Afinal os extremos: excesso e escassez de água são prenúncios das Mudanças Climáticas? artigo de John Emilio Garcia Tatton

Dia Mundial da Água 2011 – se lembre celebre!

[EcoDebate] O “Dia Mundial da Água” foi criado pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em 1992 no Rio de janeiro, de acordo com as recomendações da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento contidas no capítulo 18 (Recursos hídricos) da Agenda 21.

Em 2011, com o tema “Água para as Cidades – Respondendo ao desafio urbano”, as Nações Unidas convida a população mundial a refletir sobre a importância de políticas públicas e do uso responsável dos recursos hídricos nas grandes cidades, com o objetivo de garantir o abastecimento das futuras gerações.

Segundo a ONU, é a primeira vez na história da humanidade que a maioria da população mundial vive em cidades: 3,3 bilhões de pessoas, a cada mês cinco milhões de pessoas chegam às grandes cidades nos países em desenvolvimento. Este crescimento explosivo da população urbana impõe desafios sem precedentes entre os quais, a falta de suprimento de água e serviços de esgotamento sanitário são os mais prementes e lesivos.

Ao celebrar o Dia Mundial da Água 2011, a ONU quer incentivar os governos, organizações, comunidades e indivíduos a participarem ativamente na resolução do desafio da gestão das águas urbanas.

Água em excesso: prenúncio das Mudanças Climáticas

Os fortes temporais ocorridos ao longo do mês de janeiro na cidade de São Paulo, estão diretamente relacionados ao fenômeno conhecido como “ilha de calor”. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) a grande quantidade de chuvas no início do ano mostra uma discrepância entre o clima na capital e no restante do estado. Janeiro deste ano foi o mais chuvoso desde 1943, quando começaram as medições, enquanto que no interior do estado não choveu tanto.

A diferença da capital para o restante do estado está na grande aglomeração urbana que concentra fontes e receptores de energia. Os Rios Tietê e Pinheiros, além de 70 principais córregos e 569 galerias pluviais de drenagem, acumulam atualmente pelo menos 4,2 milhões de metros cúbicos de sedimentos, areia, entulho e muito lixo, volume que corresponde a 350 mil caçambas de caminhão.

O acúmulo de calor causado pela grande quantidade de edificações verticalizadas, a impermeabilização do solo, o uso de equipamentos como ar-condicionado, além das emissões de uma frota com mais de 6 milhões de automóveis, ampliam a corrente que leva o vapor de água para a atmosfera. Esse processo acaba criando nuvens maiores do que o normal. Quanto mais intensa a corrente ascendente que leva a água lá para cima, mais desenvolvimento vertical essa nuvem vai ter. Assim a “ilha de calor” é muito bem caracterizada na cidade.

Essas grandes nuvens dão origem a tempestades que descarregam em um curto espaço de tempo a precipitação que demoraria várias horas ou até alguns dias para voltar ao solo. São Paulo é a capital brasileira que tem a maior tendência para eventos extremos, chove a mesma quantidade em um número menor de vezes, de acordo com as observações feitas em todo o país pelo Inmet.

Uma chuva forte é caracterizada pela precipitação acima de 60 mm por hora ou de 10 mm em 10 minutos. Com um diâmetro médio das gotas de chuva aproximado de um a dois milímetros. Recentemente foi observada por pesquisadores gotas com diâmetro de um centímetro (10 mm). Cientistas suspeitam que a formação destas supergotas tenha relação com a poluição do ar. Possivelmente os pingos se formariam pela condensação de água em contato com partículas em suspensão.

Cientistas do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) consideram como certo o aumento da frequência e intensidade dos fenômenos climáticos extremos se o planeta continuar aquecendo. Afirmam que precisamos estar preparados para um número cada vez maior de tragédias humanas relacionadas a mudanças climáticas. O clima se tornará mais variável. O úmido será mais úmido e o seco, mais seco.

Eventos climáticos extremos, como as fortes chuvas que recentemente atingiram Angra dos Reis, Ilha Grande e que mataram quase mil pessoas na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, podem estar relacionados ao aquecimento global. Assim como temporais nunca vistos, que no mesmo período ocorreram em São Luís do Paraitinga (SP), em Santa Catarina, na Cidade do México, em Buenos Aires e em regiões da Austrália, Paquistão e Arábia Saudita.

Essa sucessão de tragédias climáticas provavelmente tem alguma conexão. Segundo os cientistas, ela é coerente com o quadro das mudanças climáticas esperado. Cada vez mais há ruptura dos padrões conhecidos de clima. As médias tradicionais de chuvas, segundo as quais foram construídas nossas cidades e até nossa civilização, estão sendo rompidas por recordes seguidos.

Pesquisas mostram que a presença na atmosfera de gases efeito estufa originados pela ação humana, contribui para o aumento da temperatura da atmosfera e levam a um acúmulo maior de vapor d´água, que se transforma em chuva, aumentando significativamente a probabilidade de tempestades, caracterizadas por mais de 100 milímetros de água por metro quadrado em um dia. De acordo com a Rede Histórica Global de Climatologia, 2010 foi o ano mais úmido já registrado, em termos de precipitação média global.

Estudos, coordenados pelo meteorologista Francis Zwiers, do Centro Canadense de Análises Climáticas, contabilizaram os índices máximos de precipitação do hemisfério Norte de 1951 a 1999 e concluíram que o aumento dos gases efeito estufa (GEE) contribuiu para a intensificação das chuvas fortes em aproximadamente dois terços das áreas analisadas. Para ter certeza de que o aumento foi causado pelos GEE, os pesquisadores compararam os modelos climáticos da segunda metade do século 20 com a concentração de gases-estufa na atmosfera durante os anos e confirmaram que as chuvas se tornaram mais intensas conforme as emissões aumentaram.

A temporada de furacões do Atlântico em 2010 foi extremamente ativa, com 19 tempestades e 12 furacões. O ano terminou em terceiro como o de mais tempestades e em segundo como o de mais furacões já registrados. Desde que os registros começaram em 1979, o Ártico atingiu o seu terceiro menor índice de gelo do mar anual. A oscilação negativa do Ártico em janeiro e fevereiro de 2011 ajudou a espalhar o ar frio do Ártico para grande parte do Hemisfério Norte. Frios recordes e grandes nevascas com acúmulos de neve ocorreram em grande parte da América, norte da Europa Oriental e da Ásia. Entretanto em março de 2011, a extensão do gelo marinho da Antártida atingiu o oitavo menor índice máximo de extensão anual. Realmente o clima do planeta está mudando.

Água em escassez: prenúncio das Mudanças Climáticas

O Centro Nacional de Dados Climáticos dos Estados Unidos revelou que 2010 e 2005, foram os anos mais quentes da história desde que os registros começaram a ser feitos, em 1880. A temperatura global em 2010 foi a segunda mais quente já registrada, com 0,96°C acima da média do século 20. A temperatura da superfície do oceano ficou empatada com a de 2005 como a terceira mais quente já registrada, com 0,49°C acima da média do século 20.

Estudos realizados pela Universidade de Leeds no Reino Unido e pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) revelaram que a seca de 2010 na Amazônia pode ter sido ainda mais devastadora para suas florestas do que a seca de 2005, antes considerada a mais grave da região nos últimos cem anos.

Outro estudo (The 2010 Amazon Drought) publicado pela “Science” comparou as secas de 2005 e 2010, através de observações por satélite. A primeira, pela amplitude, foi batizada “seca do século” na Amazônia, por ter afetado 1,9 milhão de quilômetros quadrados, ou seja, 37% da superfície total. Mas a segunda, somente cinco anos mais tarde, foi ainda mais forte, por ter afetado 3 milhões de quilômetros quadrados, 57% da superfície total observada. Em virtude do déficit hídrico de 2010, o rio negro e o rio Amazonas, rio mais volumoso do mundo, atingiram seus níveis mais baixos desde 1963.

Cientistas britânicos e brasileiros calculam que a seca de 2010 pode provocar a emissão de mais de 5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) florestal para a atmosfera. Com base em correlações conhecidas entre seca e mortalidade das árvores, os autores do estudo prevêem o impacto nocivo da seca de 2010: não só a floresta não poderá mais captar seu habitual 1,5 bilhão de toneladas de CO2, como também as árvores mortas, ao apodrecerem, soltarão 5 bilhões de toneladas de CO2 ao longo dos próximos anos. Em comparação, os Estados Unidos emitem anualmente 5,4 bilhões de toneladas de CO2 de origem fóssil.

De acordo com cientistas, também as alterações em ciclos climáticos, como o El Nino, La Nina e o aquecimento do Atlântico Norte causados pelas mudanças climáticas, podem aumentar a intensidade e frequência de secas na Amazônia. Assim como também os gases de efeito estufa, secas, desflorestamento, incêndios e emissões crescentes de carbono intensificam o efeito estufa e o aquecimento climático, concluiu o estudo publicado na revista “Science”.

Água sem qualidade: prenúncio das Mudanças Climáticas

As mudanças climáticas podem aumentar a exposição das pessoas a doenças transmitidas pela água procedente de oceanos, lagos e ecossistemas costeiros. De acordo com cientistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) vários estudos demonstraram que as mudanças no clima provocadas pelo aquecimento global tornam os ambientes marinhos e de água doce mais suscetíveis à proliferação de algas tóxicas, conhecida como “maré vermelha” e permitem que micróbios e bactérias nocivas à saúde se multipliquem.

Nos Estados Unidos a Agência de Proteção Ambiental (EPA) recentemente notificou que irá atualizar as leis de água limpa do país, que estão atrasadas em relação à ciência ambiental e de saúde. Vários estudos mostram que centenas de substâncias químicas industriais e agrícolas, incluindo vários carcinógenos conhecidos, estão presentes nos sistemas de água municipais americanos.

Há suspeitas de que o consumo de água contaminada por estrogênio, um hormônio sintético presente em pílulas anticoncepcionais orais e produtos veterinários, para aumentar a produção de leite, provoque nas pessoas desequilíbrios hormonais e reprodutivos e a feminização de peixes. Para os cientistas é importante a modernização do tratamento de efluentes, incluindo a desinfecção com ozônio, entre outros tratamentos capazes de remover compostos como o estrogênio e parasitas como o cryptosporidium

As leis e programas de fiscalização nos EUA não acompanharam o ritmo da disseminação da contaminação, o que representa riscos de saúde significativos para milhões. A EPA anunciou que irá estabelecer padrões para até 16 outras substâncias tóxicas e carcinógenas, entretanto há muito mais contaminantes de preocupação emergente, que a ciência apenas recentemente permitiu detectar em níveis muito baixos, partes por bilhão e até partes por trilhão, como a dioxina por exemplo. É preciso continuar acompanhando o aumento do conhecimento e as implicações para a saúde pública de um crescente número de substâncias químicas que podem estar presentes em nossos produtos, nossa água e nossos corpos.

O Brasil é atualmente um dos maiores consumidores de agrotóxicos classificados como perigosos ou muito perigosos para o ecossistema aquático e o meio ambiente, de acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em 2009 foram utilizadas 90,5 mil toneladas do herbicida glifosato em lavouras de 26 culturas diferentes, entre elas arroz, café, milho, trigo e soja. Entre os dez produtos agrotóxicos mais comercializados está o metamidofós, banido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na última semana pelos altos riscos à saúde. Muitos agrotóxicos em uso no Brasil já foram proibidos em seus países de origem, como o acefato, por exemplo, que está passando por processo de reavaliação e pode ser banido das lavouras brasileiras.

Ainda no século XXI a falta de saneamento básico nas regiões Norte, Nordeste e nas periferias das grandes cidades Brasileiras são responsáveis pelas altas taxas de internação por diarréias, decorrentes de condições mínimas de esgotamento sanitário, que expõem a população permanentemente a enfermidades.

A situação é mais grave onde há menos saneamento e mais pobreza e as crianças são o elo mais frágil. Estudo do Instituto Trata Brasil comprovaram que as crianças de até 5 anos são o grupo mais vulnerável às diarréias e representam mais de 50% das internações por esse tipo de enfermidade. Nos 81 municípios analisados pelo estudo, 39.265 crianças de até 5 anos haviam sido internadas por diarréias em 2007. Conclui-se que o pleno acesso ao saneamento básico é a garantia para melhoria de saúde, qualidade de vida e de um futuro sustentável para o país.

Sem dúvida o lixo é o que mais impacta as águas no mundo todo, sejam salgadas ou doces. Ilhas de plástico já podem ser vistas do espaço, lógico ao lado de lixo espacial. São Paulo a maior cidade do Brasil não tem onde depositar o lixo doméstico e comercial de seus mais de 10 milhões de moradores. A metrópole está desde 2009 sem aterro próprio para descartar as 12 mil toneladas diárias de lixo que produz e ainda, as aproximadamente 55 gramas diárias de biosólidos por habitante, provenientes do tratamento de esgotos. O último aterro em funcionamento possui uma montanha de 28 milhões de toneladas acumuladas ao longo de seus 17 anos de funcionamento. Sua manutenção pelos próximos 20 anos inclui a queima de gás metano e ainda o transporte diário de quase 6 mil toneladas de chorume para tratamento na Sabesp.

O casamento fúnebre do lixo com os esgotos tem sido um pesadelo para os paulistanos nesse verão de 2010. Haja vista o grave impacto social, ambiental e econômico causado pelas enchentes na Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, que abriga a Região Metropolitana de São Paulo, com mais de 20 milhões de habitantes. O rio Tietê exprime o “caldo da cultura” consumista e insustentável da megametrópole.

Gestão da água: saneamento, legislação e educação ambiental

A solução encontrada para conter a degradação socioambiental no Brasil foi a criação, pela ordem nos últimos anos, das políticas públicas de meio ambiente, recursos hídricos, educação ambiental, saneamento e resíduos sólidos, institucionalizadas em forma de leis.

Em consideração ao tema “Água para as Cidades – Respondendo ao desafio urbano” do Dia Mundial da Água 2011; destacamos a política pública de recursos hídricos, com: a outorga de uso da água, o licenciamento de empreendimentos poluidores, o enquadramento de corpos d´água receptores e principalmente a gestão participativa da água, com difusão da educação ambiental, no âmbito dos Comitês de Bacia. O século XXI será o século da ecologia.

Também a inclusão de disciplinas como Ecologia e Ciência Ambiental em cursos das áreas de exatas, como arquitetura, engenharia e economia; além da criação de novos cursos de graduação, como Engenharia Ambiental e Ecologia; trouxeram avanços de conhecimento significativos para conquista do desenvolvimento sustentável.

Entretanto a geração atual que comanda empresas e governos continua com foco na rentabilidade econômica para poucos, ainda não está convencida da mudança de paradigma urgente a ser aplicada, com a renovação de crenças e valores e aplicação efetiva das ferramentas de sustentabilidade conhecidas: Agenda 21, 3Rs, ISO14.000, A3P, Consumo Responsável, Pegada Ecológica, Quimica Verde, Ecologia Industrial, Responsabilidade Social, Educação Ambiental, Eliminação da Pobreza. Sem querer enumerar o supérfluo, reividicamos o necessário para todos os habitantes do planeta: água potável, alimento e saneamento ambiental.

Dia Mundial da Água 2011 – se lembre celebre!

John Emilio Garcia Tatton é professor de Ecologia Urbana no Curso de Arquitetura e Urbanismo da Fundação Armando Alvares Penteado – FAAP e Presidente da AGUA – Associação Guardiã da Água / www.agua.bio.br

EcoDebate, 22/03/2011

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