre a contaminação da água por chorume de decomposição da matéria orgânica.

A disposição direta dos resíduos de poda como fertilizante no campo não causa impactos ambientais negativos, mas é muito pouco realizada pois demanda custos, infra-estrutura e planejamento. Ocorre a formação de serrapilheiras que é a principal fonte de nutrientes destes ambientes.

A queima descontrolada destes materiais provenientes de poda, gera impactos negativos sobre a atmosfera, podendo liberar gases tóxicos e carcinogênicos (DIAS, 1999).

A técnica de compostagem é a que causa menores impactos ambientais e contribui significativamente para a redução do volume inicial dos resíduos produzidos. Comumente é usada para se obter rapidamente em condições adequadas a estabilização da matéria orgânica. A palavra composto, derivada do vocábulo inglês “compost” é usada para designar fertilizantes de origem orgânica.

É um processo utilizados desde a antiguidade a adição de matéria orgânica na agricultura. Este processo é verificado constantemente num ambiente natural, os resíduos são gerados pela queda espontânea das folhagens e são incorporados ao solo através da decomposição natural e retornam aos vegetais sob forma de nutrientes.

Para que se estabeleça um processo de compensação eficiente, a taxa ótima inicial de carbono e nitrogênio C/N no material a ser compostado está ao redor de 25/30, a taxa C/N no composto final obtido é de 10/20.

A compostagem realizada em pequena e grande escala é especialmente indicada para resíduos sólidos compostos de celulose e lignina, tais como resíduos de jardinagem e poda, e a digestão aeróbica é particularmente o processo mais apropriado. Particularmente consorciado aos lodos de ETAs e ETEs que favorecem o aumento da relação C/N é muito apropriada.

As prefeituras e comunidades podem se beneficiar deste composto não mais precisando adquirir adubos petroquímicos ou de outras naturezas para manutenção de suas áreas verdes (praças e jardins).

CORTEZ, C. L.; COELHO, S. T.; GRISOLI, R. e GAVIOLI, F. Compostagem de resíduos de poda urbana. Centro Nacional de Referência em Biomassa (CENBIO). Instituto de Eletrotécnica e Energia. Universidade de São Paulo, Nota Técnica IX, 17p, 2008
DIAS, M. C. O. et ali. Manual de Impactos Ambientais: orientações básicas sobre atividades produtivas. Fortaleza. Banco do Nordeste, 158p. 1999
KIEHL, E. J. Manual de compostagem. Maturação e qualidade do composto. Piracicaba., p 40-41. 1998

Dr. Roberto Naime, Colunista do EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

EcoDebate, 17/05/2012

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2 comentários em “Resíduos de podas e limpeza urbana, artigo de Roberto Naime

  1. VISÃO DE NEGÓCIO

    Muito bem colocada pelo Dr. Naime (tecnicamente) a questão de destinação de “resíduos de podas e limpeza pública + lodos de ETAs e ETEs”, a ser aplicada como uma das alternativas (ou componentes) de um sistema abrangente de tratamento de resíduos sólidos urbanos. No caso, a “compostagem”.

    Entretanto, na minha opinião, em função da pouca capacidade de financiamento, técnica e de gestão das Prefeituras Municipais (incumbidas de gerirem os RSU – Lei Federal), que poderiam ser direcionadas para um, digamos, empreendimento operacional de compostagem (salvo raros e honrosos esforços pontuais e isolados), é fundamental que se traga como parceiros, para essa cadeia de valores, a participação da iniciativa privada e órgãos financiadores com suas tecnologias comprovadas e sustentáveis, bem como seu “modus operandi” baseado em produtividade.

    Para isso, há de se mostrarem – no longo prazo – a viabilidade e segurança econômico-financeira, legal, regulatória, ambiental e política de tais empreendimentos. Por exemplo, através de PPPs e/ou Concessões de longo prazo, devidamente e blindadas contra eventuais descontinuidades a cada 4 anos (trocas do poder executivo/ legislativo).

    Normalmente, um empreendimento desse tipo, se mostrará mais atraente (conforme alguns exercícios existentes, além de plantas internacionais de sucesso) quando se agregam à compostagem, também, a reciclagem e o aproveitamento energético (eletricidade, bio combustíveis, outros subprodutos). Incluindo-se receitas oriundas do crédito de carbono estruturadas via projetos de MDL.

  2. Resíduos de Podas e limpeza urbana deveriam ser mesmo destinados a Compostagem pela Prefeitura mas para isso é preciso que a mesma disponha de lugar apropriado para tal e seria interessante dispor de potentes trituradores para fragmentar o material. No município em que moro a Prefeitura simplesmente joga este material num lixão sem ao menos aproveitar o material lenhoso que poderia ser distribuido para as poulações mais pobres…mas deixa pra lá vou escolher em que mentira vou acreditar…

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