6º Encontro Mineiro das Comunidades Eclesiais de Base, artigo de Gilvander Moreira

Olha a glória de Deus brilhando nas CEBs!

[EcoDebate] Em Montes Claros, Norte de Minas, de 22 a 25 de julho de 2010, mais de 1.200 representantes das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – de Minas Gerais participaram do 6o Encontro Mineiro de CEBs. Uma nuvem, a glória do Deus da Vida, acompanhou o Encontro. Foi um momento para revigorar forças e experimentar energia e luz divinas irrompendo de relações humanas. Todos os que estão participando de comunidades de base e engajados em lutas libertárias.

Quero, aqui, fazer referência a doze belezas espirituais e proféticas vivenciadas no Encontro.


1. Preparação-organização. “Reparta seu espírito com setenta companheiros de caminhada…” (Nm 11,17)
Por vários meses, mais de dez equipes trabalharam gratuitamente, em mutirão, para preparar, com muito carinho, o que iria acontecer no 6o Encontro Mineiro das CEBs. Quem se doou ficou agradecido ao ver que as expectativas de participação foram superadas.

2. Solidariedade. “Pegando os cinco pães e dois peixes, … partilhou com todos.” (Jo 6,11)
Quase toda a alimentação foi doada por pequenos agricultores e assentados da reforma agrária. A Cooperativa Grande Sertão, que envolve mais de mil famílias de geraizeiros, doou sucos e doces do cerrado, frutos originários do processo de agroextrativismo.

3. Mutirão. “Envolva muitos outros na administração da justiça; não deixe o poder concentrado em você.”(Ex 18,21)
Em mutirão, seguindo o método Ver, Julgar, Agir e Celebrar, cada um/a com uma tarefa, centenas de pessoas se doaram pelo bom êxito do Encontro. Estavam organizadas em 17 equipes de serviços: hospedagem, comunicação, recepção, animação, ornamentação, cozinha, compras, liturgia, transporte, ofícios, saúde, acolhida, infraestrutura, bem-estar, assessoria, monitoria e coordenação geral.

4. Acolhida e hospitalidade. “Ao entrar numa casa, digam “a paz esteja com vocês.” (Lc 10,5)
As mais de 1.200 pessoas participantes do Encontro foram acolhidas e hospedadas em centenas de casas de famílias cristãs. A convivência dos participantes com as famílias deixou marcas indeléveis. Laços de amizade foram efetivados e experiências partilhadas.

5. Conhecimento que liberta. “Se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo.” (Lc 13,3)
O tema do 6o Encontro Mineiro das CEBs – Economia e Missão – e o lema – Construindo uma igreja solidária – foram aprofundados nas calorosas celebrações litúrgicas, nos cinco eixos do Encontro – o econômico, o social, o político, o eclesial e o ecológico – e nos 25 subtemas refletidos. Numa conjugação de saberes científicos e da sabedoria popular, no dia 23, vimos a dureza da realidade que nos envolve.

Vimos que o modelo econômico capitalista neoliberal, em 2009, transferiu para 12,6 milhões de famílias pobres, através do Bolsa Família, 13,1 bilhões de reais, enquanto se transferiu como renda para os mais ricos, na forma de juros pelos títulos públicos, 380 bilhões de reais. Ou seja, 30 vezes mais dinheiro público está indo para uma “meia dúzia” de famílias, enquanto apenas 12,6 milhões são destinados com muito estardalhaço para as famílias empobrecidas de todas as regiões do pais.

Vimos que o modelo político de democracia formal e representativa está numa tremenda crise, onde, de fato, o poder não está com a classe política, mas nas garras dos detentores do poder econômico. Tem razão José Saramago, quando dizia que estamos numa ditadura econômica. Logo, devemos dedicar só 10% de nossas energias em eleições para elegermos candidatos que de fato tenham vocação política. Temos de dedicar 90% das nossas energias na Política com P maiúsculo, que é a política do reino de Deus, a que acredita na organização dos pobres, na luta dos movimentos populares e na qual os pobres são sujeitos de suas lutas libertárias.

Vimos que um modelo de desenvolvimento para uma minoria está causando a maior devastação ambiental da história. A mãe terra, a irmã água e toda a biodiversidade estão clamando por vida, pois estão sendo crucificadas.

Vimos que a Igreja instituição está excluindo as mulheres e está distante dos presos, dos marginalizados e dos excluídos.

Vimos que o tecido social está se esgarçando. Droga, violência, individualismo, consumismo e corrupção estão se disseminando. Quem consome, consome, acaba se consumindo.

6. Compaixão e indignação. “Jesus, no templo, começou a expulsar os mercadores.” (Lc 19,45)
Vimos que clamores e gritos dos pobres e da natureza agredida estão sendo ouvidos pelas Comunidades Eclesiais de Base! Vimos a indignação de centenas de militantes cristãos frente aos grandes projetos do agronegócio! Como Jesus possuído por uma ira santa, muitos estão chicoteando templos sagrados que estão sendo profanados por mineração depredadora, pelas monoculturas do eucalipto, da cana, da soja e do café; pela transposição do rio São Francisco etc.

7. Apoio às lutas dos movimentos populares. “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça…” (Mt 5,10)
Foi um alento ver ressoar no ginásio do SESC, de Montes Claros, os gritos e as reivindicações das Comunidades-ocupações Dandara1, Camilo Torres e Irmã Dorothy, de Belo Horizonte, MG, onde 1.159 famílias sem-terra e sem-teto, na fé, na luta organizada, já construíram mais de 800 casas populares. Embora ameaçadas de despejo, não arredam o pé da luta e seguem firmes na certeza de que estão dando função social para propriedades que estavam abandonadas. Uma carta-moção de apoio às comunidades ameaçadas de despejo foi enviada ao prefeito da capital mineira e ao governador e também divulgada à sociedade.

O grito justo da Escola Família agrícola EFA Bontempo, de Itaobim, no Vale do Jequitinhonha, também foi ouvido. Uma moção de apoio foi divulgada hipotecando irrestrito apoio à continuidade da EFA Bontempo para que ela possa continuar onde está. As 1.200 pessoas do 6o Encontro Mineiro das CEBs repudiam a ameaça de despejo da EFA Bontempo. A Fundação de Desenvolvimento Brasileiro – FDB – e o padre Felice Bontempi foram veementemente criticados por esta investida contra a EFA Bontempo.

8. Cultivo da memória dos Intereclesiais. “Não esqueçam dos pobres.” (Gal 2,10)
Fizemos a memória do 11º Intereclesial das CEBs, em Ipatinga, MG, em julho de 2005, e do 12º, em Porto Velho, RO, em julho de 2009. Reavivamos a caminhada das CEBs em sintonia com o Documento da 5a Conferência dos bispos da América Latina e do Caribe, em Aparecida, que reconheceu que as CEBs são um jeito correto da igreja ser e agir.

9. Entusiasmo. “Movidos pelo Espírito …” (Lc 4,18)
O brilho nos olhos das pessoas participantes do 6o Encontro Mineiro das CEBs foi uma constante do início ao fim do Encontro. Alegria irradiava de todos. A animação irrompia naturalmente. As músicas, com letras proféticas e libertadoras, contagiavam todos/as. “Nunca mais deixarei de participar das CEBs. Sinto não ter descoberto as CEBs antes. Que beleza! Aqui sentimos a glória de Deus brilhando”, diziam muitos que estavam participando pela primeira vez.

10. Ação pública. “A fé sem obras é morta.” (Tg 2,17)
Numa caminhada profética com a juventude, percorremos ruas e avenidas da cidade de Montes Claros, denunciando o extermínio de nossos jovens e vislumbrando um horizonte novo nos gerais de nossas CEBs. “Nossa juventude quer viver, quer ter futuro. Não podemos nos calar, enquanto milhares de jovens estão sendo assassinados, presos e jogados nas garras do narcotráfico”, gritamos todos. Uma pequena cruz iluminada na torre da catedral e, ao fundo, a lua brilhante no céu estrelada apontava que a nossa missão é ser luz no meio de tantas trevas.

11. Confraternização e festa. “Alegrai-vos comigo, pois encontrei a moeda que estava perdida.” (Lc 15,9)
Na sexta-feira, à noite, aconteceu confraternização nas comunidades e famílias que ofereceram hospedagem aos 1.200 participantes. No sábado, à noite, em um campo gramado, sob uma lua inspiradora, envolvidos por uma brisa leve e fresca, participamos de uma inesquecível noite cultural. Poemas, diversas apresentações culturais da região e, no final, um envolvente forró, sob animação do grupo Doutores do forró.

12. Compromissos assumidos. “Eu e minha comunidade seguiremos a Javé.” (Js 24,15)
Após ver e julgar, iluminados pela Palavra da Bíblia e da vida, assumimos como compromisso as seguintes ações transformadoras: a) Intensificar a participação no Plebiscito pelo limite da propriedade da terra; b) Fortalecer os Comitês 9840 e o combate à corrupção eleitoral e social; c) Promover o Grito dos Excluídos; d) Incentivar as Escolas de Formação de Fé e Política; e) Fortalecer as iniciativas de Economia Popular Solidária; f) Combater o uso de agrotóxicos; g) Realizar a campanha pela soberania e segurança alimentar e nutricional sustentável; h) Continuar a luta em defesa da revitalização da bacia sanfranciscana e insistir na interrupção da transposição do rio São Francisco; i) Continuar lutando pela construção de uma igreja solidária e inclusiva, onde as mulheres sejam respeitadas.

Enfim, animados pela fé e bem certos da vitória, vamos fincar nosso pé e fazer a nossa história. Com a graça de Deus, voltamos para nossas comunidades que não abrem mão da opção pelos pobres, nem do ecumenismo e nem da profecia. Revigorados espiritualmente, esperamos realizar o 7o Encontro mineiro das CEBs, provavelmente, em julho de 2012, antes do 13o Intereclesial das CEBs, que acontecerá na Diocese de Crato, no Ceará, de 22 a 27 de julho de 2013, com o tema “Justiça e Profecia a serviço da vida”; e o lema: “CEBs, Romeiras do Reino no campo e na cidade”.

Obs.: Para mais conteúdo sobre CEBs, consulte www.cebsuai.org

Belo Horizonte, 30 de julho de 2010

Gilvander Moreira, frei carmelita, Mestre em Exegese bíblica, assessor da CPT, CEBs, CEBI, SAB e Via Campesina; professor de teologia bíblica, e-mail: gilvander{at}igrejadocarmo.com.br – www.gilvander.org.br

EcoDebate, 03/08/2010

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