O declínio do indivíduo, artigo de Stefano Petrucciani

"Mais do que fim do indivíduo, se deveria falar de uma individualização fictícia e coagida, que deixa efetivamente pouco espaço para aquela que, um pouco romanticamente, os clássicos da teoria crítica definiam como a verdadeira espontaneidade individual."

Essa é a opinião de Stefano Petrucciani, professor extraordinário de Filosofia Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de Roma La Sapienza e diretor do Departamento de Estudos Filosóficos e Epistemológicos da mesma instituição. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 06-05-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Lendo os textos de Theodor Adorno sobre “La crisi dell’individuo” [A crise do indivíduo], tão zelosamente editados por Italo Testa para a editora Diabasis (159 páginas), é de se colocar uma pergunta: que sentido tem hoje uma perspectiva como a adorniana, totalmente centrada na questão da decadência do indivíduo, diante de teorias que, ao contrário, interpretam a modernidade como um grande processo de individualização? Quem tem razão, os teóricos do fim do indivíduo ou os da individualização crescente?

Comecemos, para tentar responder, das coordenadas do interior das quais se coloca, para a teoria crítica, a questão do indivíduo. Com Hegel e Marx, a teoria crítica afirma que aquilo que definimos como “indivíduo” é uma modalidade do ser humano historicamente determinada, que nunca teria se produzido sem o desenvolvimento daquilo que chamamos de “sociedade” (em antítese com a “comunidade”), isto é, a sociedade burguesa.

O indivíduo é gerado por uma sociedade dinâmica e mediada pelas trocas, é o fruto de um alargamento de velhas ordens às quais se substituem laços mais móveis e abertas a um maior número de opções. O indivíduo, cujo protótipo para Adorno é o Ulisses homérico, é portanto, em certo sentido, o burguês, aquele que habita uma sociedade de mercado, buscando “os seus interesses de ganho impiedosamente e sem se preocupar com o bem da coletividade”.

Mas, como ator racional e autônomo, o indivíduo não é, obviamente, só um sujeito econômico, mesmo que seja em boa medida modelado sobre este. É mais em geral aquele que persegue autonomamente os seus próprios objetivos, que se dá racionalmente planos de vida, que reivindica também o seu direito à felicidade, à autorrealização, à autenticidade.

Aqui surge o problema de Adorno: o que será dessa figura do indivíduo (aquela que, por exemplo, o grande romance burguês nos transmitiu) quando a sociedade se transforma em sociedade de massa, da economia organizada, do consumo e da publicidade, da indústria cultural e da manipulação das consciências?

Entre subserviência e libertação

A tese adorniana é que esses desenvolvimentos acabam apagando aquelas condições (primeira de todas a economia de mercado liberal e concorrencial) sobre as quais se baseava a autonomia individual e acabam gerando a completa heteronomia de uma sociedade pós-individualista: “Se, na época liberal, a individualização de uma parte da população era necessária à adaptação da sociedade em seu conjunto ao estágio alcançado pela técnica, hoje o funcionamento do aparato econômico exige uma direção das massas que não seja mais perturbada pela individualização”. O indivíduo sucumbe ao capitalismo organizado, ao domínio dos monopólios, à manipulação invasiva e interiorizada, ao fim dos modelos familiares substituídos pelo coletivo ou pelo fetichismo das celebridades.

Justamente por emigrar da realidade de efeito, onde não encontra mais espaço, a figura do indivíduo pode assumir em Adorno características próprias e utópicas: se o mal é o coletivo, o indivíduo se torna sede do potencial de resistência. Não se pode fazer nada de bom senão passando pela rejeição individual da homologação forçada. Não só isso, mas a individualidade se torna também o lugar da utopia, enquanto não há modo melhor de pensar a sociedade emancipada senão como aquela em que o indivíduo pode se desenvolver nos modos da espontaneidade, da fidelidade à sua própria natureza e determinação.

Mas se as sugestões utópicas são sempre fascinantes, o diagnóstico das patologias sociais deve ser talvez redesenhado. Dúbia, me parece, em primeiro lugar, a atribuição de autonomia e individualidade que é reservada à camada burguesa e empresarial (à qual pertenciam os pais de Horkheimer e de Adorno) na idade liberal.

Marxianamente, se poderia dizer que, na realidade, o empresário capitalista nada mais é do que a encarnação (máscara de caráter) da lei do lucro, que o governo do mesmo modo em que as normas do conformismo social regem a família burguesa baseada no matrimônio, no adultério e na herança. Se, na teoria crítica, há saudade da figura “liberal” do indivíduo, trata-se portanto de nostalgia mal recolocada. Não se sustenta (até por estar viciada por um oculto elitismo) a tese de um plano inclinado, em que o “eu” totalmente arredondado do burguês se enfraquece até se perder completamente nos consumidores passivos da indústria cultural.

Uma análise do destino do indivíduo na contemporaneidade deveria, portanto, ser mais articulada: a extraordinária potência dos novos conformismos, de fato, se une a tendências que vão fortemente na direção oposta. Se é verdade, como defendem Marx e Adorno, que quanto mais há sociedade mais há indivíduo, então a sociedade global, com a multiplicação das relações possíveis, gera dois efeitos: negativamente, a possibilidade de se subtrair ao conformismo dos controles sociais comunitários (que, a partir do anonimato da metrópole, tornam-se sempre mais frágeis). Positivamente, a possibilidade de ativar um maior número de combinações e, assim, um crescimento, pelo menos quantitativo, das opções possíveis.

A saída do conformismo

Dois elementos da reflexão adorniana me parecem, porém, subtrair-se amplamente dos riscos da abordagem nostálgica. Um é a tese original sobre o “aumento da composição orgânica” do homem, que Adorno desenvolve nos “Minima moralia”: “o lado no qual os sujeitos são determinados em si mesmos como instrumentos de produção e não como fins vivos cresce como a parte das máquinas com relação ao capital variável”. Enfim, aumenta-se constantemente a finalização produtiva da existência individual, até o limite da indistinção de trabalho e vida no pós-fordismo.

O outro aspecto decisivo é o da pseudo-individualização: quanto mais os indivíduos seguem estímulos heterônomos, muito mais o seu comportamento deve parecer como uma escolha pessoal, individualizada, capaz de atestar a originalidade do seu projeto de vida. Mais do que fim do indivíduo, enfim, se deveria falar de uma individualização fictícia e coagida, que deixa efetivamente pouco espaço para aquela que, um pouco romanticamente, os clássicos da teoria crítica definiam como a verdadeira espontaneidade individual.

(Ecodebate, 25/05/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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