Acidente nuclear no Japão ‘acende alerta’ em Angra

Rio Santos: Obras desde o verão de 2009 | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Obras desde o verão de 2009 | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia

Rotas de fuga são estreitas, têm sinalização precária, pista irregular, obras antigas e risco de deslizamento. População não está preparada para escapar rapidamente

Rio – A tragédia nuclear japonesa acendeu um alerta nas usinas Angra 1 e 2, no Estado do Rio de Janeiro. Mas, se no Japão a população já estava instruída e tinha infraestrutura para esvaziar a área com segurança, no Brasil é diferente.

A equipe de reportagem de O DIA percorreu ontem o trajeto entre Angra dos Reis e a capital e constatou que as rotas de fuga não são apropriadas para que a população da Costa Verde consiga escapar em caso de acidente, e a população não é treinada adequadamente. A BR-101, que liga as cidades, além de mal sinalizada, tem trechos com quedas de barreiras em obras desde o Réveillon de 2010, quando a chuva fez centenas de mortos na região. Reportagem de João Fernando e Michel Alecrim, em O Dia Online, RJ.

O tipo de reator da usina japonesa tem diferenças do modelo brasileiro, segundo o físico Luiz Pinguelli Rosa, da Coppe/UFRJ. “Nosso sistema apresenta vantagens, mas tem a proximidade do mar. Uma tsunami não é provável, mas estamos vulneráveis”.

O risco de vazamento de radiação não está relacionado só a abalos sísmicos e tsunamis. Falha no núcleo do reator é uma das hipóteses. Atentados terroristas e a queda de um avião não são descartados.
Mecanismos de proteção existem para evitar vazamento, mas, em caso extremo, o risco maior é para quem vive num raio de cinco quilômetros.São 20 mil pessoas.

A contaminação mais grave, que atingisse de 10 a 12 quilômetros, afetaria 80 mil. O risco de atingir o Centro de Angra, aventado por ambientalistas, mas negado pelas autoridades, comprometeria a segurança de 180 mil moradores.

O conselheiro da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (Sapê) Rafael Ribeiro também critica o plano. Segundo ele, a população não está devidamente treinada para emergências. Ele disse que a retirada das pessoas poderia ser prejudicada em caso de queda de barreira ou engarrafamento.

O secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, é outro que vê falhas no plano de contingenciamento. Segundo ele, os exercícios deveriam ser mais frequentes e os procedimentos, mais claros.

A Eletronuclear, que opera as usinas , divulgou nota afirmando que a região tem baixo risco de terremotos ou tsunamis. Além disso, alega, as estruturas suportariam abalo até de grande magnitude.

O presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Odair Dias Gonçalves, diz que o raio de cinco quilômetros é suficiente para a segurança.

Engenheiro reconhece que rodovia não é suficiente para saída em massa

Com apenas uma estrada entre o mar e a montanha como rota de fuga, os moradores de Angra dos Reis podem ter problemas para esvaziar o local com rapidez no caso de uma tragédia nuclear. No trecho entre Itacuruçá e o Centro da cidade, a pista comporta apenas dois carros, um em cada sentido. No trajeto há quatro obras contra quedas de barreira inconcluídas, uma ocupa parte da via, onde só passa um carro por vez. Além disso, as placas de sinalização estão cobertas pela vegetação.

O engenheiro Pedro Bonsanto, 56 anos, que se mudou para a região na década de 80 para trabalhar na central nuclear, reconhece que a rodovia é insuficiente para uma saída em massa. “Se houvesse mais acostamento, seria melhor. A estrada é muito instável. Se acontecer um acidente, será um problema”, avalia o mineiro.

Segundo ele, a ineficiência das autoridades atrapalha ainda mais. “A estrada está em obras há um ano e três meses. Como é possível termos recursos para ter uma usina nuclear se eles não pintam nem as faixas”, reclama ele, que todos os anos recebe em casa um calendário com instruções de saída e datas de simulações de emergência.

Pablo Wendel, 18, que costuma pegar ondas na Praia Brava, próxima à usina, diz que há pouca divulgação de normas de segurança. “Quando eu estava na escola, eles faziam palestras, mas isso não é frequente”, explicou.

EcoDebate, 15/03/2011

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