Pesquisa transforma lixo poluente em material de contenção de petróleo

 

Valber Cortez/Stock Photos
Do camarão, até a casca se aproveita para a confecção
de boias de contenção para derramamento de óleo no mar

Diariamente toneladas de carapaças de camarão e siri são dispensadas nas areias das praias pela atividade pesqueira. Além do mau cheiro e poluírem o local, esses restos atraem insetos e roedores. É o que acontece, por exemplo, na praia do Farol de São Tomé, no município de Campos de Goytacazes. Segundo Edmilson José Maria, professor de química da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), a estimativa é de que, das 180 embarcações que recolhem cerca de 20 toneladas diárias, resultem de três a quatro toneladas de restos de crustáceos, despejadas nesse trecho de litoral. Mas o que é atualmente uma grande preocupação da indústria pesqueira – dar destino adequado a estes resíduos – pode ser transformado em benefício do meio ambiente, aproveitando o que antes era poluente para produzir bóias, mantas e barreiras de contenção para derrame de óleo no mar. “Desta forma, vamos resolver dois problemas de uma vez”, entusiasma-se o pesquisador.

Para isso, Edmilson desenvolveu o projeto “Reaproveitamento de resíduos da atividade pesqueira do camarão para produção de boias de contenção de derrame de óleo no mar”, que tem apoio do edital Prioridade Rio, da FAPERJ. As boias são feitas de quitosana, uma fibra natural, insolúvel, que pode ser gerada a partir da quitina, presente em grande quantidade nos crustáceos. Conforme o pesquisador explica, materiais presentes na natureza, os sorventes orgânicos naturais são ricos em carbono. É o caso da serragem, da palha, do sabugo de milho e da quitina. “Esses materiais à base de fibras são biodegradáveis e podem absorver de três a 15 vezes o seu peso em óleo, sendo que a quitina e a quitosana têm maior capacidade de absorção: cada grama da boia produzida foi capaz de adsorver 83 gramas de óleo diesel. Isso quer dizer que se trata de um produto com baixo custo de produção e alta capacidade de adsorção. O que quer dizer capacidade de uma superfície sólida em fazer aderir moléculas de um fluido.”

Edmilson afirma que as cascas de camarão têm de 5 a 7% de quitina e as de siri, de 15 a 20 %. “Para a produção das boias, é preciso juntar essas cascas e submetê-las a um processo de desmineralização, desproteinação e despigmentação. Os resíduos passam por diversos procedimentos químicos, que, inclusive, lhes tiram o mau cheiro, até chegarem às principais matérias-primas: a quitina e a quitosana.” Segundo o pesquisador, primeiro, as cascas são lavadas e secas ao sol em mesas que, em vez de tampo, contam com tela do tipo mosquiteiro, por baixo e por cima, para evitar o contato com insetos. Depois, são lavadas, secas e trituradas para, em seguida, passar pela etapa da desmineralização, que é a retirada dos minerais por meio de submersão em meio ácido. A etapa seguinte é a desproteinação, feita em meio alcalino, para remover resíduos de carne e matéria orgânica.

Para retirar o cheiro característico do camarão, as cascas passam pela desodorização, feita com hipoclorito de sódio, a conhecida água sanitária. “Estas três etapas levam à formação da quitina; para produzir a quitosana, é necessário se fazer a desacetilação, realizada em meio alcalino à temperatura de 120 graus Celsius. Em todas essas etapas os produtos intermediários e finais são lavados e secos.”, explica o pesquisador. A maior parte dessas reações é realizada em reator, em alta temperatura.

Nos testes realizados no laboratório de Ciências Químicas da Uenf, o produto teve grande êxito, conta Edmilson. As boias ainda precisarão passar por alguns testes, para avaliar, por exemplo, sua eficácia na água do mar, testes de sistema estático e dinâmico, além de testes de molhabilidade e flutuabilidade, comparando-as com os modelos comerciais e as produzidas com outras fibras vegetais. Os próximos passos agora serão produzir os produtos em maior quantidade.

Para isso, será preciso treinar pescadores e marisqueiros da região para a secagem correta das sobras de crustáceos. Edmilson pretende ainda levar o projeto e promover o treinamento em outras áreas litorâneas do estado. “Acredito que este projeto também possa desenvolver a conscientização ambiental da população envolvida na pesca e no beneficiamento dos camarões”, diz o pesquisador.

Reportagem da FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, publicada pelo EcoDebate, 23/08/2011

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