Por uma agricultura sem agrotóxicos: ‘O veneno está na mesa’, entrevista com Silvio Tendler

Documentário de Silvio Tendler denuncia os altos níveis de agrotóxicos usados no país e os riscos dessa utilização para a saúde humana e ambiental. Em entrevista exclusiva, diretor convida a construir uma agricultura sem agrotóxicos.

  •  No último dia 25 de julho, foi lançado no Rio de Janeiro o documentário “O Veneno está na Mesa”, de Silvio Tendler. Em cerca de 60 minutos, o filme mostra como o país facilita o consumo dos agrotóxicos e como movimentos sociais e setores do próprio governo como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Nacional do Câncer (Inca) têm tentado, de formas distintas, alertar sobre o problema. Com entrevistas de trabalhadores rurais, pesquisadores da área da saúde e diversos dados e informações inéditas, o documentário denuncia casos de contaminação pelo uso de agrotóxicos, inclusive com a morte de um trabalhador, e mostra como é possível estabelecer outro modelo de produção sem o uso de venenos, baseado na agroecologia. Em estreia lotada, com a presença de mais de 700 pessoas, Silvio Tendler pede que o filme circule por todo o país. Como as cópias não serão vendidas, ele autoriza as pessoas a reproduzirem o documentário para que o sinal de alerta chegue a todos os cantos do país e anuncia que em breve o filme também estará disponível na internet. Antes da sessão, realizada no espaço Oi Casa Grande, Silvio Tendler concedeu esta rápida entrevista à EPSJV/Fiocruz, que foi uma das parceiras na realização do documentário. Confira a entrevista. 

    O filme foi construído em constante diálogo com movimentos sociais. Essa experiência foi diferente dos outros filmes?

     

    Do ponto de vista da produção é o primeiro trabalho junto com os movimentos sociais, mas do ponto de vista da difusão, não. Meus filmes sempre estiveram vinculados aos movimentos sociais – eu filmei a inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes [Enff/MST], projetei meus filmes lá. Eu circulo por esse país apresentando os filmes aos movimentos sociais, então, sempre tive essa vinculação. A produção de um trabalho em conjunto, que para mim é uma coisa muito honrosa, é a primeira vez. E eu acho até que é o resultado natural do processo. Depois de fazer tantas coisas juntos, é normal que a gente pense em fazer um filme juntos. No caso do filme sobre os agrotóxicos, acho que foi um casamento natural que ‘juntou a fome com a vontade de comer’. Há uns dois anos eu estive no Uruguai e conversei com o [escritor] Eduardo Galeano, aí ele me falou que o Brasil é o país que mais usava agrotóxicos. Ele disse isso com uma certa tristeza por ser o Brasil, e, sobretudo, pelas circunstâncias políticas que nós vivemos. Aí eu voltei para o Brasil com a ideia de fazer alguma coisa sobre os agrotóxicos. Pensei em fazer uns spots para colocar no Youtube, conversei sobre isso com o [João Pedro] Stedile [coordenador nacional do MST] e ele deu força, então começamos a conversar. Um dia ele falou: ‘Olha, está surgindo um movimento muito forte contra os agrotóxicos e eu acho que dá para juntar com aquela sua ideia do filme’. Desse casamento, nasceu ‘O veneno está na mesa’.

     

     A expectativa que você tinha antes de ir a campo realizar as filmagens e entrevistas se confirmou durante o processo?

     

    O documentário sempre supera as expectativas. Sempre a realidade é mais forte do que a ficção. Eu sou documentarista por isso, porque acho que a realidade é muito forte. Em primeiro lugar pudemos ver que o veneno contido nos agrotóxicos não é um fato teórico, é uma realidade muito dura e muito difícil, mais dramática do que eu imaginava. E segundo que o trabalho e a luta das pessoas que reagem e enfrentam também é muito difícil, então, nesse sentido, é um filme mais completo do que o meu imaginário e muito mais forte. Eu estou muito feliz por estar fazendo esse filme.

     

    Quanto tempo durou o processo de filmagem?

     

    Uns seis meses. Começamos no final do ano passado. Fizemos com muito pouco recurso, é um filme muito barato para o que ele é. Fizemos filmagens em Porto Alegre, Ceará, Espírito Santo, envolvemos muita gente, fizemos tudo com muito carinho, com a maior qualidade. Temos três grandes atores narrando o filme – Julia Lemmertz, Caco Ciocler e Dira Paes – além de um diretor de teatro que é um ícone para essa garotada, que é o Amir Haddad. Então, temos um produto com um baita acabamento e muito pouca grana. Muito mais barato do que essa campanha que está no ar hoje de defesa do agrotóxico [a campanha Sou Agro]. A diferença é que fizemos com paixão e com carinho, e não com grana.

     

    Diante dessa forte propaganda do agronegócio em defesa do modelo de produção que utiliza agrotóxicos, o que você espera da difusão do filme?

     

    Eu espero esse entusiasmo da juventude, da militância. Na verdade, esse é um filme que de uma outra forma eficaz combate a pirataria, porque na verdade as cópias serão dadas e não vendidas, então, ninguém vai comprar. O filme segue com o selo “copie e distribua”, e eu espero que essa forma de a gente trabalhar funcione, por exemplo, como a eficácia de um blog na internet, pelo qual as pessoas se informam. Esse filme, de uma certa maneira, é um blog em forma de DVD, que será distribuído, vai circular, as pessoas vão assistir e vão criar um movimento de consciência de que realmente o agrotóxico é uma coisa muito ruim para todo mundo. A mensagem é que nós podemos construir uma agricultura sem agrotóxicos. Que, a partir do momento em que a sociedade se organiza e se mobiliza, nós podemos começar a pensar na vida sem agrotóxico, pensar num outro projeto de vida que a gente quer fazer. E essa mudança em relação aos agrotóxicos pode funcionar daqui para frente em relação a tudo o que queremos da vida.

Entrevista concedida a Raquel Júnia – EPSJV/Fiocruz. Fotos: Raquel Torres – EPSJV/Fiocruz

Nota do EcoDebate: Seguem os links e os vídeos do documentário “O veneno esta na mesa” do cineasta Silvio Tendler.

Documentário denuncia a problemática causada pelos agrotóxicos, e fazparte de um conjunto de materiais elaborados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Parte – 1 http://www.youtube.com/watch?v=WYUn7Q5cpJ8&NR=1
Parte – 2 http://www.youtube.com/watch?v=NdBmSkVHu2s&feature=related
Parte – 3 http://www.youtube.com/watch?v=5EBJKZfZSlc&feature=related
Parte – 4 http://www.youtube.com/watch?v=AdD3VPCXWJA&feature=related

Parte – 1

Parte – 2

Parte – 3

Parte – 4

EcoDebate, 01/08/2011

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3 comentários em “Por uma agricultura sem agrotóxicos: ‘O veneno está na mesa’, entrevista com Silvio Tendler

  1. Onde encontrar còpia do filme em DVD? Gostaria ter isso para ampliar a documentaçao acerca da contaminaçao generalizada pelo uso de agrotòxicos no Brasil. Jà tinha denunciado isso em 2007 através da TV GLOBO nos serviços de Marcelo Canellas: Um Brasil Desconhecido.
    Foram vàrios serviços no Bom Dia Brasil, no Fantàstico e no Globo News. Ainda se encontram nos vìdeos da Globo sob o nome: Terra do Meio. No serviço “As Estradas” apresentei uma denùncia formal do uso de agrotòxicos adulterados cujos efeitos se parecem com os do Agente Laranja do Vietnam. Somente apòs mais de 3 anos a Anvisa e o Ibama reconhecem que està se usando ainda este veneno, produzido no Brasil por vàrias empresas dentre as quais a NUFARM do BRASIL com o produto Nufarm 2,4-D ou U 46 D -Fluid . Padre Angelo Pansa- Delegado ICEF (International Court of the Environment Foundation )

    Resposta do EcoDebate: O documentário acaba de ser lançado e ainda não está disponível em DVD.

  2. Graças a Deus estamos vendo iniciativas inteligentes que realmente buscam o bem social. Além de parabenizar o Senhor Sílvio Tendler pela espetacular idéia, gostaria de pedir nesta página que alguém que entendesse de alimentos, buscasse dados e pedisse aos governos que fizessem pesquisa sobre a maneira como são criados os animais para nossa alimentação. Um frango que levava 6 meses ou mais, para chegar ao ponto de ser abatido, hoje leva um tempo mínimo sendo alimentado dia e noite, com rações que , segundo algumas pessoas recebem uréia para engordarem mais rápido os animais para o abate. E isto também acontece com outros animais. São muitos homens e empresas, sempre em busca de lucros fabulosos, sem nenhum respeito pala vida humana.
    Por favor, quem tem conhecimento e sabe a quem recorrer, por favor ajudem-nos a parar com tantas doenças, que certamente estão trazendo problemas cada vez maiores para todos nós.

  3. Prezado Angelo,

    O documentário já está disponível no youtube, no link http://www.youtube.com/watch?v=WYUn7Q5cpJ8&feature=related

    Ele não será comercializado, mas algumas cópias foram distribuídas no lançamento e podem ser copiadas e compartilhadas à vontade. A Escola Politécnica da Fiocruz, no Rio de Janeiro, possui o documentário, mas não dispõe de suficientes mídias para distribuir. Você pode entrar em contato com a Escola (www.epsjv.fiocruz.br) para saber como copiá-lo.

Comentários encerrados.

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