Pesquisa alerta para os riscos da exposição a poluentes à saúde infantil

Vista aérea de Tangará da Serra (MT)
Vista aérea de Tangará da Serra (MT)

Premiada no Congresso Brasileiro de Toxicologia (CBTOx), na categoria Toxicologia Ambiental, a dissertação de mestrado da enfermeira Beatriz Fátima Alves de Oliveira, na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), buscou avaliar o risco da exposição ao material particulado fino (PM 2,5) em crianças residentes em Tangará da Serra (MT). A pesquisa considerou os cenários de seca e de chuva para verificar o impacto da exposição à fumaça em crianças de 6 a 14 anos na região. Segundo a autora, na seca, as crianças incorporaram cerca de quatro vezes mais material particulado do que nas chuvas.

Tangará da Serra pertence a uma região responsável pela produção de 67% da cana no Estado de Mato Grosso. Além das queimadas oriundas da cana, recebe também, por meio da circulação e transporte, poluentes provenientes da queima de biomassa da Floresta Amazônica. Intitulado Avaliação do risco para a saúde infantil relativa à exposição ao PM 2,5 proveniente da queima de biomassa no município de Tangará da Serra, o estudo foi orientado pela pesquisadora Sandra Hacon e trabalhou com uma amostra de 221 crianças para avaliar o risco a partir da exposição ao material particulado.

“Para o cálculo da dose incorporada pela criança, consideramos a concentração do PM 2,5 medida pela estação de monitoramento do Instituto de Física da USP, coordenada pelo Professor Paulo Artaxo (USP), e relacionamos com a taxa de inalação da criança, frequência e duração da exposição, de acordo com dois cenários de exposição: o período de seca e o de chuvas. Na seca, ocorre a maior queima de biomassa, que dura aproximadamente quatro meses, e tínhamos medidas de julho a outubro. Já para o cenário de chuva, quando as concentrações são menores, medimos de outubro a dezembro”, explicou.

Trabalho é fruto de pesquisas na região conhecida como “arco do desmatamento”

Os resultados da pesquisa, de acordo com Beatriz, revelam que as crianças inalaram quatro vezes mais material particulado no período de seca se comparado à estação das chuvas na região. “A partir daí, analisamos a razão da dose inalada com a dose de referência, (dose máxima de inalação em que não se observa efeitos adversos à saúde da criança) e avaliamos os prováveis efeitos adversos da exposição estimada à saúde humana. Para o período de chuvas, a dose incorporada de PM 2,5, segundo as estimativas para o calculo de risco, não causou risco toxicológico às crianças na faixa etária de 6 a 14 anos”

O trabalho foi apresentado de forma oral no CBTOx 2011 e obteve a premiação na área de Toxicologia Ambiental. Recentemente, também foi apresentado oralmente no evento internacional Brazilian Association for Aerosol Research (Baar 2011), realizado no Rio de Janeiro. De acordo com Beatriz, trata-se de mais um resultado dos estudos sobre os efeitos da poluição à saúde humana na área da região conhecida como Arco do Desmatamento – desenvolvidos pelos pesquisadores Sandra Hacon e Paulo Artaxo, com colaboração dos professores Paulo Saldiva e Eliane Ignotti. O projeto reúne varias parcerias com as secretarias de Saúde, Meio Ambiente e Educação, além das universidades locais.

Brasil carece de medidas regulatórias sobre o tema

Para a autora do trabalho, o Brasil ainda carece de medidas regulatórias para estabelecimento de níveis da qualidade do ar que protejam a saúde humana, sobretudo no que se refere ao material particulado. “Não temos uma legislação específica para PM, considerando o tamanho aerodinâmico das partículas. Partículas com tamanho aerodinâmico menor que 5 µm são mais prejudiciais à saúde humana, principalmente em relação às crianças, pois atingem regiões alveolares do sistema respiratório. No país, a atual legislação para partículas inaláveis segue a resolução do Conama de 1990, que estabelece níveis diários e anuais de 150 µm/m³ e 50 µm/m³, respectivamente, sem discutir a importância das micro e nano partículas. O que o estudo propõe é realmente discutir se os atuais níveis de PM são aceitáveis para saúde humana, subsidiando e apresentando ferramentas aos gestores para o estabelecimento de políticas efetivas para a manutenção da boa qualidade do ar. Tínhamos interesse em avaliar esses efeitos para grupos distintos, e a aplicação da metodologia Avaliação de Risco nos ajudou a identificar risco para efeitos adversos à saúde em grupos específicos, como crianças menores de 8 anos e asmáticos”.

Reportagem de Filipe Leonel, da Agência Fiocruz de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 25/08/2011

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