Agrotóxicos: uso excessivo compromete saúde da população. Entrevista com João Pedro Stedile

 

João Pedro Stedile em palestra na Fiocruz. Foto: Fernando Taylor (Asfoc)
João Paulo Stedile em palestra na Fiocruz. Foto: Fernando Taylor (Asfoc).

O uso de agrotóxicos no campo como forma de aumentar a produção agrícola é o principal alvo da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, lançada em 2011 e coordenada por João Pedro Stedile, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Stedile arrebatou o público da Fiocruz na última quarta-feira (14/2), com palestra sobre o tema, que abriu o ano letivo 2012 da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).

Para Stedile, “o crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil não tem a ver com necessidade agronômica, com condições climáticas, mas com o modelo atual do agronegócio, para conseguir produtividade e lucro máximos. Por isso, é preciso conscientizar a população para que, num processo de transição, cheguemos à não utilização de nenhum tipo de veneno agrícola”, destacou, informando que o uso excessivo do veneno causa um milhão de novos casos de câncer no Brasil por ano, conforme estatística do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Em entrevista concedida após o evento, o homem de cabelos brancos, olhos azuis e fala segura, de forte sotaque sulista, lembrou que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e apontou a China e a Índia, os mais populosos, como exemplos de países que utilizam a agricultura familiar para alimentar sua população. Leia, a seguir.

O discurso favorável ao uso do agrotóxico defende que se trata de um recurso necessário para alimentar grande quantidade de pessoas. Nesse caso, se olharmos o exemplo de países asiáticos, constatamos que lá o agronegócio não floresceu. O senhor poderia explicar por quê?

João Pedro Stedile: A China tem um modelo de desenvolvimento criticável porque ela está fazendo uma industrialização agressora ao meio ambiente, com grandes fábricas, siderúrgicas, utilizando energia fóssil, carvão e petróleo. Mas a agricultura chinesa ainda se mantém como preconizada na reforma agrária do Mao Tse Tung. Estive na China no ano passado, viajando durante um mês pelo interior do país. Cada família que mora no campo tem um hectare de terra e nesse único hectare produz o seu alimento e vende o excedente para o mercado interno. Nas cidades, o governo criou empresas públicas que compram do camponês seu excedente. Então, o controle do comércio dos alimentos na China é feito por empresas estatais ou grandes cooperativas organizadas pelo governo. E o mais interessante é que os chineses têm uma tradição alimentícia que não utiliza alimentos estocados ou guardados ou com conservantes. Eles possuem técnicas e controles, como se todo dia comessem alimentos frescos.

A agricultura na China não é um negócio; é organizada em comunidades rurais que produzem e alimentam 1,3 bilhão de habitantes. A Índia, segundo país mais populoso do mundo, tem 400 milhões de camponeses. Trata-se de um país mais pobre porque está menos desenvolvido industrialmente do que a China, pois o território é menor. Mas na Índia também há uma agricultura camponesa que sustenta sua população de 1,1 bilhão de habitantes. Aqui, temos a ideia de que só podemos produzir açúcar e cana se for em grandes canaviais, porque essa foi a tradição do capital. Mas a Índia é o maior produtor mundial de cana de açúcar, sustenta a sua população e ainda exporta. Toda sua produção de açúcar e cana é baseada na pequena propriedade. O agricultor divide a sua produção desta forma: um hectare de feijão, um de arroz, um de cana. E por que aqui no Brasil precisa ser só cana? Esse é o modelo do capital que quer lucro máximo. Podemos produzir açúcar, álcool, com outras tecnologias, em menores escalas, evitando agredir o meio ambiente. O Brasil sempre foi um território permanentemente disputado pelo capital internacional, desde o início. Essa é a nossa herança.

Quais são os modelos alternativos de produção agrícola existentes no Brasil?

João Pedro Stedile: Existem centenas de experiências localizadas de produção agrícola sem uso de veneno; cada experiência adota um nome diferente: agricultura alternativa, agricultura orgânica, agricultura ecológica etc. Na academia também há uma proliferação de conceitos sobre esses modelos de produção que não usam veneno e não são agressores do meio ambiente. Então, combinamos e passamos a adotar uma espécie de conceito genérico que chamamos de agricultura agroecológica. Trata-se de um conceito mais amplo e, dentro dele, estariam incluídas as várias experiências e ramificações, um pouco mais radicais, sobre como aumentar a produtividade do trabalho, como aumentar a produtividade do solo sem usar veneno e sem desequilibrar o meio ambiente e em convívio com a biodiversidade. A natureza da agricultura, que significa cultivar o agro, é justamente cultivá-lo em simbiose com o que esse agro tem da sua multidiversidade de vida, que é a biodiversidade.

Como aumentar a produtividade agrícola sem usar agrotóxicos?

João Pedro Stedile: Existem várias técnicas baseadas na experiência milenar de povos antigos, utilizadas, inclusive, pelos camponeses que se instalaram no Brasil a partir do século XX. Para cada cultura agrária existe um conhecimento acumulado. Por exemplo, utilizando fertilizantes orgânicos você fortalece o solo e a planta fica sadia, não vai ficar doente, e você não precisará colocar veneno. Uma outra técnica generalizada é a que pratica a agricultura diversificada, porque se você planta em uma mesma área diversas plantas e alimentos, uma planta interage com a outra e forma um equilíbrio que evita veneno. Há a ilusão de que o monocultivo produz mais, mas isso não é verdade. O monocultivo produz mais daquela planta, mas se você planta vários produtos numa mesma área de 10 hectares, por exemplo, na soma de cada um desses produtos, no final das contas, você terá um volume de alimentos muito superior do que o que seria obtido no monocultivo. E há também muitas práticas e técnicas que já estão catalogadas e disseminadas, inclusive inseticidas naturais que você faz da semente da planta. A técnica consiste em colocar a semente na água, produzindo um veneno natural, sem ser agressor. No caso da soja, em vez de utilizar o glifosato, ou outro inseticida forte para lagarta, é possível usar a lagarta, as primeiras que aparecem. Depois de congeladas, a lagarta é colocada no liquidificador com água – esse é o principio clássico. A bactéria da própria lagarta vai matar as outras. Portanto, é possível usar a própria natureza em busca do equilíbrio para que não haja perda da produção. Então, há um conhecimento técnico acumulado em varias áreas para vários produtos.

Deixar de utilizar o agrotóxico interfere no modelo econômico, de acordo com o que você explicou na palestra. Como isso poderia acontecer?

João Pedro Stedile: Sem dúvida, e esse foi o espírito que eu usei na exposição, o uso do veneno está ligado ao modelo utilizado atualmente. O crescimento do uso de agrotóxicos no Brasil não tem a ver com necessidade agronômica, com condições climáticas, mas com o modelo atual do agronegócio, para conseguir produtividade e lucro máximos. Por isso, é preciso conscientizar a população para que, num processo de transição, cheguemos à não utilização de nenhum tipo de veneno agrícola. Então, para combater definitivamente o agrotóxico, temos de superá-lo e difundir a agricultura familiar. E a agricultura familiar não é só uma pequena propriedade, não. Agricultura familiar tem um sentido mais amplo, porque ela é praticada pelos camponeses, usa muita mão-de-obra e, ao mesmo tempo, tem como prioridade produzir alimentos, e alimentos saudáveis que não usem venenos. Como parte do projeto da agricultura familiar, é preciso desenvolver pequenas agroindústrias para conservação de alimentos sem uso excessivo de química. Então, em vez de uma gigantesca fábrica de leite que produz 10 milhões de litros por dia – que, para serem transportados, é preciso colocar em embalagens Longa Vida, que acabam sendo mais caras do que o leite –, você pode ter, em cada município, pequenos laticínios para produção de leite mais saudável que fazem a entrega, todos os dias, na cidade, sem aditivos químicos. Para que nós adotemos o modelo da agroecologia e da agricultura familiar em todo o País, é preciso mudar o modelo econômico que está em vigor. Em vez das grandes empresas multinacionais que controlam as agroindústrias, ter pequenas agroindústrias sob controle de cooperativas de trabalhadores. Em vez de ter duas ou três grandes Seasas, que a partir de São Paulo abastece o Brasil inteiro, cada município tem que adotar a soberania alimentar e produzir seus próprios produtos de horta. Você consegue imaginar, do ponto de vista econômico, a irracionalidade que é produzir tomate em São Paulo e levar o carregamento de caminhão até Rondônia? Você imagina que estamos levando chuchu, que é quase uma planta natural, que dá em qualquer canto, de São Paulo para estados do norte do país? Precisamos superar esse modelo para desenvolver o mercado interno, as agroindústrias cooperativas e produzir os alimentos no próprio município.

Quais são as estratégias que a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida está usando para disseminar essas informações para a sociedade?

João Pedro Stedile: A campanha é composta por entidades nacionais das mais diferentes áreas de atuação, seja pela Câmara Federal, os deputados da área de saúde, agronomia etc. A primeira estratégia que estamos usando é a conscientização da população sobre a gravidade dos agrotóxicos para que todos saibam que é um problema de saúde pública, e que se a pessoa não se cuidar vai acabar adquirindo doenças como o câncer. É preciso conscientizar as pessoas para o fato que o uso do agrotóxico acaba com a biodiversidade e é um fator importante para o desequilíbrio do clima. Então, teremos mais chuva, mais calor e o meio ambiente vai sofrer todas essas consequências também. A estratégia prioritária é conscientizar a população para que ela tome atitude. A segunda estratégia é a conscientização do pequeno agricultor para que ele conheça essas técnicas, para que ele adote essas técnicas na sua pequena propriedade, onde ele mora. Em terceiro lugar, é preciso conscientizar os parlamentares para criar leis que impeçam ou restrinjam o uso do veneno. Em quarto lugar, é preciso conscientizar o governo, que também tem responsabilidade sobre isso, incluindo a área da saúde, que sente os efeitos do modelo do agronegócio na ponta do Sistema Único de Saúde. O veneno no Brasil não paga imposto. Se você comprar água, você paga imposto, se comprar leite, paga imposto. Mas o agrotóxico está isento de impostos no Brasil. Quanto mais agrotóxicos, mais pessoas doentes, mais pessoas sendo atendidas pelo SUS. Então, para onde estamos indo, companheiro?

Qual o papel da Fiocruz na Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida?

João Pedro Stedile: A Fiocruz se somou desde o início a essa construção unitária e deu uma contribuição fundamental, que é o conhecimento acumulado que ela tem entre os seus quadros (o conhecimento sobre as consequências dos agrotóxicos nos alimentos, o conhecimento que ela tem no monitoramento toxicológico dos alimentos, o conhecimento que ela tem na área de ensino, entre muitos outros). Então, há algum tempo a Fiocruz está nos ajudando com cursos de saúde ambiental e, de certa forma, a Fiocruz vai nos ajudar a preparar os médicos para que eles, que estão na ponta do SUS, acolham o paciente envenenado, saiba orientá-lo, que oriente o paciente a evitar alimentos que acumulem alto teor de agrotóxico. Tudo isso é papel do médico. Há um amplo campo de conhecimentos com o qual a Fiocruz nos dará suporte para ajudar a barrar o agronegócio.

De certa forma, os companheiros que participam da campanha sempre interagem com essas frentes de conhecimento. Outro conhecimento muito importante que a Fiocruz está compartilhando conosco é a construção de hortas medicinais, para que nós, de lá, do meio rural, possamos conhecer as plantas que curam. É possível extrair das plantas seus princípios ativos para a produção de chás, cremes etc. e evitar a medicalização burra dos grandes laboratórios. Assim, é possível resolver metade dos problemas de saúde nas comunidades.

Qual é a expectativa do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em relação à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que vai acontecer em junho, no Rio de Janeiro?

João Pedro Stedile: A conferência que será realizada aqui no Rio de Janeiro é uma grande incógnita, porque vai ter dois grandes ambientes: um deles, no Riocentro, onde estarão os chefes de Estado e representantes de governos. Os governos estão preparando um documento e durante a conferência haverá muito pouca adesão, porque o documento já vem sendo construído. Claro que vai ter a participação dos presidentes, que vão fazer seus discursos. Essa é a nossa expectativa em relação ao documento formal da ONU. Paralelamente a isso, haverá o que nós chamamos de cúpula dos povos, que reunirá representantes de movimentos sociais de todo o mundo, ambientalistas, a comunidade cientifica. É nessa conferência paralela que as forças da sociedade se articularão para ter leituras mais comuns para os problemas do meio ambiente, para discutir, inclusive, formas concretas de pressionar as empresas causadoras dos problemas ambientais, inclusive desrespeitando acordos feitos entre os governos. Em muitos países, a sociedade civil tem poder superior aos governos, muitas vezes porque já se estabeleceu um padrão de consumo agressivo ao meio ambiente. É o caso dos países do norte, que não conseguem mudar seu padrão de consumo. Estamos acreditando que entre os movimentos sociais e populares, na conferência paralela, será possível gerar um grande pacto social para enfrentar e superar os problemas, porque precisamos salvar o planeta, senão vamos morrer junto com ele.

Matéria de Elisa Andries, da Agência Fiocruz de Notícias, da Agência Fiocruz de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 21/03/2012

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3 comentários em “Agrotóxicos: uso excessivo compromete saúde da população. Entrevista com João Pedro Stedile

  1. Não dá pra corrigir o nome dele no título e tal? João PEDRO.

    Resposta do EcoDebate: Agradecemos a crítica e o apontamento do erro. A grave falha de revisão foi devidamente corrigida.

    Gratos, Portal EcoDebate

  2. Hoje o Brasil é vítima do excesso de agrotóxicos, com assustador aumento de defensivos ilegais – sem aprovação da ANVISA – importados da China comunista, justamente devido às “políticas afirmativas” e à incomPeTência do governo Lula/Dilma idolatrado por Stédile e seus admiradores. A parcela desses agrotóxicos letais, contrabandeados por falta de patrulhamento federal nas fronteiras e portos, vindos da China, que se tornou a nova “matriz” ou “corte” da neocolônia Brasil, já atingiram 10% do total de agrotóxicos utilizados no país.

  3. Através do Programa de Aquisição de Alimentos -PAA criado no governo Lula através do Fome Zero e incluído do Prgrama Brasil sem Miséria do governo Dilma- executado pela Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB onde recebe recursos do MDA e do MDS, está mudando a realidade de vários municípios do estado do Espírito Santo e do Brasil, este programa é uma catequese para o agricultor familiar, onde o governo federal compra o excedente de produção até R$4.500,00/DAP/ano, sendo o alimento orgânico pago com até 30% de sobrepreço, e doa para famílias em situação de insegurança alimentar e instituições filantrópicas. Aqui no norte e noroeste do Espírito Santo vários municípios criaram seus pontos de vendas próprios com os incentivos do PAA e muitos produtores começaram a participar de feiras livres e do Programa Nacional de Alimentação Escolar-PNAE.

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