Pensamento de esquerda introduziu problemática ambiental

O papel dos diversos movimentos da contracultura é fundamental e fundador do ambientalismo, na medida em que permitiu formular uma crítica, abrangente e pioneira, da sociedade e da cultura ocidentais”, afirma Gustavo Costa Lima, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em Sociologia Ambiental e professor da Universidade Federal da Paraíba. Somente a partir da segunda Guerra Mundial é que se estabelece a questão ambiental contemporânea, tendo uma contribuição bastante significativa dos inúmeros grupos que compunham o movimento da contracultura.

Para o pesquisador, autor do artigo “Educação ambiental crítica: do socioambientalismo às sociedades sustentaveis” – publicado no volume 35 da revista Educação e Pesquisa -, uma das contribuições desses grupos está justamente na crítica ao sistema capitalista e ao consumismo exacerbado que o cerca, trazendo uma visão alternativa sobre os mais variados temas sociais. “Assim, todos esses movimentos anti-nucleares, pacifistas, de direitos civis, de mulheres, dos hippies e de defesa da natureza, trouxeram ao debate um novo olhar alternativo, que apontava para o esgotamento dos valores culturais ocidentais e criticava a guerra, o consumismo, a busca ilimitada e insana de lucro e crescimento econômico; o autoritarismo de todos os matizes, a repressão sexual, a razão científica instrumental e a própria ideia iluminista de progresso”. Reportagem de Carolina Octaviano, da ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico (LABJOR/SBPC).


A inquietude e a preocupação com o meio ambiente são características do mundo contemporâneo. Entretanto, pensadores como Karl Marx já mencionavam a poluição industrial como um fator negativo – embora não criticasse a questão diretamente e esta não fosse tratada como um problema social. “Antes dessa articulação dentro do pensamento crítico de esquerda, seja de origem socialista ou anarquista, a análise dos problemas ambientais tinha uma ênfase biologizante, naturalista, que deixava de lado os condicionamentos políticos e sociais da crise ambiental”, explica.

Atualmente, é comum associar inúmeros políticos membros de partidos da chamada esquerda liberal como militantes das causas ambientais. “Tradicional e historicamente, os políticos e pensadores de esquerda são definidos pelo maior compromisso com as questões públicas e com os valores da igualdade, solidariedade e justiça social, embora no cenário político contemporâneo essas fronteiras ideológicas já apareçam mais borradas e indistintas”. O pesquisador complementa apontando que a população deve se manter atenta para não ser vítima de políticos que tratam as questões ambientais com oportunismo. Ainda de acordo com Lima, é possível enxergar um esforço da direita conservadora em trazer a questão ao seu favor, utilizando estratégias como os mercados e consumo verdes, a gestão ambiental empresarial, a modernização ecológica, a responsabilidade ambiental, entre outras. “Desde que a questão ambiental conquistou reconhecimento público e legitimidade, as forças de direita se esforçam por capturá-la e colocá-la a seu favor, a favor de seus interesses que são os interesses do capitalismo de mercado”.

A introdução do pensamento ambientalista no Brasil

Historicamente, Lima cita que José Bonifácio, ao testemunhar e reagir ao modo predatório como o Brasil se desenvolvia desde que era colônia, destruindo matas, explorando os recursos naturais até a escassez, implantando monoculturas escravistas etc, ajudou a moldar pensamento ambiental. Mais recentemente, as questões e a preocupação com o meio ambiente no país foram consolidadas por diversos fatores externos e internos. Internacionalmente, vieram os resultados e pressões das conferências da Organização das Nações Unidas (ONU) e de outros organismos estrangeiros, junto com a influência cultural e ideológica advindas da contracultura. Exemplificando, Lima afirma que “a pressão dos organismos internacionais forçou o governo brasileiro a constituir um sistema de agências ambientais começando com a Sema (Secretaria Especial de Meio Ambiente), no início da década de 70, as agências estaduais como a Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), no Rio de Janeiro e a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), entre tantas outras iniciativas que compõem o ambientalismo governamental”.

EcoDebate, 24/06/2010

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6 comentários em “Pensamento de esquerda introduziu problemática ambiental

  1. Costa Lima esquece o papel fundamental e contribuição da academia no surgimento do movimento ambientalista.Biólogos (Botânicos e zoólogos principalmente)foram os primeiros a alertar para os problemas ecológicos. Papel importante no Brasil para a conscientização geral tiveram instituições como o IBDF – Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, que através da luta de servidores do Departamento de Parques Nacionais e Reservas Equivalentes, onde se situavam os trabalhos de proteção dos ecossistemas naturais e das espécies da flora e da fauna, que criaram programas importantes que contribuíram para a sociedade brasileiraa tomar consciência dos problemas ambientais.

    Uma grande quantidade das ONGs ambientalistas, ecologistas etc nasceram no Brasil por influência dos trabalhos desenvolvidos por técnicos do IBDF.

    Depois veio também a SEMA que teve um papel fundamental na formulação de normas de controle ambiental, donde surgiu o CONAMA, que hoje tem papel fundamental.

    Quero destacar o papel atual da ANVISA, que busca aprimorar seus trabalhos fiscalizando e alertando a sociedade para o uso abusivo de agrotóxicos nos alimentos.

    Enfim, destaco que o papel do estado, através de suas instituições também tem exercido, apesar das dificuldades, mas por total esforço de servidores dedicados, um papel fundamental no aprimoramento da sociedade brasileira no que diz respeito ao ambientalismo

  2. Paulo Ramos parece que viveu mais tempo no Brasil, e de olhos abertos para os fatos, do que o doutor que faz questão de incluir até Marx no ambientalismo (haja ginástica mental, pois mesmo tendo lido as 1.800 páginas de O Capital I e II, não encontrei motivos para chamá-lo de ambientalista). Talvez esse tipo de publicação atraia a simpatia dos detentores do poder e facilite a obtenção de novos e mais rentáveis cargos públicos…

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