Um caso (hipotético) de reestruturação familiar, artigo de Américo Canhoto

Amério Canhoto
Dr. Amério Canhoto

[Ecodebate] Numa hipotética família, além dos problemas naturais advindos das relações familiares, sociais e outros; há uma criança que perturba todo e qualquer ambiente onde se encontre.

Não fica quieta, mexe em tudo. Já foi rotulada pelas pessoas que convivem com ela de: “mal educada”, “capetinha”, “endiabrada” “problemática”, etc.

Seus pais já perderam noites de sono, discutiram, brigaram, muitas vezes, devido a essa sua forma de comportamento; e até tentam inconscientemente um colocar a culpa no outro. O risco de desmanche da família já é considerável.

Uma coisa é certa ela foi diagnosticada por todos que a conhecem como uma criança/problema.


Devido às circunstâncias, já houve um posicionamento inicial quanto à necessidade de se mudar a situação. Mas, em virtude de gerenciarem sua vida pessoal e familiar de forma informal; apenas lentamente e, de forma sofrida, os pais vão descobrindo que lhes faltam paradigmas; pois, ainda não se busca soluções, busca-se culpados.

Pressupõe-se que algo ou alguém tem culpa.

Para uns a culpa é de Deus que os quer provar; para outros, é questão de sorte/azar/destino. Alguém diz que o problema é genético; já um outro acha que o problema foi a gravidez tumultuada; o que, às vezes, torna-se um sério problema; se a mãe tem a tendência de interpretar o papel de vítima e, resolve assumir indevida culpa, por vários motivos; ou porque não foi uma gravidez desejada.

Espremidos pela situação uns tentam impor aos outros seus próprios pré – conceitos e paradigmas; que mal definidos e inadequados, tornam-se logo um paradoxo; pois, até mesmo os pais, não sabem muito bem, se estão em busca de ajuda para a criança; ou para seu próprio conforto.

Não havendo mais como tapar o sol com a peneira nem negar: Descobrem que estão perdidos; e que isso aumenta a ansiedade de todos e da criança; agravando seu comportamento num círculo vicioso.

Na família cujos membros vivem na informalidade de organização; as metas de como, porque, e quem mudar; ainda não estão muito claras.

Passada a fase da busca de culpados; certamente vão em busca do recurso mágico: a droga milagrosa que possa ser receitada pelo médico. O primeiro a ser consultado é o Pediatra que já havia rotulado a criança quando bebê de “hiperativa”; às vezes alguns anos se passam, até que o problema seja repassado ao Neurologista; que pode tentar “engessar a hiperatividade” da criança com remédios e ou encaminhá-la ao Psicólogo.

Mesmo que na maioria das vezes busca-se ajuda apenas quando as coisas se complicam na escola; quase sempre da quinta série em diante; o grupo familiar espera um resultado rápido e cômodo; o que não ocorre; daí, se acentuam os conflitos dentro do lar sempre que ocorra qualquer situação com grupos externos de convivência da criança; como na escola, vizinhos, parentes.

É freqüente que ouçamos marido e mulher discutindo problemas desse tipo – e quando falam de um filho nessa situação, dizem: “o seu filho” isso, o seu filho aquilo”; nessas horas, o filho é seu; não meu nem nosso.

As acusações camufladas ou explícitas, as exigências descabidas entre os familiares quanto a de quem é a culpa; e porque os tratamentos não funcionam, segundo as expectativas, tornam aquela família cada vez mais desajustada; o desequilíbrio com certeza vai atuar sobre a criança; pondo mais lenha na fogueira.

Recusam-se a perceber que as relações em família também é um problema a ser resolvido; para que a criança possa ser ajudada a superar essa dificuldade.

A cada nova situação que gere uma crise; pode haver ou não um reposicionamento do grupo familiar quanto ao problema.

A proposta de resolução mais comum que se observa no dia a dia, é a transferência da solução para o futuro.

Lógico que um dia melhora; pois a necessidade de ser aceita, leva a criança, quando possível, a bloquear essa tendência de comportamento; ou desviá-la para outros distúrbios que não afetem as outras pessoas de forma tão visível – gerando TOCS e tiques.

É o tipo de problema, dizem alguns sábios de plantão, que se resolve com o tempo. Apenas não garantem a resposta às perguntas: Resolve para quem? Para os pais? A criança? Resolve ou camufla?

Imaginemos que alguém dessa hipotética família tenha percebido que o problema pode ser resolvido; já que problemas existem para isso.

A descoberta inicial é simples: buscar culpados não adianta; é infernizar-se e, não conduz a nada positivo.

É preciso apenas buscar soluções.

Outra descoberta simples: ninguém resolve problema nenhum sem estudá-lo.

A partir desse momento e, muitas vezes, sem que o saiba essa pessoa tornou-se o gerente de mudanças; na situação da criança e da família.

Mesmo nessa nova condição de encaminhamento, ainda vai haver muito desperdício de: tempo, recursos, paz e harmonia. Mas, se essa pessoa que vai gerenciar o processo tiver conhecimento dos conceitos de reengenharia, tudo pode ficar mais simples e fácil; não de forma mágica, mas com inteligência, método, estudo e trabalho. Além disso, pode ser o grande beneficiário do processo; pois, alcançará com o treinamento do método, uma condição de melhor qualidade pessoal.

Resumindo a operação de reengenharia da família hipotética:

– Identificar possíveis projetos.
No caso presente, será beneficiar o desenvolvimento da criança hiperativa; que seria o “produto” lançado no “mercado da vida”; melhora do conjunto das relações familiares; e também um considerável ganho de qualidade pessoal em cada um dos componentes da família.

– Analisar o impacto inicial.
É preciso que o gerente do processo estude cada item do projeto de mudanças a ser desenvolvido.

A seguir que ele comece a viver segundo os princípios que vai repassar aos outros; depois, tente identificar possíveis focos de resistência e de sabotagem ás novas posturas.

No caso, um começo seria o de demonstrar aos outros, que não interessa buscar culpados, mas sim soluções.

– Selecionar os esforços e definir sua abrangência.
Deve-se eleger prioridades e executar as metas da forma mais simples e eficaz, sem desperdício de tempo e energia; do tipo, tentar convencer as pessoas a atuar segundo os novos princípios; sem que elas estejam já dispostas a engajar-se no sistema.

É preciso separar o que é importante do que não é no momento.

Exemplo, nem tudo no comportamento da criança é da hiperatividade; alguma coisa deve ser proveniente de falhas educacionais, que devem ser identificadas e analisadas; coisas simples como: exemplo oferecido pelos adultos, humildade no trato com a criança. Provavelmente, pode-se conseguir mais apoio na fase inicial do processo na escola; do que entre os familiares; pois entraves como: ciúmes e rivalidade entre irmãos, é algo comum.

O investimento principal nessa fase deve ser no que dê retorno mais rápido e seguro.

– Analisar as dificuldades de organização e de informação.
A metodologia de como estruturar e organizar o projeto de recuperação do comportamento da criança; deve ser cuidadosamente escolhido. Bem como a forma de se repassar as informações para quem convive com ela; os outros familiares e para a escola.

– Definir alternativas de atuação.
Se a alternativa implantada não estiver resultando no previsto, é preciso reposicionar e implantar a alternativa seguinte.
E reformular as metas para as próximas fases.

– Determinar a relação inicial custo/benefício de cada alternativa a ser implantada.
Durante o gerenciamento do projeto a relação custo/ benefício deve continuar a ser analisada para rápidas correções. Exemplo, vamos supor que a criança está sendo medicada com um remédio caro e que apresente efeitos colaterais importantes; pode ser tentada a substituição por um alternativo; que terá um custo financeiro menor, e sem efeitos colaterais; nesse caso, pode haver considerável melhora na relação custo/benefício quanto ao recurso em uso.

Escolher a alternativa mais adequada.
Deve-se levar em conta o estudo do que se quer mudar; as características; e o potencial de mudança de cada um dos envolvidos. A fase seguinte é analisar a relação custo/benefício de cada um dos recursos que podem ser usados.

Um ponto importante é procurar investir no desenvolvimento dos recursos próprios tanto da criança, quanto da família, minimizando o uso de recursos externos.

– Implementar a alternativa escolhida.
Definido, o que e como se quer mudar; quais os recursos com que se pode contar; qual o tempo que se pode dispor.

A fase seguinte é implementar; colocar em prática o projeto de mudanças, gradualmente segundo a capacidade de mudança do grupo.

Exemplo, o gerente das mudanças já percebeu, porque estudou o problema que, não adianta recriminar a criança, nem colocá-la de castigo; e muito menos bater nela; a maneira mais fácil e simples de ajudá-la a comportar-se melhor, é manter sua atenção fixa a algo que a interesse – É questão de tempo até que os outros membros da família comecem a copiar; pois, perceberam que funciona melhor; abrindo caminho para que o agente das mudanças possa engajá-los passo a passo no projeto.

– Analisar o posicionamento atual.
Periodicamente é preciso avaliar o previsto e o que foi atingido das metas. Qual foi o lucro?

– Verificar quem está envolvido.
É preciso catalogar cada pessoa do convívio que tenha algum tipo de influência sobre a criança: amigos, parentes, familiares, professores, médicos, psicólogos; todos podem ser parte atuante do projeto desde que solicitados e aceitem.

Evidente que tudo isso, será apenas um paliativo; se o verdadeiro interessado que é a própria criança; não consiga ser engajada; pois, dela e somente dela depende o resultado final esperado: a resolução definitiva do problema através do auto/conhecimento e da auto/educação, da sua própria reforma ou restruturação íntima.

Essa deve ser a principal meta do projeto.

Neste nosso bate papo; não tivemos a intenção de resolver esse tipo de problema cada vez mais comum. Apenas alertar as pessoas para a necessidade de planejamento íntimo, familiar e de relações. A maior parte das vezes, apenas empurramos os problemas e dificuldades para o futuro, complicando a resolução; e reduzindo nossas chances de viver uma vida de relativa paz e felicidade.

Quem conhece uma família que pratique reengenharia?
Quando trouxermos para nossa vida íntima e familiar conceitos básicos do tipo: planejamento, metas, estudos de recursos, reposicionamento – deixaremos de reclamar das instituições que não funcionam; do desperdício de recursos – e ficará patente a razão de sermos o eterno país do futuro, cada vez mais degradado.

Parece incrível; mas, uma pessoa/problema numa família pode tornar-se a solução de melhora da qualidade humana das pessoas do grupo.
Coisas de ser humano…

Américo Canhoto: Clínico Geral, médico de famílias há 30 anos. Pesquisador de saúde holística. Uso a Homeopatia e os florais de Bach. Escritor de assuntos temáticos: saúde – educação – espiritualidade. Palestrante e condutor de workshops. Coordenador do grupo ecumênico “Mãos estendidas” de SBC. Projeto voltado para o atendimento de pessoas vítimas do estresse crônico portadoras de ansiedade e medo que conduz a: depressão, angústia crônica e pânico.

* Colaboração de Américo Canhoto para o EcoDebate, 28/05/2010

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