O impacto ambiental da economia e da população no início do terceiro milênio, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] A despeito da crise econômica que atinge principalmente os países ricos do mundo e reduz de maneira forçada o consumo, o ser humano nunca agrediu tanto o Planeta Terra quanto neste início do terceiro milênio. Talvez uma recessão mundial minore um pouco a agressão, mas o tamanho da população e da economia atual tem um impacto ambiental mesmo estando alguns indicadores econômicos no vermelho.

Durante a maior parte da história da humanidade o impacto da população e da economia sobre o meio ambiente foi muito pequeno. Utilizando dados calculados pelo eminente economista Angus Maddison (ver referência abaixo) verificamos que a renda per capita da população do Planeta subiu 42,6% entre o ano 1 e o ano 1820. Porém, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) a renda per capita da população mundial entre 2001 e 2014 deve apresentar uma variação de 44,5%. Portanto, apenas nos primeiros 14 anos do terceiro milênio o crescimento da renda per capita deve ser maior do que nos primeiros 1820 anos dos dois milênios iniciais da era cristã.

Vejamos os números. A população mundial era de 225,8 milhões no ano 1 e passou para 1,041 bilhão em 1820, aumento de 815,8 milhões no período de 1820 anos. O Produto Interno Bruto (PIB) era de 105,4 bilhões de dólares (em termos de 1990 International Geary-Khamis dollars) e passou para 693,5 bilhões de dólares, ou seja, aumento de 588,1 bilhões de dólares em 1820 anos. O PIB per capita era de 467 dólares no ano 1 e passou para 666 dólares em 1820, ou seja, uma aumento de 199 dólares em 1820 anos, ou variação de 42,6% nos 1820 anos em questão.

Vejamos os números para os anos atuais. A população mundial era de 6,122 bilhões no ano 2000 e deve chegar a 7,207 bilhões em 2014, um aumento de 1,084 bilhão de pessoas em 14 anos. O PIB (em poder de paridade de compra – ppp- a preços de 2000) era de 42 trilhões de dólares e deve chegar a 72 trilhões de dólares (a preços de 2000), isto é, um aumento de 70% em 14 anos. O PIB per capita (em ppp a preços de 2000) era de 6,9 mil dólares em 2000 e deve chegar a 9,9 dólares em 2014, isto é, um aumento de 44,5% em 14 anos. Mesmo que a atual crise internacional se aprofunde, o crescimento nas duas primeiras décadas do século XXI com certeza será maior do que nos 1820 anos.

Comparando os dois períodos (1 a 1820 e 2000 a 2014) podemos perceber que o estoque de população aumentou em 1.084.000.000 (um bilhão e oitenta e quatro milhões) de habitantes em 14 anos contra 815.800.000 (815 milhões e oitocentos mil) habitantes em 1820 anos. Ou seja, em 14 anos o acréscimo populacional foi maior do que o ocorrido em 18 séculos.

Em termos econômicos, segundo os dados de Angus Maddison, o PIB mundial em 2000 era 348 vezes maior do que o do ano 1 e 53 vezes maior do que o PIB de 1820. Portanto, o crescimento do PIB mundial (a preços constantes do ano 2000) foi o equivalente de 121 bilhões de dólares no ano 1, para 797 bilhões de dólares em 1820. Se somarmos o PIB (a preços constantes de 2000) dos primeiros 1820 anos da era cristã teríamos um número de 654 trilhões de dólares. Usando o mesmo raciocínio e somando o PIB de 2000 a 2014 (a preços constantes de 2000) teríamos um número de 829 trilhões de dólares. Ou seja, a quantidade de bens e serviços produzidos no mundo nos primeiros 14 anos do terceiro milênio foi bem maior (829 trilhões) do que a quantidade de bens e serviços que o mundo produziu (645 trilhões) nos primeiros 1820 anos dos dois milênios iniciais da era cristã.

O impacto de uma década e meia tem sido maior do que de séculos. Imaginem toda esta produção econômica em termos de utilização da terra, do uso da água, na mineração, na poluição dos esgotos, no acúmulo do lixo de resíduos sólidos e na emissão de toneladas de carbono e gases do efeito estufa.

Não é preciso muito esforço para compreender que o impacto ambiental da economia e da população no início do terceiro milênio é bem maior do que foi nos 1820 anos anteriores ao início da Revolução Industrial. Também não é necessário muito esforço para compreender que as atividades antropogênicas atuais têm um impacto sobre o aquecimento global, as mudanças climáticas e a redução da biodiversidade maior do que em qualquer período histórico anterior, desde que o homo sapiens existe.

A única dúvida é saber até quando o Planeta Terra vai aguentar este ritmo de agressão proveniente das atividades antrópicas.

José Eustáquio Diniz Alves, articulista do EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

Referências:
Angus Maddison. Historical Statistics of the World Economy: 1-2008 AD. Disponível em:
www.ggdc.net/maddison/Historical_Statistics/horizontal-file_02-2010.xls

FMI. World Economic Outlook (april 2011). Disponível em:
http://www.imf.org/external/datamapper/index.php

UN/ESA. World Population Prospects: The 2010 Revision, Disponível em:
http://esa.un.org/unpd/wpp/index.htm,

EcoDebate, 17/08/2011

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2 comentários em “O impacto ambiental da economia e da população no início do terceiro milênio, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. O Mundo precisa de comida e saúde. Isso é básico para a felicidade. Uma nova ideologia política deverá surgir, baseada no socialismo espiritual, simplicidade e música para todos, com os jovens sendo ensinados a não competir, a educação vem em terceiro plano, pois sabemos que o nível de instrução e intelectualismo não é sinônimo de felicidade. E a felicidade é o que todos buscam neste vida, pena que a grande maioria acredita que só serão feliz pelo poder do capital com coisas efêmeras.

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