Resenha do livro ‘Viagens de Sofia’, de Antônio Claret Fernandes

Por Gilvander Moreira1

[Ecodebate] De Antônio Claret Fernandes – padre da Arquidiocese de Mariana, MG e, de fato, um verdadeiro pastor dos pobres, um profeta no nosso meio -, o livro “Viagens de Sofia”, composto de cinco contos – O corpo, O Andarilho Trovador, a Mãe, Vítima e Viagens de Sofia – convida o/a leitor/a a uma viagem pelo dia-a-dia de um povo que luta, de forma organizada, com uma grande paixão no coração e com a utopia da construção de um Outro Mundo. Quem lê o livro entende melhor a exclamação do Galileu de Nazaré: “Pai, eu te louvo, porque escondeste estas coisas aos poderosos e as revelastes aos pequenos e simples.” (Mateus 11,25).

Através dos cinco contos, “Viagens de Sofia” põe a nu a crueldade do sistema capitalista que absolutiza o lucro e a acumulação para uma minoria à custa da miséria da maioria do povo. “Sofia”, personagem principal do livro, revela que diante do grande dragão que é o sistema capitalista, os movimentos populares, particularmente os da Via Campesina, continuam lutando com rebeldia e, por isso, cultivam a esperança, filha da luta. Sabem muito bem que se parar de lutar, a esperança morre.

O primeiro conto, O CORPO, leva o/a leitor/a a participar dos funerais de Dom Luciano Mendes de Almeida, falecido em 26 de agosto de 2006, dia em que o MST ficou a primeira bandeira do Movimento Sem Terra no município de Salto da Divisa, no Vale do Jequitinhonha, MG. Por isso, cinco dias depois, o acampamento foi batizado de Acampamento Dom Luciano Mendes. O CORPO resgata a força profética do grande e saudoso pastor que foi dom Luciano Mendes.

O segundo conto, O ANDARILHO TROVADOR, reflete sobre a força da vida como “local” propício para a formação do padre e sobre os entraves existentes hoje para a uma evangelização libertadora. Trata-se de uma denúncia ao atual modelo de formação dos novos padres que, em seminários, que mais parecem granjas, retiram os jovens do meio do povo e de suas famílias e com um estilo de vida supercômodo acaba deformando muitos dos futuros sacerdotes. É na luta que o Andarilho Trovador descobre que “as trovas lhe foram mais úteis e importantes do que os tratados de teologia e filosofia.” “Nos enfrentamentos, foice afiada só não basta; é preciso alimentação e boa saúde”, alerta Sofia. Assim reconhece a importância da rede de solidariedade ao povo que luta. Dar uma cesta básica a uma pessoa marginalizada que sobrevive isolada – o que pode acomodar quem recebe e tranqüilizar a consciência de quem dá – é muito diferente do que dar uma cesta básica para sustentar lutas concretas que vão às causas das grandes opressões. Isso é solidariedade de mãos dadas com a luta por justiça. “A ilusão de ficar rico dentro do sistema capitalista é o ópio da classe trabalhadora! Os pobres morrem de trabalhar a vida toda nas fazendas e nas fábricas e depois são despachados como cavalos velhos”, pondera Sofia.

O terceiro conto, A MÃE, denuncia o capitalismo como o que causa o abandono do povo à própria sorte. “O pobre sabe como arde nas costas a chibatada da opressão.” “Sofia”, diante da dor do povo, descobre a sublimidade da vida na miudeza do dia-a-dia. Nessa esteira, diz: “No balanço de nossas vidas, as miudezas é que elevam o saldo positivo.”

O quarto conto, VILMA, mostra a importância decisiva de informação e conhecimento nas lutas concretas de confronto com o sistema opressor. “Dê-nos informações e, com a nossa coragem, nós as transformaremos em rebeldia e vitória”. Informação também dá poder. Assim como Caleb e companheiros que foram pesquisar as reais possibilidades de ocupação da Terra Prometida – a Palestina – pelo povo da Bíblia, Vilma exerce sabiamente a tarefa de ser uma espiã do Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB. Ela sabe que na luta o povo não pode ser só simples como as pombas, precisa ser astuto como as serpentes. Sabe que “um dos princípios da força militar é demonstrar o máximo de poder para encontrar o mínimo de resistência. É a tática do terrorismo e do medo! É a tentativa do esmagamento psicológico!”

O quinto conto, VIAGENS DE SOFIA, reflete sobre a importância vital do estudo, da formação e do conhecimento das experiências acumuladas na formação da consciência de classe e das práticas revolucionárias. Os militantes precisam ser competentes, não podem ser franco atiradores. “O conhecimento liberta”, já dizia o grande libertador cubano José Marti. Ao contrário, a ignorância ou o amadorismo pode impedir grandes vitórias.

Como uma cascata de sabedoria, Viagens de Sofia, desfila diante do/a leitor/a conclusões lapidadas, tais como:

O mundo é um grande teatro e cada um de nós é ator; representa uma ou diversas peças. O desafio é a gente tornar-se sempre mais criativo na emancipação da vida, assemelhando-se assim ao Grande Artista.”

Gastai o melhor de vós mesmos – o tempo, o coração e todas as vossas forças – na libertação do jugo que pesa sobre os vossos ombros.”

Ou o povo empobrecido se organiza e luta ou seus direitos serão apenas lembranças inundadas.”

Quanto maior a capacidade de amar, tanto mais se desnuda a infinitude escondida na miúda existência! Para além de todas as ideologias, aí se nutre a fortaleza dos fracos, que transforma os revezes da vida em prelúdio de vida plena.”

A predestinação infantiliza o ser humano, o livre arbítrio o esmaga, a casualidade o absolve e a força popular coletiva o redime, singrando mares “antes nunca navegados”.”

Para denunciar as políticas assistencialistas e populistas, Sofia diz “as balas de açúcar ferem mais do que as balas de chumbo.”

Sofia desnuda a hipocrisia do sistema capitalista que expulsa milhares de famílias de suas casas e terras para construir grandes barragens que geram energia principalmente para as grandes indústrias eletrointensivas e abrigam em suas margens mansões para famílias enriquecidas passar férias. Sofia denuncia: “A prioridade da geração de energia é o lucro e não o bem-estar o povo.”

Embora, haja o grito de luta “Cansados? Na luta ninguém se cansa!”, Sofia admite muitas vezes ao longo do livro que está cansada, sinal de que está “suando a camisa na luta”, doando a vida pela causa da libertação dos pobres.

No sistema capitalista tudo vira mercadoria Os pobres do interior ou das capitais sentem na pele o peso desse sistema. Necessita-se de uma vaga para cirurgia urgente, por exemplo, e o paciente tem que esperar mais de dois meses, como a sua mãe”, protesta Sofia.

Assim, Viagens de Sofia é um livro tremendamente profético, pois consola os aflitos e incomoda os acomodados. Quem ler Viagens de Sofia, certamente, cultivará o dom da compaixão que nos dá a grandeza e a sensibilidade de colocar o coração, os olhos, as mãos para ouvir os clamores de quem sofre – muitas vezes injustamente – e a sabedoria de se fazer solidário de forma gratuita e libertadora. Também fomentará a indignação contra todo e qualquer sistema que oprime, marginaliza, castiga e exclui o ser humano e toda a biodiversidade. Boa viagem na companhia de Sofia!

Obs.: Já está no prelo outro livro do padre Antônio Claret que, provavelmente, terá como título “O Cronista”. Quem adquirir os livros “Viagens de Sofia” e “O Cronista” estará ajudando na luta do MAB, Movimento dos Atingidos pelas Barragens e Hidrelétricas. Contato de Padre Antônio Claret: e-mail: a_claret@terra.com.br

1 Frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, professor de Exegese e Teologia Bíblica, assessor de CEBs, CEBI, CPT, SAB e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br e www.gilvander.org.br

EcoDebate, 21/01/2011


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Um comentário em “Resenha do livro ‘Viagens de Sofia’, de Antônio Claret Fernandes

  1. Sei que é um tanto tarde para fazer essa pergunta.
    Onde eu posso adquirir o livro?
    brigadao!

Comentários encerrados.

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