Habilidade com as pessoas, artigo de Montserrat Martins

[EcoDebate] Os conflitos nas escolas, antes que desencadeiem tragédias, trazem a questão do que se pode fazer contra o “bullying” e a violência em geral. Questão que tem um ponto de partida básico, a presença ativa dos adultos na escola (direção, coordenadores, professores). O ponto seguinte é o tipo de interação que esses adultos estabelecem com os jovens, se de mero controle ou de participação e envolvimento no universo deles.

A ausência ou a mera tentativa de controle não tem sido eficaz na prevenção dos conflitos entre os alunos, ou destes com o colégio em si. Mas existem casos interessantes como o da escola Padre Reus, uma história que merece ser contada. Em março de 2006, a direção da escola foi surpreendida pelo alto grau de agressividade com que, especialmente, os alunos novos das primeiras séries do Ensino Médio iniciavam o ano letivo: porta de sala de aula queimada, banheiro estourado, pichações e depredações do patrimônio escolar, além do aspecto violento das relações interpessoais entre alunos e para com os professores.

Foi solicitado ao professor de artes que organizasse um projeto-piloto para 15 turmas (de 1º a 3º ano), em combate à situação apresentada. O professor Aloizio Pedersen conta que “iniciei este novo trabalho, baseado em aulas-oficina, de desbloqueio da capacidade criativa em uma sala ampla, sem cadeiras, nem classes. Percebi que este vandalismo aparente encerrava uma mensagem cifrada que precisava ser decodificada. Ninguém nasce com aptidão para ser vândalo. O resultado das aulas-oficina começaram a aparecer já mesmo em 2006, com alunos mais focados e bem menos agressivos. A mudança foi percebida pelos professores, pela direção e comprovada pelo setor financeiro, devido a uma economia de R$ 12 mil anuais, pois a escola passou a ser pintada apenas uma vez por ano”.

Outro relato impressionante, num local ainda mais difícil de trabalhar, é o de uma diretora de instituição para jovens com problema de conduta, num episódio em que ocorreu uma greve dos funcionários. A diretora chamos as internas e colocou o dilema: chamar a Brigada para cuidar da casa ou pedir a colaboração das próprias jovens. As internas prometeram colaborar e cumprir inclusive as atividades dos funcionários na manutenção da casa. E isso acabou acontecendo mesmo, assumiram a responsabilidade por cuidar delas próprias, mesmo estando numa instituição fechada – em que cumpriam medida judicial, sem poder sair portanto – mas mantendo tudo em seu funcionamento normal, até que os funcionários retornassem, mais de um mês depois.

Histórias como essas fogem ao comum, mostrando que problemas insolúveis para a maioria de nós, não são tão difíceis para algumas pessoas com habilidade especial para lidar com as outras. É uma espécie de habilidade comunicacional que vai além do conhecimento teórico ou bagagem cultural, requer muita flexibilidade no diálogo e a capacidade empática com as novas gerações. Significa tolerar opiniões contrárias e lidar com as diferenças, valorizando as potencialidades e dons de cada um, sendo capaz de percebê-las e valorizá-las genuinamente. Não conheço forma melhor de denominar a principal premissa, para desenvolver essa habilidade, como sendo basicamente “gostar de pessoas” – por ser o começo de tudo.

Montserrat Martins, colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 18/04/2011

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