Fugindo das multidões, artigo de Montserrat Martins

[Ecodebate] Pesquisa da Secretaria da Cultura da Bahia, noticiada na internet, revelou que 77% dos moradores de Salvador fogem do carnaval, não comparecendo a nenhum de seus eventos. Um dado interessante considerando ser aquela uma das regiões mais festivas do nosso país, marcado culturalmente como sendo o “país do carnaval e do futebol”. No sul não deve ser diferente, como já disse o Luís Fernando Veríssimo quando escreveu que adorava ficar em Porto Alegre no verão porque é quando “os moradores de Tramandaí voltam para a sua verdadeira cidade”.

Sim, os grandes eventos mobilizam multidões de jovens, o que inclui as suas famílias, muitas vezes, para lhes propiciar isso, desde temporadas na praia até festivais badalados que podem ocupar todo um final de semana. Mas também tem acontecido o reverso disso, o das pessoas e famílias inteiras que se programam para o “contrafluxo”, para fugir dos engarrafamentos ou megaeventos e seus efeitos colaterais. Daí a procura por praias mais sossegadas, ou em outra época, ou mesmo “curtir” a cidade quando os outros vão para a praia. Aliás, um sucesso “cult” é a SAPA, Sociedade dos Amigos de Porto Alegre, do Veríssimo e sua turma, que só existe nos meses de verão.

Não é só questão de paz, sossego, evitar o stress ou fazer economia (pois quanto mais gente freqüenta um local, mais os preços sobem lá – e vice-e-versa). A resistência a fazer parte da “boiada” é também uma metáfora para inúmeras outras situações em que a moda e a mídia faturam com tendências de comportamentos estimulados para explorar a característica humana de sermos “gregários”, quer dizer, dependentes dos grupos. Daí surgem situações curiosas como tatuagens e piercings, que no início eram condutas rebeldes contra o “status quo” conservador e hoje estão se tornando quase uma obrigação da moda jovem. Dá até para imaginar, daqui a algum tempo, um adolescente se rebelando contra seus pais tatuados e dizendo que “eu não quero” tatuar algo, como algum símbolo da “tribo” deles nos braços.

Não há como fugir do fato de que necessitamos de aprovação social, usamos roupas ditadas pela confecções – você sabe, hoje até os mais velhos usam calça jeans desbotada – mas a rebeldia também faz parte desse jogo psicológico e social. Do mesmo modo como precisamos nos sentir parte de alguma “tribo”, também temos necessidade de “identidade” psicológica individual, algo que diga que somos um ser único. Nem que seja para dividirmos nosso tempo e hábitos entre os momentos em que aderimos às multidões e os momentos em que fugimos delas.

Montserrat Martins, colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.

EcoDebate, 15/03/2011


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