Sentimento de impotência, artigo de Montserrat Martins

[EcoDebate] É uma reação natural evitar assuntos mais dolorosos, quando não há nada que possamos fazer para mudar os fatos – é o chamado “sentimento de impotência”, do qual derivam comportamentos e mecanismos de defesa psicológicos que vão da apatia à negação da realidade, acompanhados por tristeza, angústia e até depressão. Isso ocorre tanto em situações de nossas vidas pessoais quanto em fatos sociais chocantes, como os que sucederam neste mês de março. Destruição no Japão, com acidente nuclear inclusive, genocídio na Líbia, um somatório de fatos chocantes provocaram tristeza e medo através do mundo.

O sentimento de impotência é uma parte importante de nossas vidas sociais, não aparece só nas grandes tragédias, mas também sob forma de problemas crônicos, como por exemplo no noticiário cotidiano sobre a corrupção ou sobre a violência. Cada um de nós, como indivíduo, se sente muito pequeno e sem poder de fazer algo que faça a diferença em situações como essas, o que às vezes resulta em passividade coletiva, quando deixamos de acreditar que algo possa ser feito.

O mais sublime exemplo de tragédia canalizada para a transformação social foi a da mãe que perdeu o filho no trânsito e dedicou sua vida à prevenção de acidentes, estamos falando é claro da Diza Gonzaga e do movimento Vida Urgente. Nada poder ser comparado à dor de uma mãe diante da sua maior perda, a de um filho. Por enfrentar – e como uma missão para ajudar aos outros – o próprio sentimento de dor e impotência, Diza passou a ser uma referência para outros pais e mães com perdas irreparáveis, com o exemplo da solidariedade, da ação social para a conscientização e prevenção de mais e mais tragédias. Por maior que seja o sentimento de impotência – pois nada irá trazer seus filhos de volta – estas histórias de transcendência da vidas representam o mais elevado que seres humanos podem fazer com a própria tristeza, sofrimento, luto, com a própria depressão. É da capacidade de ver algum sentido na vida (pois se não sem descobrisse algum sentido, não haveria motivação para reagir) que brota essa resposta sublime, de canalizar a própria dor para o socorro aos outros.

Não sabemos como vai ficar o Japão, nem a extensão do genocídio na Líbia, questões pelas quais não temos como fazer tanto. Mas um pouco do Japão está aqui pertinho de nós, nos atingidos pelas enchentes em Santa Catarina ou ainda mais ao sul, em São Lourenço do Sul. Situações de violência como as da Líbia também, se não temos aqui um Kadafi temos vários “patrões” do tráfico ordenando mortes em regiões que aterrorizam. Assim como há, também, algumas pessoas que lutam de modo até mesmo heróico (como a Diza), para prevenir tragédias, ou ainda para impedir devastações naturais produzidas pelo próprio ser humano a desequilibrar o clima, ou em projetos de recuperação de jovens violentos.

São pessoas como estas que podem nos mostrar caminhos melhores para aprendermos a lidar com nossos sentimentos de impotência, diante das pequenas e das grandes tragédias da vida.

Montserrat Martins, colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 21/03/2011

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Um comentário em “Sentimento de impotência, artigo de Montserrat Martins

  1. Os artigos Sentimento de Impotência de Montserrat Martins, e (Recursos Hídricos) Inquietude, de Mauro Banderali publicados nesta edição de hoje, (21/03/2011) são complementares em seu conteúdo e têm como personagem emblemático a água, cujo dia internacional se comemora amanhã. Ambos abordam um mesmo sentimento que nos invade e parece se transformar em uma epidemia: impotência/inquietude perante um conjunto de atitudes e ações praticadas por seres humanos contra o restante dos seres vivos que cohabitam este planeta. Não importa que alguns afirmem que o aquecimento global é cíclico, assim o resfriamento a Terra é velha o suficiente (em termos humanos)para ter passado por idades do gelo, do fogo e ainda estar inteira(ou quase) a questão é que uma única espécie conseguiu ser mais destrutiva que todos os demais agentes transformadores. Os humanos estão entre os mais recentes povoadores do planeta e é incrível como conseguiram eliminar outras espécies, alterar a geografia, destruir e envenenar o próprio ambiente que lhes garante a sobrevivência. E aí nos assalta a inquietude e o sentimento de impotência: afinal por que? Que estranho comportamento este que nos leva a admitir quase passivamente que paranóicos e psicopatas assumam o controle de toda uma espécie? Que as pessoas que protestam contra tais desvarios sejam tratadas como importunos, sonhadores, ou “ecochatos”, enquanto a principal fonte de vida é transformada em uma inquietante fonte de morte, como observa Mauro Banderoli deixando-nos com um terrível sentimento de impotência conforme define Montserrat Martins.

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