Atmosfera e massa crítica, artigo de Montserrat Martins

[EcoDebate] Pior que o frio que estamos sentindo, no sul, é o das pessoas que tem menos condições de enfrentá-lo. A solidariedade de cada um de nós e das instituições sociais, nessas horas, é fundamental. Mas há quem veja nisso a oportunidade de uma provocação, como a de Aldo Rebelo esta semana, no twitter: “frio aqui hein? Cadê a turma do aquecimento global?”. Não mereceria resposta, se fosse só por ele, mas infelizmente ainda existem pessoas sérias que tem esse tipo de dúvida.

O que os cientistas explicam é que se trata de um desequilíbrio climático no qual além das temperaturas médias aumentarem gradativamente, também aumenta a amplitude das variações de temperatura, que podem atingir os extremos opostos. Assim é que recordes de calor e de frio tem sido batidos, nos dois hemisférios, a cada verão e inverno, causando mortes pelos picos de frio e pelos de calor.

A atmosfera terrestre é bem descrita como sendo uma “fina e frágil casquinha” (com apenas cerca de 100 quilômetros acima da crosta) que protege as condições únicas para a vida humana nesse planeta, como em nenhum outro conhecido. Não suportaríamos as variações brutais de temperatura que são comuns por exemplo em Marte, onde na região equatorial a temperatura é de 25 graus Celsius no início da tarde, cai para 50 graus negativos no começo da noite e atinge -70 graus Celsius à meia-noite. Ou na Lua, onde a temperatura varia de -153ºC à noite a +107ºC durante o dia, conforme dados obtidos pela NASA.

A atmosfera protege a vida na Terra absorvendo a radiação ultravioleta solar e ao mesmo tempo aquecendo a superfície por meio da retenção de calor, entre outras mediações com o expaço exterior que reduzem os extremos de temperatura entre o dia e a noite. Os danos à atmosfera, portanto, comprometem o frágil equilíbrio das condições das quais depende a nossa vida.

Por falar em condições fisico-químicas, há um conceito científico, o de “massa crítica”, que se tornou uma metáfora sociológica. A massa crítica de um material fissionável é “a quantidade necessária para manter uma reação nuclear em cadeia autosustentada”. Esse termo virou símbolo de quantidade de pessoas necessárias para as mudanças sociais sustentadas, quer dizer, consistentes e duráveis.

Conceito que se aplica à nossa realidade política, onde deputados e senadores se mostram “descolados” dos que os elegeram, legislando em causa própria. Os políticos tem uma escolha a fazer: apostar na inteligência da população, ou na sua ignorância. A conta não vem na mesma hora, pode levar anos para chegar. Mas se olharmos para a história dos partidos políticos, nas últimas décadas, veremos que eles não passaram incólumes às suas incoerências. Estamos longe de um cenário ideal, mas lembro claramente de como era há algumas décadas, dos “grandes partidos” que sucumbiram à sua falta de compromisso com a população.

A tão decantada “reforma política” não terá efeitos sem uma mudança cultural. Um debate interessante na internet sobre “valor de rede e massa crítica” observa que “massa crítica não é o número de participantes de uma comunidade, mas sim, a quantidade de atividade entre seus membros, o número de interações durante um certo período, em que a partir daí, a quantidade de atividade cresce de forma natural. Por isso é muito importante contar com um grupo bem ativo, mesmo que pequeno, no início da construção de uma comunidade, para que a massa crítica seja atingida mais rapidamente”.

Para a crise política nacional, mais que a mudança de leis, é bem vinda a “massa crítica” a partir de uma opinião pública mais atuante.

Montserrat Martins, colunista do EcoDebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 08/07/2011

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