Re-ge(ne)ração: a geração azul, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A pegada ecológica global já ultrapassa 30% a capacidade de autoregeneração da Terra.
Imagem: Stockxpert

[EcoDebate] As gerações passadas – nossos ascendentes – ajudaram a construir o mundo atual. Muitas conquistas se devem ao esforço de nossos antepassados, não só em termos de linguagem, cultura, grandes monumentos, infraestrutura, etc. Por exemplo, a mortalidade infantil, no mundo, atingia 152 crianças que morriam antes de completar um ano, para cada mil nascidos vivos, em 1950. Em 2010, a mortalidade infantil mundial tinha caído para 47 por mil e para menos de 20 por mil (2%) no Brasil. No planeta, a esperança de vida ao nascer estava abaixo de 30 anos, em 1900, passou para 46 anos, em 1950, e chegou a 68 anos, em 2010. No Brasil, as pessoas chegam, em média, a mais de 70 anos. De modo geral, as pessoas vivem mais e melhor, atualmente, do que no passado.

Contudo, as gerações passadas deixaram uma “herança maldita” em termos ambientais, pois, para melhorar as condições sociais e fazer a economia crescer, destruíram as florestas, poluíram o ar, os rios, os lagos e os oceanos e aqueceram o planeta ameaçando a biodiversidade e a sobrevivência de todas as espécies de seres vivos.

A pegada ecológica global já ultrapassa 30% a capacidade de autoregeneração da Terra.


Desta forma, o desafio das novas gerações é aumentar a qualidade de vida do ser humano, ao mesmo tempo em que garante a sobrevivência dos demais seres vivos e implemente uma faxina no planeta para garantir a recuperação do que foi destruído e depauperado. A palavra chave é regeneração, que possui as seguintes acepções, segundo o Houaiss:

1)Formação ou produção, em segunda instância, do que estava parcial ou totalmente destruído; reconstituição, restauração;
2)Modo de reprodução das árvores da floresta;
3)Reconstituição, por um organismo vivo, das partes de que foi acidentalmente amputado;
4)Segunda vida, segundo nascimento; revivificação, refortalecimento.

As gerações atuais e os jovens vão ter que cuidar da regeneração do meio ambiente. Vão ter que lutar contra os interesses econômicos de corporações que não respeitam a natureza e contra as elites que possuem um consumo desregrado. Evidentemente, as novas gerações vão ter que cuidar do verde, pois a destruição do verde e a acidez da água está tornando o Planeta desbotado e marrom. Se nada for feito, o nosso futuro será o mesmo de Marte, o planeta vermelho.

Para manter a Terra azul é preciso salvar o oxigênio e reduzir o gás carbônico. É preciso cuidar da água, evitando o desperdício e mudando o estilo de vida. A água não é para usar e sujar, mas sim para conservar e garantir a vida. Os rios, os lagos, as fontes e os aquíferos não podem ser tratados como uma grande cisterna que podemos sacar do seu conteúdo à vontade. A água potável precisa ser preservada e cultivada como um tesouro, pois sem ela não há biodiversidade. É no azul da água em geral e nos oceanos que está a última fronteira da vida e a maior diversidade de espécies do planeta.

A biosfera – e a biodiversidade existente nela – possibilita a vida de todos os seres. A biosfera é uma aguarela, com predominância do azul, tendo o oxigênio como matéria-prima. As novas gerações humanas – para sobreviverem – precisam ter a nobreza de cuidar deste azul, em todas as suas tonalidades: azul-celeste, azul-marinho, azul-esverdeado, azul-claro, azul-escuro, etc. A palavra-de-ordem do século XXI é REGENERAÇÃO e a sua implementação, no presente e no futuro, está nas mãos da daqueles que, além de descarbonizar, deve contribuir para oxigenar o Planeta: a geração azul.

José Eustáquio Diniz Alves, colunista do EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; expressa seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

EcoDebate, 13/08/2010

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3 comentários em “Re-ge(ne)ração: a geração azul, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

  1. Nossa que trágico isso tudo, muito pessimista, me diz uma coisa, porque ambientalista tem uma tendência a não gostar muito de pessoas?

    Porque eu não entendo como podem imporem restriçoes de carbano à países da áfrica e da ásia pobre!

    Pessoas que tem uma vida muito pior do que em qualquer hipótese catastrófica, pessoas que morrem de fome antes de chegar a fase adulta como é o caso de Mali onde tem uma taxa de mortalidade de 12,8%! a espectativa de vida é 50 anos, é um absurdo! E ninguém ta nem aí com esses coitados!

    Eu acredito que agente deve cuidar do nosso meio ambiente, mas cuidar do meio ambiente só faz sentido sentido se você puder dar qualidade de vida para as pessoas…

    De que adianta termos florestas lindas se nossas crinças morrem de fome!

    Nem precisa ir muito longe, tem alguns municipios do interior dos estados da região norte, como é o caso de Portel Prainha e região as pessoas “subvivem” com menos R$ 100,00 por mês, em plena floresta amazônica, uma das mais ricas do mundo!

    Eu indaguei o Diretor do Imazon ele disse que simplesmente não tem o que se fazer em prol daquele povo, absurdo!

    Vamos cuidar do planeta, mas faço um apelo devemos promover a inclusão social das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza!

    E as famigeradas indústrias é podem ajudar nesse processo, além de consciência ambiental devemos ter consciência humanitária!

    Abraços!

  2. amigo Arnaldo; passeando pelo site – me deparei com suas legítimas dúvidas – também as tenho. Mas, algumas ressalvas são necessárias: que culpa tem a floresta intacta e o planeta habitável; se as pessoas nada fazem para dar alguma qualidade de vida ás outras.

    Quem determinou o que é nível de pobreza ou qualidade de vida em dólares?

    Quem disse que a criança do hemisfério norte é mais feliz do que a pé na cova do hemisfériso sul se ninguem plantar na cabeça dela sonhos de consumo tão sem sentido.

    O amigo comete uma gafe como as minhas – confundir a sanidade planetária com a insanidade nossa, candidatos a seres humanos.

    Deixo ao amigo uma questão que me assombra. O que é progresso?
    Se descobrir de verdade me avise.

    desde já grato.

  3. Caro Américo Canhoto,

    Muito obrigado por sua reflexão quanto às questões por mim levantadas.

    Acredito que o tema afeto ao meio ambiente deve ser mais debatido pelas pessoas dessa sociedade já que diz respeito a todos.

    Seus levantamentos são muito interessantes e já me questionei várias vezes, assim como você o fez, e cheguei a alguns pontos interessantes que ora gostaria de compartilhar.

    Atendendo justamente a necessidade de maiores debates, como anteriormente tinha falado, escrevo as seguinte manifestações.

    Pois bem, esses questionamentos relativos à pobreza e ao meio ambiente permeiam os campos da filosofia, da ciência, da economia, saúde, e antropologia entre outros.

    Longe estou de pretender alguma conclusão, já que a amplitude do tema impossibilita qualquer aprofundamento ou cumprimento das normas metodológicas, entrementes minhas argumentações não devem ser totalmente descantas.

    Vou tentar passar ponto a ponto, caro amigo:

    “Quem determinou o que é nível de pobreza ou qualidade de vida em dólares?”

    Entendo que está frase questiona exatamente a legitimidade de qualquer órgão de cultura alienígena em fazer juízo de valor sobre a qualidade de vida de algum povo ou grupo de pessoas, e não exatamente qual foi a pessoa ou órgão que determinou o índice, não é mesmo?

    Nessa senda, a análise de qualidade de vida de algum povo não deve ser levada em conta apenas pela quantidade de renda que afere anualmente.

    Ocorre que quando percebemos que a expectativa de vida de um povo está muito baixa e que a mortalidade infantil está muito acima dos outros países, fica evidente que esse determinado grupo de pessoas é pobre relativamente a qualidade de vida.

    Para aferição do nível de qualidade de vida usa-se, atualmente o IDH, índice de desenvolvimento humano. O IDH utiliza três parâmetros, A educação, a renda e a expectativa de vida, os primeiros 2 fatores realmente podem até serem questionados, mas em hipótese alguma poderia se dizer que parâmetro da expectativa de vida não reflita a qualidade de vida de um povo, pois está afeto exatamente e obviamente, a vida! Reflete as condições de saúde no local, já que o cálculo da expectativa de vida é fortemente influenciado pelo número de óbitos precoces.

    Ademais, com a atual globalização em que vivemos, acredito que qualquer questionamento relativo aos parâmetros de verifição do IDH, pode cair por terra porque se sabe que o estudo e a renda influem diretamente na qualidade de vida, no entanto entendo que esses critérios não são perfeitos e devem ser modificados para incluir, por exemplo, a distribuição da renda, e não apenas a renda per capita.

    “Quem disse que a criança do hemisfério norte é mais feliz do que a pé na cova do hemisfériso sul se ninguem plantar na cabeça dela sonhos de consumo tão sem sentido”.

    Essa questão é realmente mais fácil, ora pergunte a própria criança? Ela responderá com mais precisão se ela é feliz não tendo o que comer. Acredito que não precisa ninguém dizer que é bom se alimentar ao menos três vezes ao dia?

    Nota. Percebo nesse seu questionamento é carregado de um pouco de sentimento socialista, ou meio que hippei.

    Não podemos confundir responsabilidade ambiental com o atual sistema capitalista. Eu percebo que estão tentando levantar a bandeira do socialismo por de trás da bandeira do ambientalismo, não que essas questões não devam ser debatidas, mas devemos tratá-las separadamente, sob pena de cometermos erros fatais.

    Como volvido acima, não acredito que apenas a quantidade de renda possa influir diretamente na qualidade de vida de uma pessoa. Mas no sistema capitalista atual alguém só poderá ser feliz se tiver ao menos um pouco de dinheiro para respaldar sua dignidade, assim entendida como amplo acesso a saúde, educação, desporto, lazer, moradia, alimentação. Convenhamos que nenhum povo poderá se feliz sem acesso a isso.

    Com o atual sistema capitalista é imperioso que para alguém ter acesso a esses elementos ela só conseguirá através do capital, seja dela ou de terceiro.

    Eu tenho consciência de que um índio que não teve contato com o homem pode não precisar de dinheiro, eu acredito que esses índios podem ser até mais felizes do que qualquer outra pessoa, mas mesmo assim eu não trocaria minha vida pela deles, com certeza não pois já fui contaminado pelo sistema capitalista.

    “O amigo comete uma gafe como as minhas – confundir a sanidade planetária com a insanidade nossa, candidatos a seres humanos”.

    Gafes, as pessoas vivem cometendo gafes, algumas pessoas, talvez pelo medo de cometê-las, cometem a pior de todas as gafes. Calam-se diante de si mesmas, e não questionam, ficam completamente inertes diante de questões essenciais, enclausuram-se no próprio medo.

    Posso cometer alguma gafe, mas me recuso a deixar de questionar tudo aquilo que acho que deva ser questionado.

    Já que afirmaste que cometi uma gafe, li novamente meu texto numa visão autocrítica e descobri que talvez não tenha a cometido, ao menos na ocasião.

    Ora, da mesma forma que não eu posso dizer para um indígena que ela deve seguir os costumes da minha sociedade, também não posso chegar para ele falar que ele deve continuar com seus costumes.

    Cabe a cada povo dizer a si o que é bom para si mesmo.

    O problema é que as pessoas começaram a querer adivinhar o que é bom para os outros nas questões culturais.

    Já me perguntei se vale à pena trabalhar tanto para conseguir bens materiais, de fato já fiquei mesmo na dúvida. Mas fico feliz de estar num sistema onde eu posso fazer minhas próprias escolhas.

    “Deixo ao amigo uma questão que me assombra. O que é progresso?
    Se descobrir de verdade me avise.
    desde já grato”

    Descobrir de verdade? Não posso imaginar como descobrir de mentira, se descobrir, logo será de verdade, de outra forma não descobriria nada.

    O que é progresso? Essa questão muito simples e não necessita de muito exercício filosófico. Progresso é evolução, passar para um estado melhor, ou aprimoramento da sociedade. Progresso é um processo de melhoramento constante.

    Progresso é antônimo de retrocesso e, este por sua vez, significa voltar a um estado pior, ou simplesmente piorar.

    De gorjeta ainda lhe digo que progresso é o estado daquilo que não piora e também não fica estagnado. Muito simples, não é mesmo?

    Agora se tu me perguntares: o que é melhor para humanidade? ai fica mais complicado, não sei de todas as coisas que seriam melhores ou piores, mas ai vai alguns palpites:

    Diminuir as taxas de mortalidade infantil em Mali, na áfrica que tem 128 cada 1000 nascimentos.

    Aumentar a expectativa de vida das pessoas de Serra Leoa que atualmente não passa de 42 anos de idade.

    Com certeza seria isso é uma melhora, não é mesmo, logo se diminuirmos as taxas de mortalidade para 5 para cada 1000, e a expectativa de vida para 70anos+, logo teríamos um progresso, não é mesmo caro amigo?

Comentários encerrados.

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