Saúde no Brasil: a masculinização das mortes violentas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Saúde no Brasil: a masculinização das mortes violentas, tabela elaborada por de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] O número de mortes por causas externas, que acontece todos os anos no Brasil, equivale a uma guerra não declarada. De 1961 a 1974, morreram 46.370 soldados dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O Brasil perde quase três vezes este número de vidas a cada ano. As chamadas causas externas – acidentes e violências – somaram 133.644 óbitos em 2008, o que representou 12% do total de 1.066.842 mortes ocorridas no Brasil.

Os dados constam do relatório “Saúde Brasil 2009”, publicação anual da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde. O relatório apresenta uma descrição da mortalidade, morbidade hospitalar e atendimentos de emergência no Sistema Único de Saúde.

Os homens são os principais culpados e as principais vítimas pelo espantoso número de óbitos por causas externas no Brasil. O número de homens que perderam a vida foi 5,1 vezes maior do que o número de mulheres. O sexo masculino representou 83% do total de mortos em acidentes e homicídios do país. Os acidentes mataram 47.354 homens (42,6%), as Violências 52.258 homens (47,1%) e as mortes de intenção indeterminada e demais causas ceifaram a trajetória de 11.453 homens (10,4%). Somente os homicídios eliminaram a vida de 45.064 homens, em 2008. A maioria dos mortos do sexo masculino estava na faixa dos 20 aos 39 anos (50,4%) e era de cor parda (48,1%).

No caso das mulheres, a maioria das mortes por causas externas deveu-se aos acidentes – sendo 12.978 mortes, o que representou 57,8% do total de mortes femininas. As violências vêm em segundo lugar, com 5.781 óbitos, representando 25,8% do do total de mortes femininas. O perfil etário e étnico das mulheres que perderam a vida por causas externas é diferente daquele apresentado pelos homens. Do total de vítimas femininas, 33,8% tinham 60 anos ou mais, sendo a maioria (53,3%) de cor branca.

A morte é um evento inexorável, pois todo tipo de vida que surge, um dia fenece. Porém, os óbitos por causas externas não são fatalidades biológicas, mas sim mortes que poderiam ser evitadas com ações de infra-estrutura para evitar os acidentes e políticas públicas para diminuir a violência.

O custo social destas mais de 130 mil mortes anuais por causas externas no Brasil é incalculável. Os pais perdem os filhos que criaram com sacrifício e carinho. Esposas e maridos perdem seus cônjuges. Filhos perdem seus pais. Famílias são dilaceradas e colocadas em situação de vulnerabilidade. Empresas perdem seus empregados e a sociedade perde seus cidadãos, principalmente nas idades mais produtivas em termos econômicos, sociais e culturais.

Além disto, existem outros custos para a sociedade e para o sistema de saúde, pois as internações por causas externas representaram cerca de 8% do total de internações em 2008 (foi o quinto maior motivo de hospitalizações). Isso significa que, para cada morte, aproximadamente sete pessoas são internadas.

Existe também uma desigualdade reversa de gênero. Os homens brasileiros estão morrendo em grande proporção por causas externas que poderiam ser evitadas. Segundo o IBGE, a esperança de vida do sexo maculino atingiu 70 anos em 2009, contra 77 anos das mulheres. A diferença é de 7 anos a favor do sexo feminino. Por conta da sobremortalidade masculina e da maior longevidade feminina existe uma inversão no excedente de homens e mulheres nos grupos etários quinquenais. Até 24 anos a pirâmide populacional mostra um superávit de homens. A partir dos 25 anos passa a existir um superávit crescente de mulheres. O censo demográfico de 2010 indicou um superávit de cerca de 4 milhões de mulheres na população brasileira.

Este desequilíbrio na razão de sexo da população adulta brasileira pode trazer diversas conseguências ainda não suficientemente estudadas. Um desequilíbrio que já pode ser notado acontece no mercado matrimonial, especialmente nas áreas urbanas que concentram maior percentual da população feminina. A chamada “pirâmide da solidão” é uma constatação de que o número de mulheres sozinhas cresce com o avanço da idade e devido à sobremortalidade masculina.

O próximo governo brasileiro precisa buscar uma solução para evitar que dezenas de milhares de vidas sejam ceifadas precocemente a cada ano no Brasil por causas externas. O problema é particularmente grave para os homens que representaram 83% do total de mortos em acidentes, homicídios e violências em geral. Esta “carnificina” não pode continuar!

José Eustáquio Diniz Alves, colunista do EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; expressa seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

EcoDebate, 20/12/2010

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