Hermenêutica, artigo de Roberto Naime

 

[EcoDebate] A hermenêutica é a área da filosofia que trabalha com a idéia de compreensão humana a partir da interpretação dos textos escritos. A palavra deriva do Deus grego Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam simbolicamente a origem da linguagem e da escrita, sendo considerado desde então uma espécie de patrono das comunicações e do entendimento humano.

O termo hermenêutica provêm do verbo grego “hermeneuen” e significa declarar, anunciar, interpretar, esclarecer e traduzir. Significa que algo é tornado compreensível ou levado à compreensão.

Desde os séculos XVII e XVIII existe uma escola de hermenêutica bíblica do qual o filósofo Spinoza é um dos precursores. O contexto histórico é de reinterpretação de textos bíblicos, que passam a ser dotados de sentido simbólico e não literal.

Começou com Spinoza, holandês de origem judia que se notabilizou ao enfrentar inicialmente a própria comunidade judaica ao questionar a Maimônides. Spinoza acreditava que Deus só existe filosoficamente e que Deus era abstrata e impessoal e disto resultou intensa obra filosófica.

Schleiermacher que foi pregador em Berlim, na Igreja Trindade e professor de Teologia em Halle, que negava a historicidade dos milagres e a autoridade literal das escrituras e continuou com Droysen que era filho de um capelão militar prussiano.

O filósofo alemão Droysen trabalhando com a história, autonomiza esta ciência enquanto disciplina acadêmica na Alemanha e delimita o conhecimento histórico por contraposição à filosofia e às ciências naturais. A historiografia é para ele uma cognição empírica e não especulativa. Traduzindo a compreensão disto, ele propõe nova metodologia para estudo das ciências de natureza humana, diferentemente das ciências da natureza.

Heidegger e Gadamer são dois filósofos alemães, mais conhecidos pela fenomenologia (essência do fenômeno), são citados na corrente hermenêutica pela ontologização da compreensão e da interpretação. Gadamer chegou a ser filologista.

Martim Heidegger (1889-1976), Alemanha, mais conhecido pela fenomenologia, defende o trabalho hermenêutico que visa interpretar o que se mostra exibindo o que se manifesta mas que no início e na maioria das vezes, não se deixa ver. Foca sua interpretação no ser que denomina “ente”.

Friedrich Schleiermacher reformula a hermenêutica no início do século XIX, estabelecendo uma hermenêutica geral, compreendida como uma teoria geral da compreensão. A hermenêutica geral deve ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação da manifestação linguística.

A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo. Pois não há pensamento sem discurso. Ninguém pode pensar sem palavras.” (Schleiermacher).

A hermenêutica então é uma análise da compreensão a partir da natureza da linguagem e das condições entre o falante e o ouvinte.

Heidegger desenvolve seu pensamento, denominado fenomenológico, mas que também é hermenêutico na linha da interpretação, centrando sua visão que o que importa é o ser, o “ente” que interpreta. Heidegger estuda Dilthey reinterpretando que são os fenômenos de historicidade e de vida que recolocam o problema do ser e a preocupação com a dinâmica existencial.

Com certeza a ciência é a ciência em si própria e o mesmo poderíamos dizer do conhecimento. É meio Parmênides, as coisas são porque são e fim. Mas inegavelmente a forma de transmitir conhecimento, a linguagem utilizada, a influência pessoal, fenomenológica e psicológica de quem interpreta determinada transmissão de conhecimento de determinada forma corresponde a um quesito importante do conjunto conhecimento-transmissão.

Assim não há propriamente questões críticas sobre a filosofia hermenêutica ou hermenêutica filosófico-fenomenológica como é conhecida no direito, esta é uma filosofia complementar e não principal no sentido que não lida com as grandes questões filosóficas, mas é essencial discutir a forma de pensar, a forma de transmitir e o condicionamento de quem interpreta o conhecimento, a verdade ou a filosofia.

A questão que se coloca é o que cada pessoa entende por meio ambiente, em função de sua formação anterior, cultura e condicionamentos. Será que os operadores do direito não se debruçam mais sobre as raízes hermenêuticas de toda terminologia técnica que envolve meio ambiente, cuidando muito de aspectos etimológicos que não estão mais correspondendo aos sentidos semânticos atuais.

Obviamente não temos a resposta, mas a inspiração do artigo é pensar, o que será que cada pessoa, cada parte interessada entende por meio ambiente quando está explicitando este termo.

Dr. Roberto Naime, colunista do EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

EcoDebate, 03/10/2011

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