Memória e Discernimento – pelo 2º turno, artigo de Gustavo T. Gazzinelli

[EcoDebate] Dizem que o povo brasileiro não tem memória – mas o que mais incomoda é a falta de memória dos brasileiros que dizem isso.

Nos anos 70, os irmãos Villas Boas eram celebrados por seu trabalho magnífico junto às tribos do rio Xingu. Antônio Callado publicou a obra prima Quarup – que depois virou o belíssimo filme de Ruy Guerra.

Nos anos 70, aqueles que haviam dado o golpe civil-militar em 1964 falavam em Brasil Potência. O corredor Carajás também foi obra destes, e a implantação de usinas guseiras que provocaram o desmatamento do leste do Pará e oeste do Maranhão, depois cobertos por pastagens, soja e mais recentemente eucaliptais – a principal obra de devastação da Amazônia.

O Governo Lula vem intensificando a obra de destruição da Amazônia, perdoando grileiros, e colocando uma pá de cal sobre os povos xinguaras – eis aí a mania de Brasil Potência que é a obra de Belo Monte. Engraçado que as empresas que perderam o leilão da obra de construção do complexo hidrelétrico estão sendo chamadas uma a uma pelo governo, para repartirem o bolo.

O BNDES financia a mineração e transposição de água por minerodutos que fazem secar as fontes de água de Minas Gerais, e do Nordeste para lançá-las no oceano no Rio de Janeiro e Espírito Santo. O BNDES é sócio da Vale, que por sua vez financia campanhas eleitorais, daqueles que são mui amigos da empresa. Roger Agnelli é companheiro do Presidente Lula.

O PT da moralidade provocou o escândalo do mensalão, e o homem tido como cabeça do esquema no Partido, José Dirceu, é um dos principais articuladores da candidatura Dilma em diferentes estados brasileiros.

O Brasil Potência é o mesmo da época da Cana-de-Açúcar, do Ouro e do Café – fornecedor de matérias primas primárias ou primariamente transformadas para um mercado internacional, que vê com grande simpatia a oferta dos nossos governantes em aqui sediarmos os lixos siderúrgicos e papeleiras de que os mesmos estão se livrando para cuidarem da alta tecnologia, que reprocessamos ou montamos em Manaus e noutras estações de copiagem.

Em Campinas, não foram encontrados os mandantes da morte do Prefeito Toninho – que brigava contra a máfia das empresas de transporte coletivo urbano. Em Santo André, o assassinato de Celso Daniel até hoje aguarda uma solução. Vários dos envolvidos no escândalo do mensalão, inclusive aqui em Minas Gerais, desapareceram do noticiário, como se não tivessem feito nada. Um dos principais bancos envolvidos no esquema é um dos campeões da aposentadoria consignada autorizada pelo governo federal. A principal família proprietária teve mais de um milhão de metros quadrados destombados na região da Serra do Curral, principal patrimônio da capital de Minas na zona sul (a mais valorizada) de Belo Horizonte – durante a gestão do último prefeito do PT nesta cidade.

O presidente Lula é também companheiro de Eike Batista, e durante seu governo o Ibama atropelou a ordem do licenciamento do Projeto Minas-Rio, que está se tornando um dos maiores escândalos ambientais do Brasil, com transposição de águas, violência contra comunidades tradicionais, milícias privadas impedindo o ir-e-vir de pessoas em logradouros e estradas de uso comum há décadas. Justiça seja feita, esta é uma obra também do governo Aécio Neves-Anastasia. E o fato é que depois dos primeiros licenciamentos federal e estadual, Eike transformou um investimento de pouco mais de 200 milhões em algo como 5 bilhões de reais – no negócio feito com a mineradora Anglo American, sem o menor investimento no projeto, a não ser acordos em palácios. Em São João da Barra (RJ), Lula dá a maior força para o projeto portuário-siderúrgico de Açu, de Eike, que já passou parte do negócio aos chineses e parece estar prestes a tocar o resto do projeto para outrem. Este é o caminho do nosso litoral que com indústria de alumínio no Maranhão, siderurgia e termoelétricas em Pecém no Ceará, projetos similares na na região de Ilhéus (BA) etc etc, cerceamento da atividade pesqueira em Sepetiba (RJ) promete dias cinzentos para o nosso futuro ex-belíssimo litoral.

Grande líder da América Latina, nosso presidente enviou o ministro Celso Amorim para pressionar o governo chileno a aceitar um projeto de megatermoelétrica a carvão mineral do grupo MPX, de Eike, que quer poluir o Chile e a região turística de Atacama, para dar saída ao carvão de uma jazida recém-adquirida pelo mesmo na Colômbia.

O Brasil vai muito bem obrigado. Realmente a vida dos pobres melhorou, mas há muita ‘merda’ em gestação, e o que mais assusta é virmos a ter na presidência da República, uma pessoa que nunca foi testada nas urnas, que nunca assumiu um posto de comando maior, que nos últimos anos tornou-se porta-voz para anunciar as obras e realizações do governo, não submetendo-se à crítica e às crises naturais em um cargo majoritário. Seu único compromisso, segundo se dá a entender, é com o próprio Lula – quem sabe para depois devolver-lhe o posto. Mas será que este apoio, esta palavra de confiança de um presidente popular, substitui a responsabilidade do cargo?

De acordo com as últimas pesquisas mais de 45% do nosso povo corre para o abraço com Dilma – como se o alto astral da propaganda eleitoral fosse o retrato da pessoa real no comando do país.

O presidente Lula veio de baixo e é um político capaz de sentir o povo, mas será que a entrega do governo à tecnocracia irá reproduzir esta condição, ou será um movimento mais forte ainda para fora do ideário que colocou Lula Lá, antes que os escândalos, a concertação com as grandes empresas, bancos e multinacionais transformassem o governo do PT em um gerente com cara de povo, mas que enriquece ainda mais estes setores, que destroem o meio ambiente, fazendo-se de pseudo-promotores da sustentabilidade; que financiam campanhas eleitorais e dão agrados a prefeitos; que promovem um modo de vida excludente e consumista, que aumenta a diferença social e cultural, cultivando como valor maior a lei de Gerson, do levar vantagem e outros desdobramentos que bem conhecemos.

Vejam os grandes amigos e aliados do PT, o PMDB de Sarney, Renan Calheiros e Michel Temer – que já fala em rachar os cargos de governo meio a meio.
Pense ainda se isso acontecer no primeiro turno – qual não será o salto alto e a idéia de que o mundo e o Brasil Potência começaram agora.

O Brasil precisa de mais tempo para conhecer seus candidatos a presidente e a governadores. É assim que amadureceremos, e que teremos a oportunidade de sabermos melhor e exigirmos compromissos reais para nossos futuros governantes.

Gustavo T. Gazzinelli, é jornalista, em Belo Horizonte. Integra o Movimento pelas Serras e Águas de Minas, que tem como principal foco de ação a defesa do meio ambiente e a resistência a projetos mineradores que estão devastando áreas muito importantes de Minas Gerais.

EcoDebate, 26/08/2010

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2 comentários em “Memória e Discernimento – pelo 2º turno, artigo de Gustavo T. Gazzinelli

  1. Essa é a primeira edição deste boletim que recebo, e já estou gostando
    Parabéns EcoDebate; parabéns sr. Gustavo T. Gazzinelli.

  2. Caros,
    ontem remeti o texto que já lhes havia repassado, publicado no Ecodebate, para algumas redes. Hoje recebi mensagem do antropólogo Antonio Augusto Laranjeiras Sampaio (Guga Sampaio), fazendo um comentário sobre passagem do texto. Eu faço mea culpa, pelo equívoco, e retransmito na íntegra a observação dele. Mantenho contudo as demais considerações sobre a necessidade de não permitirmos que a eleição majoritária federal seja resolvida em primeiro turno.
    Um abraço,
    Gustavo
    Abaixo, a mensagem do Guga e o texto enviado anteriormente a vocês:

    Gustavo,

    Não entendi essa referência ao “trabalho magnífico” dos “irmãos Villas Boas” “junto às tribos do rio Xingu”. O que os Villas-Boas fizeram na década de 1970, com todo apoio e patrocínio da ditadura militar, foi transferir povos indígenas à força de suas terras, como os Panar , os Kayabi e os Txukarramãe (Kayap -Metuktire), para permitir a passagem de
    rodovias e projetos de mineração, e para confiná -los no Parque do Xingu, junto com povos de fato originários dessa área, como os Kamayur, Kalapalo, Waur e outros; e transformando esse “Parque” em um grande zoológico humano, vitrine de um falso indigenismo estatal “protecionista”, enquanto o mesmo governo da ditadura massacrava povos na transamazônica e em outras regiões, com a conivência e o beneplácito dos “magníficos” Villas-Boas. Essa história ainda precisa ser melhor contada e divulgada. Leia-se, por exemplo, “Vítimas do Milagre”, do antropólogo Shelto Davis, infelizmente esgotado, para um bom relato e análise dos massacres e das transferências forçadas disfarçadas de “proteção”, pelos Villas-Boas, nessa época.

    Belo Monte só é a continuação da política de massacres e confinamentos que a ditadura e os Villas-Boas iniciaram nos 1960 e 1970.

    Abraços,

    Guga Sampaio
    Assessor Antropólogo

    ANAÍ – Associação Nacional de Ação Indigenista

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