Censo Demográfico 2010: As transições da sociedade brasileira, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

[EcoDebate] O IBGE divulgou os resultados dos microdados da amostra do censo demográfico de 2010, no dia 27 de abril de 2012. Os dados confirmam as grandes tendências de mudanças e lançam luzes sobre o ritmo e o grau destas mudanças.

O Brasil passou por grandes transformações econômicas e sociais no século XX, deixando de ser uma sociedade predominantemente rural e agrária, para se tornar uma sociedade urbana com predominância econômica da industria e do setor de serviços. Em rápidas linhas, seguem as principais mudanças das últimas décadas e que devem se aprofundar nos anos vindouros.

A população brasileira cresceu quase 20 vezes entre 1872 e 2010. Atingiu o máximo de crescimento nas décadas de 1950 e 1960, reduziu o ritmo a partir de 1970 e deve continuar crescendo lentamente até 2030, para, em seguida, fazer a transição para o decrescimento. A população em 2010 foi de 191 milhões de habitantes e deve chegar ao pico de 210 milhões antes de diminuir. Mas o IBGE ainda não atualizou suas projeções e será preciso considerar as mudanças na migração internacional.

Um dos dados que mais chamaram a atenção na divulgação dos dados da amostra do censo 2010 foi a redução na taxa de mortalidade infantil que caiu de 29,7 por mil, no ano 2000, para 15,6 por mil, em 2010. De acordo com o Instituto, os principais fatores responsáveis pela queda do indicador foram as políticas de medicina preventiva, curativa, saneamento básico, programas de saúde materna e infantil, queda da fecundidade, além da valorização do salário mínimo e dos programas de transferência de renda. Mas, as taxas ainda continuam altas comparadas com outros países como Cuba que onde a taxa é de 5 mortes por mil nascimentos, Coréia do Sul de 3,8 por mil e Singapura de extremamente baixo 1,9 mortes para cada mil nascimentos. As taxas de mortalidade são menores entre as mulheres.

Os homens eram maioria da população brasileira até a década de 1930. A transição da razão de sexo ocorreu a partir de 1940, quando as mulheres tornaram-se maioria e, progressivamente, tem aumentado o superávit feminino no país. Em 2010 havia um montande de 4 milhões de mulheres a mais do o número de homens. Este superávit aumenta na medida em que se sobe na pirâmide etária.

As mulheres foram as responsáveis pelas maiores mudanças na sociedade brasileira. Elas vivem mais do que os homens, são maioria do eleitorado, possuem maior nível de escolaridade e já são maioria na População Economicamente Ativa – PEA com mais de 11 anos de estudo. Elas estão fazendo a transição da exclusão para o empoderamento.

A população urbana passou de 19 milhões, em 1950 para 161 milhões, em 2010 (de 36% para 84% do total). As regiões Norte e Centro-Oeste são as que mais crescem. A transição urbana foi acompanhada pela concentração da população nos municípios com mais de 100 mil habitantes, pelo crescimento das cidades médias e pelo aumento dos territórios do interior em relação às cidades litorâneas do país. Mas a deseconomia de escala da urbanização mostra que cresceu o número de pessoas que gastam mais de uma hora para chegar ao trabalho, representando um grande custo de tempo e piora da qualidade de vida.

Antes de 1970, o número médio de filhos por mulher estava acima de 6 e caiu para menos de 2 filhos. Isto quer dizer que a transição da fecundidade já chegou a níveis abaixo da reposição populacional. O censo 2010 indicou uma Taxa de Fecundidade Total (TFT) de 1,9 filhos por mulher, sendo que houve uma grande queda da gravidez na adolescência, mesmo entre a população mais pobre.

O Brasil está saindo de uma estrutura etária jovem para uma estrutura adulta e caminha para uma estrutura etária envelhecida. A razão de dependência era alta entre os jovens e baixa entre os idosos, porém vai se inverte nas próximas décadas. Á partir do final da década de 2030 o número de habitantes de 65 anos e mais será maior do que o de habitantes de 0 a 14 anos.

Cresce o número de domicílios com 5 ou mais cômodos e diminui o número médio de pessoas em cada moradia, ao mesmo tempo em que se reduz o tamanho das famílias e aumenta a diversidade dos arranjos familiares. Existe menor densidade por pessoa nas moradias. Também existe uma grande quantidade de domicílios não ocupados.

A população branca caiu de 54% em 1980 para 48% em 2010, deixando de ser a maioria da população. No mesmo período, as pessoas que se declaram pardas (mestiças) passou de 39% para 43% e as pessoas que se declaram pretas passou de 6% para 7,6%. O Brasil caminha para uma maioria mestiça na população.

O Brasil tinha, em 1974/75 mais pessoas com déficit de peso do que obesas. Mas em 2008/09 já havia cerca de 50% das pessoas com excesso de peso e cerca de 15% em situação de obesidade.

O Brasil tem conseguido reduzir as taxas de pobreza, desde 1994, possibilitado um processo de mobilidade social ascendente com o crescimento das parcelas classificadas como “classe média”. As mulheres continuam, em média, recebendo menos do que os homens, mas o hiato de gênero diminuiu: “Enquanto o rendimento médio real de trabalho dos homens passou de R$ 1.450 para R$ 1.510, 2000 para 2010, o das mulheres foi de R$ 982 para R$ 1.115. Em termos de ganho real, a diferença foi de 5,5% para ambos os sexos, 13,5% para as mulheres e 4,1% para os homens. A mulher passou a ganhar 73,8% do rendimento médio de trabalho do homem; em 2000, esse percentual era 67,7%”.

O percentual de pessoas com curso superior completo subiu de 4,4% para 7,9%, enquanto o percentual de pessoas sem instrução ou com o fundamental incompleto caiu de 65,1% para 50,2%, com o avanço ocorrendo em todas as grandes regiões.

A retomada do crescimento econômico brasileiro, em um momento de crise nos países desenvolvidos, fez com que 174,6 mil brasileiros retornaram ao país entre 2005 e 2010. Os principais estados de destino desses imigrantes de retorno foram São Paulo, Paraná e Minas Gerais que, juntos, receberam mais da metade dos imigrantes internacionais do período.

Mais informações no link do IBGE: http://www.censo2010.ibge.gov.br/amostra/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

EcoDebate, 02/05/2012

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