O Homem Sem Seleção e a Sociedade, artigo de Maurício Gomide Martins

[EcoDebate] A sábia Natureza estabeleceu no hábitat planetário um mecanismo de desenvolvimento e adaptação favorável à vida biológica extremamente inteligente, lógica e eficiente. Dessa forma, à medida que as condições ambientais se alteram, automaticamente a elas se ajustam a morfose, fisiologia e forma societária dos seres viventes. Tem ela ainda a virtude de, como conseqüência das alterações precedentes, moldar, ajustar e selecionar o caráter da espécie, seguindo os mesmos princípios.

Para a Natureza, o objetivo de seus cuidados não é o individuo em si, mas a espécie a que ele representa. Essa seletividade, estabelecida como resposta às alterações dos meios essenciais de vida, é um recurso natural para que seja preservada a vida na Terra. Tudo é feito pela alta sensibilidade da grande molécula mestra, responsável por guardar e gerenciar o programa vital, o cromossomo. Pelo seu grande poder de captar as alterações ambientais e fazer os ajustes conseqüentes, pelo processo da seletividade, teve a capacidade de transformar um simples verme marinho em um humano terrestre, capaz de ler e compreender este artigo.

Fazemos realce neste momento de que a seleção é um processo demorado, doloroso, triste, politicamente incorreto e injusto numa avaliação cultural humana, mas – frisamos – absolutamente necessária. Necessária para o fim colimado: preservação da vida sadia.

Na observação da flora e fauna naturais – com a única exceção do animal humano civilizado –, sempre o conjunto social da espécie se constitui de indivíduos sadios, íntegros e com uniformidade biológica característica. Não se pense que nasçam com tal perfeição. Muitos são gerados, como jogo da evolução, com anomalias funcionais que os impedem de executar o normal ato do viver individual, compatível com as exigências de sua espécie. Outros se acidentam, física ou mentalmente, e perdem a autonomia. Nesses casos, são simplesmente alijados da vida, porque incapazes de sobreviver com seus próprios recursos. É a seleção agindo.

Após a invasão e apossamento do Brasil pelos Portugueses em 1500, nossos indígenas se apresentavam todos sadios. As crianças desses povos que nasciam com alguma deficiência eram jogadas no rio por suas mães, obedientes aos resquícios instintivos de seleção, posteriormente eliminados pelas culturas racionais dos brancos invasores. Conta-nos a História que, até recentemente, na cultura de muitos povos antigos não havia piedade para com os maus ou os infortunados, segundo seus próprios julgamentos.

Os povos primitivos incultos, e animais selvagens não se apõem à seleção natural, enquanto o homem moderno e tecnológico emprega todo o seu conhecimento e recursos para obstar as leis naturais. Isso tem uma correspondência evidente nos males ambientais que têm ocorrido.

Hoje, as conseqüências para a humanidade da abolição desse sábio mecanismo – em obediência cega e incondicional às imposições instintivas genéticas –, gerou situações anômalas e contraproducentes por que passa a humanidade.

Diariamente, vêem-se situações concretas de a sociedade gastar enormes recursos médicos para salvar a vida de um malfeitor ferido por quatro tiros, após ter matado para roubar cinco cidadãos. Mantêm-se, sob custos elevados, uma estrutura carcerária para hospedar indivíduos anti-sociais, criminosos, pervertidos, verdadeira escória genética. E ainda se lhes dá o direito da reprodução. E são esses os que mais proliferam. Os cidadãos decentes, corretos, sociais, geralmente restringem sua prole. O percentual dos marginais sociais de todas as espécies, presos ou soltos, está crescendo em comparação com o dos bons. Dessa forma, a nossa atual sociedade não tem um caráter uniforme, em que possa imperar a honestidade, a verdade, a honradez, a justiça e a segurança mínima.

A atual sociedade é uma mistura tão heterogênea que os vícios desagregativos vão contaminando os de bom caráter pelo contágio de vivência e cultura de ganância, tornando a sociedade humana um caldo antiético, anti-seletivo, sem qualificação definida e tolhida em sua própria autodefesa como espécie. A quantidade do joio está celeremente sobrepujando a do trigo.

O pior é que a nossa sociedade, como um todo, cresceu um absurdo em termos numéricos, representando a fatia dos anti-sociais, em todas as esferas, um fator decisivo na espoliação e degradação do meio ambiente. Isso impede também que os esforços dos ambientalistas em esclarecer e conscientizar a humanidade sejam inócuos pela não capilaridade desse insensível conjunto.

Não propugnamos pela eugenia humana, tal como proposto por Francis Galton, mas por uma atitude legítima de autodefesa do soberano interesse social que poderá muito bem ser planejada e executada pela inteligência humana, depois de sopesados todos os fatores envolvidos na questão.

A sociedade está doente, causada pela inadequação às normas sociais de muitos de seus componentes, em todos os níveis econômicos. Desde “impolutos” homens públicos até os da mais baixa categoria. Essa doença precisa ser curada sob o risco de ela se apoderar de todo o corpo social e o levar ao túmulo. E, em geral, os remédios eficientes são amargos.

O importante é que a atual sociedade está sendo corroída por um câncer específico. Isso pede ações convenientes.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

EcoDebate, 17/11/2010


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