O espelho, artigo de Efraim Rodrigues


[EcoDebate] Nos anos 70 ainda era possível impressionar as pessoas com uma imagem colorida. Impressionar no sentido de mover, não impressionar como ficamos, por exemplo, ao ver um camarada nadando em uma estação de esgoto para… bem, para impressionar.

Em 7 de dezembro de 1972, a Apolo 17 tirou uma das fotos mais reconhecidas de todos os tempos. Pela primeira vez vemos a Terra toda, a cor azul dominante, África e Oriente Médio, nuvens brancas cobrindo o Pólo Sul. Já fazia séculos que sabíamos que a Terra é redonda, conhecíamos o contorno dos continentes e tudo o mais, mas esta imagem conta uma nova história. Ela mostra nossa solidão no espaço, ela sintetiza visualmente a “Espaçonave Terra”.

Poucos anos após esta imagem ter rodado o mundo (ou uma versão dele bem mais vasta que a atual), o DDT foi banido, catalisadores começaram a ser usados nos carros, a agência ambiental norte-americana foi criada e depois copiada em muitos países. Até a teoria de Gaia, de James Lovelock, foi inspirada nesta imagem. Gaia é uma metáfora segundo a qual o planeta seria um organismo. Ela trouxe benefícios concretos apesar da falta de fundamento científico, já que para muitas pessoas “Gaia está triste” impressiona mais do que “O planeta está em crise”.

A foto da Apolo 17 é o espelho nos qual nos reconhecemos. Com isso nos tornamos humanos, mais conscientes com nossa caverna e com o gigantesco espaço inóspito que jaz além dela.

A notícia ambiental da semana é que começamos a receber os dados de um novo satélite especializado em temperatura e umidade – SUOMI NPP. Não parece grande coisa, mas é. Conhecer a temperatura e umidade do planeta inteiro em tempo quase real irá melhorar tanto nossa capacidade de previsão do tempo, como de nos colocar em posição menos pior diante das instabilidades trazidas por este monte de carbono em nossa atmosfera. Um mosaico composto das imagens do novo satélite rodaram nosso pequeno mundo de agora, mas atraiu pouca atenção para boa nova ambiental.

Em um mundo de conexões ultra rápidas e Google Earth,  estamos tão acostumados a clicar aqui e ali e ter tantas imagens que talvez seja impossível impressionar, mesmo com imagens do planeta atualizadas diariamente. Seria esta embriaguez de imagens que termina por induzir a preferência pelo “esportista” das águas residuárias ? É de cada um escolher a porção de si próprio que prefere ver no espelho. Há narcisos que preferem enxergar o planeta inteiro, há narcisos que preferem se ver nadando no esgoto. Mais pessoal ainda é escolher o que fazer de nossas próprias vidas, impressionados por estas imagens.

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Também ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva. É professor visitante da UFPR, PUC-PR, UNEB – Paulo Afonso e Duke – EUA. Publica o blogue Ambiente por Inteiro.
EcoDebate, 23/03/2012

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