Diagnóstico dos Resíduos Sólidos Agrossilvopastoris no Brasil, Parte 1 – Orgânicos, artigo de Antonio Silvio Hendges

 

[EcoDebate] O Plano Nacional de Resíduos Sólidos em sua versão preliminar disponível para consultas no site do Ministério do Meio Ambiente (www.mma.gov.br), traz um diagnóstico dos resíduos sólidos orgânicos com origem nas atividades agrossilvopastoris e agroindústrias primárias associadas com estas atividades. Além da quantificação destes resíduos, realizou-se uma estimativa das possibilidades energéticas através do reaproveitamento da biomassa. Os dados são apresentados por áreas: agricultura, pecuária, silvicultura e agroindústrias primárias e foram calculados com base na produção do ano de 2009. As análises relacionadas com a agricultura e a pecuária consideraram as culturas agrícolas e as criações de animais mais representativas para a economia do país. Nas culturas agrícolas permanentes foram avaliados o café em grãos, cacau em amêndoas, banana em cachos, laranja, castanha de caju, coco da Bahia e uva. As culturas agrícolas temporárias selecionadas foram a soja em grãos, milho em grãos, cana de açúcar, arroz em casca, feijão em grãos, trigo em grãos e a mandioca. Na pecuária foram selecionados os bovinos de corte e leite, aves de corte e postura e os suínos. Na silvicultura, considerou-se a produção de madeira em toras e utilizadas na produção de lenha, carvão vegetal celulose e papel.

Em 2009, as agroindústrias associadas à agricultura produziram 290.838.411 toneladas de resíduos orgânicos, com 69% originados no bagaço e torta de filtro da cana de açúcar na Região Sudeste. O potencial energético da biomassa destes resíduos é de 23 GW/ano. Na pecuária, a produção estimada foi de 1.703.773.970 toneladas/ano, com 32% deste total gerado pela pecuária de corte extensiva da Região Centro Oeste. A criação extensiva dificulta a utilização destes resíduos na biodigestão e no aproveitamento energético. As atividades predominantemente confinadas como suinocultura, avicultura e pecuária leiteira produziram em conjunto 365.315.261 toneladas/ano com potencial energético de 1,3 GW/ano. Adicionalmente, as indústrias associadas com estas atividades como laticínios, abatedouros e graxarias geraram resíduos sólidos e líquidos com potencial de 15 MW/ano. Observação importante é que o tamanho e a localização das atividades inviabilizam as soluções individuais, sendo indispensáveis estudos regionalizados e espacialização das atividades para a implantação de sistemas coletivos de biodigestão.

Os resíduos florestais foram considerados em duas etapas da cadeia produtiva: colheita e processamento mecânico, não sendo considerados os resíduos na indústria de transformação. O total foi de 85.574.465 toneladas/ano e os resíduos das indústrias de papel e celulose foram de 10.916.640 toneladas/ano em 2009. Na silvicultura, a geração potencial de energia foi estimada em 1604 MW/ano, mas não está considerado o potencial das indústrias de celulose que utilizam resíduos para a cogeração, por exemplo, o licor negro. Os resíduos de madeira apresentam volumes significativos e envolvem diversos setores como indústria moveleira, construção civil, postes de linhas de transmissão de energia e tem um potencial acentuado de periculosidade por causa das madeiras tratadas com produtos tóxicos como conservantes, vernizes e tintas durante o beneficiamento ou no pós consumo.

Setores

Produtos/fase

Produção

Resíduos

Efluentes

Potencial

Agroindústrias da agricultura

Culturas

Indústria

(t/ano)

Total

(t/ano)

Efluentes

(m³/ano)

Energia

(MW/ano)

Soja

57.345.382

41.862129

3.422

Milho

50.745.996

29.432.678

2.406

Feijão

3.486.763

1.847.984

143

Arroz

12.651.774

2.530.355

175

Cana de açúcar (bagaço e torta de filtro)

Cana de açúcar (vinhaça)

671.394.957
201.418.487

604.255.461

16.464

Trigo

5.055.525

3.033.315

238

Mandioca

23.786.281

Café

2.440.057

1.220.029

97

Cacau

218.487

83.025

07

Banana

199.282

99.640

Laranja

16.944.529

8.825.276

Coco da Bahia

675.012

405.009

39

Castanha de caju

110.253

80.484

08

Uva

614.574

Subtotal

845.678.872

290.838.411

604.255.461

22.999

Pecuária

Criações

Cabeças

Dejetos (m³/ano)

Efluentes (m³/ano)

Energia (MW/ano)

Aves (postura e corte)

4.982.512.597

28.025.854

137

Bovinos (leite)

22.435.289

316.909.675

1.032

Suínos

38.045.454

20.379.732

122

Subtotal

5.042.993.340

365.315.261

1.291

Agroindústrias da pecuária

Atividades

Animais abatidos/litros de leite

Total de resíduos (t/ano)

Efluentes (m³/ano)

Energia (MW/ano)

Abatedouros de aves

4.773.641.106

69.434.780

7,6

Abatedouros de bovinos

12.037.241.550

216.670

19.643.882

2,2

Abatedouros de suínos

30.932.830

49.493

12.373.132

1,4

Graxarias

6.844.808

0,8

Laticínios

19.497.875

13.244.345

2,6

Subtotal

16.861.313.361

266.163

121.540.947

15

Florestal

Etapas

Madeira em toras (m³/ano)

Resíduos (m³/ano)

Efluentes (m³/ano)

Energia

Colheita

122.159.595

34.795.898

650

Processamento mecânico

50.778.566

954

Subtotal

122.159.595

85.574.465

1.604

Produção e potencial energético dos resíduos sólidos agrossilvopastoris. Fonte: Plano Nacional de Resíduos Sólidos – Versão preliminar

Os resíduos agrícolas são utilizados em grande parte para alimentação animal e/ou humana, fertilizantes orgânicos e outros usos nas propriedades rurais, reduzindo significativamente o potencial energético, além de apresentarem inviabilidades técnicas no seu aproveitamento como descentralização, equipamentos e transportes. A tendência é a geração de resíduos agrossilvopastoris aumentarem nos próximos anos tornando indispensável o manejo, tratamento e disposição adequados, sendo as atividades agrossilvopastoris dependentes dos recursos naturais. Em algumas regiões, os resíduos de biomassa podem aumentar a participação na matriz energética brasileira.

As sugestões para estes setores é a implantação de planos de gerenciamento dos resíduos agrossilvopastoris, inclusão no Sistema Nacional de Informações de Resíduos Sólidos – SINIR, incentivos ao aproveitamento energético através da combustão ou biodigestão individuais ou consorciadas, criação de fundos de investimento para a implantação de projetos eco eficientes na produção e nas agroindústrias e a elaboração de políticas de manejo florestal.

Antonio Silvio Hendges, articulista do Portal EcoDebate, éProfessor de Biologia e Agente Educacional no RS; assessoria em resíduos sólidos e tecnologias, tendências ambientais e educação ambiental. Email: as.hendges@gmail.com

EcoDebate, 07/02/2012

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