Lentidão da Justiça colabora para aumentar tensão entre índios e fazendeiros em MS

 

A lentidão da Justiça brasileira para finalizar os processos relacionais às homologações de terras indígenas colabora para aumentar o clima de tensão e violência em as áreas de conflito, em especial no estado de Mato Grosso do Sul. A avaliação foi feita pela desembargadora do Tribunal de Justiça de São Paulo e uma das fundadoras da Associação de Juízes pela Democracia (AJD) Kenarik Baujikian.

Uma das observadoras da Aty Guasu, uma grande assembleia do povo indígena Guarani-Kaiowá do estado de Mato Grosso do Sul, que ocorre no município de Tacuru até amanhã (3), a desembargadora acredita que devido à lentidão do Poder Judiciário tanto índios quanto fazendeiros e produtores rurais partem para o conflito a fim de defender seus direitos.

“O Judiciário brasileiro precisa saber dos reflexos do descumprimento da sua obrigação, que é fazer justiça. Nesse caso, acaba criando mais injustiça e isso é gravíssimo. É preciso ter consciência de que a falta de decisão está fomentando situações muito tristes que estamos vendo agora, especialmente em Mato Grosso do Sul”, disse Kenarik Baujikian à Agência Brasil.

Para a desembargadora, os processos de demarcação e homologação de terras indígenas não podem tramitar por anos nos tribunais sem que tenha uma definição. “A demora na solução acaba reforçando os problemas que existem de violência, tensões, seja dentro das comunidades indígenas, seja nas outras comunidades que estão em volta. O Judiciário tem cumprido um papel de reforçar [isso], na medida em que a questão da demarcação de vários processos está paralisada no Supremo Tribunal Federal”, argumentou.

“A demora da Justiça contribui para a violência e não só para isso como também para a instabilidade geral em todos os sentidos, inclusive, econômico dos envolvidos. A pior coisa que pode acontecer é não se resolver esse problema logo, seja por meio das homologações, seja pelas questões que já estão no Judiciário”, acrescentou a desembargadora.

Kenarik Baujikian também responsabilizou o Poder Executivo pela dificuldade em solucionar os problemas indígenas. “Não é só o Judiciário. O Executivo [tem responsabilidade] também porque existem atribuições próprias do Executivo e isso não tem sido realizado. Estamos muito atrasados em relação a isso e o que só vem reforçar a questão de incerteza, tensão para todas as pessoas envolvidas.”

Iniciada na quarta-feira (29), a primeira Aty Guasu de 2012 reúne cerca de 250 lideranças, que representam cerca de 45 mil índios das etnias Guarani-Kaiowá e Nhandéwa, de 26 municípios de Mato Grosso do Sul. Criada na década de 1970, Aty Guasu é parte da organização social e um movimento político-religioso do povo indígena Guarani-Kaiowá. Ao final do encontro, os índios divulgarão um documento com reivindicações e demandas que serão encaminhados às três esferas de Poder.

Reportagem de Ivan Richard, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 05/03/2012

[ O conteúdo do EcoDebate é “Copyleft”, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta clicar no LINK e preencher o formulário de inscrição. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Alexa

Um comentário em “Lentidão da Justiça colabora para aumentar tensão entre índios e fazendeiros em MS

  1. O Poder Judiciário não é um ente de outro mundo. Muito pelo contrário, é uma das três partes constituintes do Estado. Portanto, sua atuação há que ser consonante com o todo. Nos moldes do Estado capitalista, sua participação e dos outros dois poderes não poderiam ser diferentes.

    Justiça? Bem, a justiça praticada pelo Estado capitalista, de outro ponto de vista, que não seja o do capitalismo, de justiça nada tem. É a todo-poderosa a que todos têm que se submeter, como a todo o poder do sistema, e que objetiva manter inalterada a situação predominante.

    Somente com muito boa vontade – para não falar de conveniência – se pode ver algum resquício de justiça em um Estado em que um pequeno grupo se apodera de todos os bens, meios de produção, da natureza, das vidas humanas e de outras vidas, e concede algum benefício a uma parte da sociedade, relativamente também pequena, enquanto a grande maioria de seres humanos amarga uma existência de grandes dificuldades, pobreza e miséria, na qual subsistir, mesmo por curto período, envolve muito sofrimento e humilhações de toda natureza.

    Que justiça é essa?

Comentários encerrados.

Top