Doenças negligenciadas: Associados à pobreza, males que afetam 1 bilhão são ignorados por indústria

 

Se Carlos Chagas e Oswaldo Cruz, maiores sanitaristas brasileiros e reconhecidos mundialmente, entrassem em uma máquina do tempo e chegassem ao Brasil de 2011, reconheceriam que o país, assim como o mundo, ainda está muito aquém do que esperavam em termos de avanços no controle de males tão conhecidos por eles — e hoje praticamente ignorados por grandes laboratórios farmacêuticos. Descobertas em direção à cura dos problemas são raras e dependem, cada vez mais, de pesquisas acadêmicas.

Por um lado, a falta de interesse da indústria farmacêutica para algumas doenças persiste, o que faz com que pesquisas de ponta e produções que poderiam beneficiar milhões de pessoas fiquem estagnadas. Por outro lado, diante dos avanços de algumas enfermidades, que passaram a atingir todas as classes sociais (e, portanto, criam enorme mercado para medicamentos), não faltam recursos e há uma corrida para encontrar o melhor remédio ou a melhor vacina. Pesquisadores, porém, com ou sem estímulos, ainda não desistiram das chamadas doenças negligenciadas, que atingem, todos os anos, cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo. Matéria de Luciane Evans, no Correio Braziliense.

Em busca dos resultados mais avançados obtidos por uma verdadeira corrente científica, que não se interrompe um minuto sequer e vai do Oiapoque ao Chuí, começa hoje uma série de reportagens sobre esses males esquecidos. O objetivo é mostrar o que tem sido feito pelos cientistas em território nacional, com ferramentas e criatividade tipicamente brasileiras. Exemplos não faltam. No Sul, está a promessa do primeiro medicamento contra a tuberculose feito no Brasil. Em Minas Gerais, uma vacina contra a leishmaniose tegumentar já imunizou, com resultados comprovados, 16 mil pessoas. No Amazonas, a resistência de pessoas à malária impulsiona cientistas a produzirem uma imunização para a doença. Para o mal de Chagas, já há imunização pronta, feita em conjunto com pesquisadores de vários estados brasileiros, mas ainda não há interesse farmacêutico para produzi-la. No mesmo barco estão a esquistossomose e a hanseníase, para as quais não há muito investimentos.

Em janeiro, artigo publicado na revista britânica The Economist destacou o Brasil como o líder internacional em pesquisa em medicina tropical. O título sugeriu que o país é destino promissor para jovens cientistas do mundo todo: “Go south, young scientist” (algo como “Vá para o Sul, jovem cientista”). O texto ressaltou que, além de o Brasil ter uma comunidade científica atuante, o investimento financeiro do governo em pesquisa — 1% do Produto Interno Bruto (PIB) — é quase o dobro da média dos demais países da América Latina.

Quem trabalha na área reconhece que, apesar dos pesares, não é mentira que o país, nesse sentido, não vai tão mal. Com investimentos crescentes, em torno de R$ 75 milhões ao ano, o Brasil lidera a lista dos países em desenvolvimento que mais têm aplicado recursos em estudos de novas formas de tratamento para essas doenças, que afetam as populações mais empobrecidas. Apesar do esforço do setor público, solução para o problema esbarra na falta de interesse da indústria farmacêutica, que não vê nessa história um mercado lucrativo.

Investimentos
“A negligência não é do governo, mas da indústria farmacêutica, que, por lucro, prefere investir na produção de medicamentos para o câncer, por exemplo”, aponta o secretário de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Gadelha. De acordo com ele, somente este ano a pasta investirá um total de R$ 71 milhões em pesquisas. “Considerando a contrapartida do Ministério da Ciência e Tecnologia e das fundações de amparo à pesquisa, o valor chega a R$ 118 milhões em estudos em saúde”, diz, contando que, entre 2003 e 2010, foram destinados R$ 700 milhões para mais de 3,6 mil estudos em 400 instituições acadêmicas.

Nos últimos seis anos, de acordo com Gadelha, foram investidos R$ 100 milhões do governo em pesquisas para as doenças negligenciadas. “Há um movimento mundial de aumentar o financiamento para essa área. Tuberculose, hanseníase, malária, dengue, Chagas, leishmaniose e esquistossomose são doenças que estão associadas à pobreza. Por isso, o mercado não se interessa. A indústria quer investir em medicamentos para pacientes que possam pagar por eles”, afirma Gadelha.

Ele diz que, além de o Brasil conviver com as enfermidades de países em desenvolvimento, há outros males típicos de países de Primeiro Mundo, como a obesidade, a hipertensão e outros. “Temos que ter capacitação e investimento para todos. Se deixar a saúde apenas na dinâmica do mercado, teremos uma população negligenciada”, comenta, afirmando ainda que, ao lançar uma vacina para a dengue, há redução com o custo de internação. “É preciso pensar de uma forma sistêmica. Tecnologia que encarece a assistência e não traz ganhos efetivos não vale a pena.”

Prioridades
Em 2006, o Ministério da Saúde lançou o Programa de Pesquisa e Desenvolvimento em Doenças Negligenciadas no Brasil, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Foram estabelecidas sete prioridades de atuação que compõem o programa em doenças negligenciadas: dengue, Chagas, leishmaniose, hanseníase, malária, esquistossomose e tuberculose. Já foram financiados 140 projetos.

Palavra de especialistas

No Brasil, empenho dos pesquisadores
“As doenças vêm deixando de ser negligenciadas. No Brasil, os males nunca foram esquecidos. Os pesquisadores têm se empenhado há muito tempo. Estudos vêm sendo feitos e bem patrocinados”
Lúcia Maria Almeida Braz,pesquisadora do Laboratório de Parasitologia do Instituto de Medicina Tropical da USP

Não há regionalização de tratamento
“O grande comprador de descobertas para essas enfermidades é o próprio governo, que acaba ditando o preço. Por isso, a indústria farmacêutica não se interessa muito. Hoje, há toda uma infraestrutura para as hepatites e a Aids, mas, para um enfermo que sofre do mal de Chagas, não há uma regionalização do tratamento. O acesso é difícil. Cabe às fundações de amparo e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) estimular. O Brasil não aplica pouco. O problema é que o dinheiro nem sempre chega às mãos de quem deveria”
Manoel Otávio da Costa Rocha, subcoordenador da pós-graduação em infectologia e medicina tropical da faculdade de medicina da ufmg.

EcoDebate, 20/12/2011

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