O Brasil medido em campos de futebol, artigo de Telma Monteiro

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou na tarde desta terça-feira (5 abril de 2011) a desapropriação de 3,5 mil hectares de terras particulares – um hectare equivale a aproximadamente um campo de futebol – para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. A diretoria da agência declarou as terras como de “utilidade pública”. Fonte: G1

[EcoDebate] O Brasil não pode continuar a ser um país onde campos de futebol são usados como unidade de medida de área. Quando se fala em desmatamento na Amazônia se fala em tantos campos de futebol. Quando se fala em reservatório de hidrelétricas se fala em tantos campos de futebol. Quando se fala em desapropriação de terras para construção de hidrelétrica se fala em tantos campos de futebol. Afinal nós brasileiros só podemos entender tamanho, extensão quando comparados a campos de futebol?

Tenho resistido ao impulso de escrever, por puro desânimo. Escrever sobre as várias notícias que a midia produz todos os dias e que mostram indignidade. Indignidade guindada a uma potência imensurável. A indignidade que sujeita povos indígenas e comunidades no Brasil a uma forma de subvida. Essa é nossa realidade e é essa realidade que me policio para não difundir para não parecer pessimista.

Por quê? Talvez entendendo que falar mal do Brasil, ou de seus “administradores” seja uma forma de admitir o fracasso. Esse momento de “rei sol” entre os países está até ofuscando o brilho dos Estados Unidos da América, mas é um blefe. Pior é que a maioria da população ignora que os governos não investem no combate à violência, que a saúde nunca vai ser prioridade, que o uso dos agrotóxicos para matar as formigas nas plantações de eucaliptos dá câncer, que aqui tem miséria, que mães adolescentes estão abandonando seus filhos na rua e que a taxa de criminalidade entre os jovens é a mais alta jamais vista.

Mas estamos licitando o trem bala. Vamos sediar a copa do mundo e as Olimpíadas. E a sujeira vai para debaixo do tapete.

É esse o Brasil que o Lula prometeu e que a Dilma tenta ratificar? Esse Brasil está alienado dos seus maiores problemas, aqueles, que tentamos esconder de nós mesmos: o Brasil da impunidade, da banalização do crime e da corrupção. Onde está nossa memória? O Ministério dos Transportes é o escândalo do dia, da semana, do mês ou do ano?

Luto dia a dia contra um sentimento de frustração. Há aqueles que atacam quem critica esse governo e há os que criticam porque são atacados. Como se fosse possível admitir que um partido político, esteja ou não no poder, tenha a prerrogativa do certo ou errado. Não tem certo ou errado. Temos, sim, valores a serem seguidos e respeitados. Temos leis também. Mas parece que respeitar direitos humanos, cumprir a legislação é ser visionário e uma anomalia.

Há algum componente pouco claro com o povo brasileiro. Ainda não consegui lancetar essa ferida purulenta. Uns usam o poder constituido para satisfazer grandes ambições e outros, os da oposição, se sujeitam a contestar apenas para reservar seu espaço futuro no poder. Como o lote no céu. Acho que um vírus muito sério afetou a ética.

O destino das pessoas está sendo decidido baseado em campos de futebol? A sobrevivência das próximas gerações é mero sofisma para determinar a tal da sustentabilidade. Quem fala em sustentabilidade? Aliás, sustentabilidade não passa de uma palavra no título dos relatórios dos grandes bancos ou de grandes empresas. Sustentabilidade virou algo sem personalidade que perdeu o significado no tempo.

As redes sociais não são anônimas, são formadas por pessoas com identidade. Então porque elas mostram uma paralisia, uma visão atrofiada da realidade? Quem vivencia o dia a dia no imenso deserto das relações humanas e cibernéticas neste país acaba desconfiando que somos mesmo um blefe. Um blefe que pretende se tornar a quinta maior economia do mundo sem ter resolvido os problemas mais básicos para a sobrevivência de suas comunidades isoladas, suas florestas, seus povos indígenas e seus urbanóides.

A maioria desses urbanóides que vive na megalópole acha que a Amazônia é um potencial a ser explorado indefinidamente e pode ser sacrificada para manter seu status quo. Mal se pode argumentar sobre energias alternativas – solar ou eólica – sem que alguém contraponha que elas não suprirão a demanda futura. E lá vem o discurso de como o Brasil é afortunado, pois barrar os rios é uma forma de gerar energia limpa e barata. Limpa para quem e barata como? Com custos escamoteados que a praxe do licenciamento aprova.

Desenvolver e adotar novas tecnologias deveriam ser objetivos do Estado em respeito aos seus cidadãos. Cobrar isso do Estado deveria ser um dever desses mesmos cidadãos. O Brasil está perdendo mais uma vez seu direito ao lugar nobre entre os países emergentes.

Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado em seu blogue pessoal.
https://twitter.com/TelmaMonteiro

EcoDebate, 10/08/2011

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2 comentários em “O Brasil medido em campos de futebol, artigo de Telma Monteiro

  1. Prezada Thelma. Admiro a sua postura. Como sempre, mais uma manifestação substanciosa, como sempre são suas colocações por aqui. Embora concorde em gênero, número e grau com todas suas afirmações quero destacar do texto a parte que fala em COPA DO MUNDO, OLIMPÍADA, TREM BALA, aos quais me permito juntar ANGRA-III. O problema é que nossos gestores não conseguem criar, adotar e respeitar uma escala de “prioridades”, confundindo alhos com bugalhos, e bem no portal de entrada de uma crise sistêmica mundial, certamente maior do que a provocada e ainda ressonante “bolha imobiliária” dos STATES, ainda derrubando peças do dominó das nações do mundo. Para mim a questão se afigura, mal comparando, como um operário comprar uma televisão digital plana de 42” enquanto falta feijão na panela, é consumir um tênis importando de mais de mil reais, quando está faltando agasalho para vencer o frio, ou como um operário de salário mínimo (salário mixo) encostar a “saudável” bicicleta e montar um “possante carro popular”, equipado com air-bag e coisas mais, porque não quer parecer menos capaz do que seu vizinho ou colega, só porque sacou um fundo de garantia e a prestação é de apenas R$299,00 por não importa os anos… Um governo sério, competente, equilibrado, não demagógico, com visão de futuro e lastreado em sobriedade, quando na situação de hoje e do que se avizinha, passaria imediatamente ao corte de gastos segundo a escala de prioridades, do indispensável, do supérfluo e do postergável. Tem razão: escrever sobre tais coisas nos entristece, mesmo! Não ao TREM BALA e a ANGRA-III. Transfiram uma crise do sistema econômico mundial para a área restrita de uma crise na exibição e espetáculo esportivo do “panem et circus” que vem a ser tanto a COPA DO MUNDO como a OLIMPÍADA. Dá pra ter juízo e falhar só uma vez?

  2. como falta lucidez aos governantes e conhecimento ao nosso povo…o que se pode fazer? eu assinei a petição contra as mudanças no codigo florestal, tantas outras, mas o que realmente vai acontecer, parece que a gente já sabe

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