Enem: De pato a ganso, artigo de Montserrat Martins

 

[EcoDebate] Diz o professor Luís Augusto Fischer que o Enem nasceu para ser um diagnóstico da situação do ensino formal, “mas o MEC resolveu que esse pato merecia ser ganso e inventou que o exame passaria a ser o exame vestibular de ingresso ao ensino superior”. O prof. Fischer conclui sua análise apoiando as Universidades Federais que resistem a isso (USP, UFMG, UFRGS, “pois a UFRJ se entregou”) e conclama o leitor à reflexão. Pois bem, parece haver mesmo um contraste entre o vestibular das Federais e o Enem do MEC e isso remete à questão do “reinventar a roda”. As Universidades tem décadas de experiência em provas e o Enem, que chegou “agora”, há poucos anos, não consegue passar um ano sem problemas de “vazamento” de questões.

O grande mistério, nesse caso, não envolve ataques de adversários políticos ou o conflito entre instituições públicas ou privadas, nem mesmo entre diferentes níveis de governo (da União ou dos Estados). As diferenças são visíveis entre entes da mesma área – Educação – da mesma esfera (Pública) e do mesmo nível: Federal. Um jornalista de São Paulo conta em reportagem que conseguiu se inscrever para fiscal do Enem no mesmo dia da prova e apresentando tão somente a carteira de identidade. Meu filho, que fez a prova aqui no sul, também achou a organização na hora da aplicação da prova “uma bagunça, se alguém fosse lá para colar no banheiro, seria fácil”. A pergunta que não quer calar é: porque os responsáveis pelo Enem não aproveitam a experiência dos seus colegas das Universidades, para não cometer tantos erros ?

Segundo uma teoria neuro-psicológica, seria instintivo a cada indivíduo querer deixar a “sua marca” pessoal em tudo o que faz. Aproveitar as experiências dos outros – inclusive do mesmo grupo a que pertencem – pode parecer desestimulante, do ponto de vista dessa necessidade institntiva. Não sei se é isso, ou quais outros fatores – disputas burocráticas que nem suspeitamos – explicam que o novato Enem se comporte como um “filho mimado” do MEC, que não se corrige.

O mesmo MEC, aliás, que tem um belo trabalho de promoção do ensino técnico em todo o país, que se consolida agora com o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e a ambiciosa meta de atender a 8 milhões de pessoas até 2014. Nunca houve um programa com essas proporções, no país, colocando em protagonismo o ensino técnico. Talvez, por isso mesmo, dê certo, se for verdadeira a teoria sobre a necessidade da “marca pessoal”, de fazer o que ainda não foi feito.

Montserrat Martins, colunista do EcoDebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 28/10/2011

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Alexa

Um comentário em “Enem: De pato a ganso, artigo de Montserrat Martins

  1. Há um tempo atrás (uns 3 meses) vi uma reportagem da Folha de São Paulo dizendo que ceca de 20% dos alunos que ingressam nas universidades publicas, vindos do ensino médio publico, desistem dos cursos no primeiro ano devido as deficiências de aprendizagens que carregam ao longo dos anos de escola publica. E outra, as universidades particulares tem programas de nivelamento de pré-requisitos (eles ensinam aquilo que esses alunos precisariam estar sabendo e ainda não sabem para que possam acompanhar os assuntos) mas as publicas não tem programas deste tipo pois consideram esses conhecimentos básicos como pre-requisitos para o ingresso num curso universitário.

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