Feliz ‘desaniversário’, artigo de Américo Canhoto

Dr. Américo Canhoto
Dr. Américo Canhoto

[EcoDebate] umano é um ser estranho; ficaram de mal comigo porque eu esqueci o dia do aniversário de uma pessoa querida de uma outra pessoa; que se ofendeu no lugar da outra; que já está numa faixa etária que não curte mais esse tipo de comemoração (até enrola para dizer a idade); ouvi um monte: falta de cortesia; desleixo social – para minha pessoa, meu crime foi apenas falta de memória.

Conversando com meus botões a respeito do ocorrido fiquei matutando a respeito da maioria das nossas comemorações tão inúteis quanto vazias – dentre elas, o dia do aniversário – nem sempre comemorado no dia certo – além disso, muita gente por aí; até desconhece quando e onde nasceu; e, não é muito mais feliz nem muito mais infeliz por esse motivo.


* Para que comemorar o aniversário?
– Talvez seja pela nossa necessidade de sermos amados; lembrados ao menos uma vez durante o ano.
* Ganhar presente?
– Com certeza é o principal motivo.
* Fazer festa, festejar? – Quanto mais gente na nossa festa mais somos queridos? Ou significa mais presentes?
* Para que; se é tão difícil a gente gostar de verdade de um presente?
– É raro as pessoas nos darem algo que realmente nos satisfaça – tem algumas pessoas que dão sempre o mesmo tipo de lembrancinha; todo ano a mesma coisa. No fundo a gente finge que gostou; mas, queríamos mesmo é presente.

Na realidade a festa de aniversário é uma comédia; onde o aniversariante finge que gostou dos presentes e os convidados que estão gostando da festa. Na verdade, na ponta do lápis o aniversariante ou a família que bancou a confraternização saem num baita prejú; mas, festa é festa; e quase todo mundo se diverte; dá para colocar as fofocas em dia; falar e ouvir abobrinhas; e no outro dia; boa parte tá de ressaca; não necessariamente por ter bebido todas; apenas pela saída anormal da rotina; ou ficou doente.

A principal vítima das festinhas de aniversário são as crianças; raras resistem a mais de uma na semana sem ficar doente com febre, rinite, sinusite, diarria, tosse, catarro…; apenas pelo tipo e quantidade de bugigangas que vão comer; em algumas delas, não contentes com o estrago feito com os quitutes e “ deliciosas porcarias” servidas; algumas mães, além de querer se livrar dos restos com aqueles famigerados pratinhos prá levar não sei para quem; ainda fazem aquelas temíveis sacolinhas com tranqueiras para as crianças levarem para suas casas e terminar o serviço começado – a maioria dos pais nem se toca, e daí a um ou dois dias a criança está no médico para finalizar o rescaldo da festança com remédios variados; analgésico sabor morango, antibiótico sabor baunilha, remédio para a tosse com sabor de abacaxi, etc. – Algumas famílias usam isso para começar um saudável conflito: O que fazer? Deixar a criança se empanturrar? Esconder para dar depois; noutro dia; e cair na armadilha do só um pouquinho não faz mal? Jogar fora? Mas, jogar fora não é desperdício? Não é pecado? Afinal tem tanta criança pobre por aí..

Mas, se faz mal para meu filho não faz mal para a criança pobre? Quando as crianças começam em idade escolar o tormento é maior; pois, se bobear tem festa de aniversário toda semana na escola e no fim de semana para os amigos mais chegados – e deus nos acuda se alguma mãe esquece de convidar nosso pimpolho; viramos a cara pela desfeita; e ficamos de mal.

Eu já tinha notado que até os astros não são muito chegados em comemorações de aniversário. Muitos de meus pacientes, mais as crianças do que os adultos; costumam aparecer no consultório; mais ou menos nessa época. Um dia conversando com um paciente amigo e estudioso da astrologia; ele me explicou alguma coisa sobre o “inferno astral”; época que antecede o aniversário e que nos torna mais propensos a acidentes e a adoecer.

Por que as crianças adoecem mais nessa época do que os adultos justifica-se pelo alto grau de ansiedade na expectativa da festa e principalmente dos presentes. Ansiedade mais inferno astral, mais bugigangas da comilança é igual a doença.

Realmente não consigo entender muito bem nossa alegria com o dia do aniversário; pois, desde que nascemos acionamos o botão da contagem regressiva da ida para o além; daí; cada vez que comemoramos um estamos mais próximos do lado de lá.

A comemoração também tem suas fases ou épocas de curtição; bem malucas e diferenciadas.

Nos primeiros anos de vida, é a família que quer apresentar o rebento para os outros. Mostrar suas aquisições. Olha que lindo! – Tem só um ano e já saiu das fraldas! – Conta até dez pro titio! – É verdade que já saber comer sózinho? – Já anda sem se apoiar? Como é o nome da titia?

Na pré e na adolescência o negócio é ser o centro das atenções e correr em destino á maioridade para curtir a liberdade e os prazeres de adulto.

Até começarem os enta; a coisa não é tão ruim – mas, depois começamos a mentir a idade ou a dar respostas de bagre ensaboado – mulheres então, detestam ser obrigadas a dizer a idade.

Nessa fase começa a vontade de “desaniversariar” numa tentativa de parar no tempo; nem que seja embalsamado.

Tudo se inverte na velhice; pois, até que não é ruim aproveitar algumas regalias de idoso: viajar de graça, escapar de filas, etc.

Quando as coisas andam nos conformes; cada ano a mais é para ser comemorado para ir para o livro do guines.

Mas, algumas coisas foram mal planejadas na evolução humana; pois, andamos de marcha ré em algumas aquisições; vejamos algumas situações cômicas do envelhecer: Que gracinha; fez oitenta anos e ainda come sózinha! – Tá usando fralda; mas ainda tá lúcido! – Não fala mais coisas com coisa; mas, o médico disse que está com uma saúde melhor que a minha. – Qual é meu nome? – Que gracinha; ainda me reconhece!

Nada contra festas e comemorações; mas, que seria legal aproveitar melhor o dia do aniversário para fazer uma retrospectiva do que está sendo nossa vida –
Ah! Isso poderíamos! – Para que está servindo? Como anda meu projeto de vida? – Melhorei alguma coisa com relação ao ano passado? – Será que vou sair da existência melhor do que entrei?

Esse uso para o dia do aniversário deveria ser treinado desde a infância; para que as inexoráveis crises da meia idade não fizesse sofrer com ondas de calor, frio, mudanças de humor; menopausas e andropausas, etc.
Se estamos reunidos com nossos melhores amigos; por que não aproveitar esse dia para perguntar como estamos sendo vistos por eles?

Especialmente em épocas aceleradas como esta; aniversariar não é uma boa – Quem já pensou o seguinte: Nossa, estou fazendo aniversário de novo! – Parece que o último foi ontem…

Fico em dúvida com relação ao meu problema: Melhor, fazer cara de paisagem e não falar nada? Dar os parabéns atrasados? Pedir desculpas? Usar de desculpas e justificativas esfarrapadas?
Acho que por enquanto fico com: Dona fulana; desculpe ter esquecido a data do seu desaniversário!

Américo Canhoto: Clínico Geral, médico de famílias há 30 anos. Pesquisador de saúde holística. Uso a Homeopatia e os florais de Bach. Escritor de assuntos temáticos: saúde – educação – espiritualidade. Palestrante e condutor de workshops. Coordenador do grupo ecumênico “Mãos estendidas” de SBC. Projeto voltado para o atendimento de pessoas vítimas do estresse crônico portadoras de ansiedade e medo que conduz a: depressão, angústia crônica e pânico.

Américo Canhoto: Clínico Geral, médico de famílias há 30 anos. Pesquisador de saúde holística. Uso a Homeopatia e os florais de Bach. Escritor de assuntos temáticos: saúde – educação – espiritualidade. Palestrante e condutor de workshops. Coordenador do grupo ecumênico “Mãos estendidas” de SBC. Projeto voltado para o atendimento de pessoas vítimas do estresse crônico portadoras de ansiedade e medo que conduz a: depressão, angústia crônica e pânico.

* Colaboração de Américo Canhoto para o EcoDebate, 03/08/2010

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