Crise Ambiental: Ação e Reação, artigo de Maurício Gomide Martins

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Foto: AP

[EcoDebate] Esse é o ponto mais importante no momento para um perfeito entendimento do grave problema do meio ambiente. Referimo-nos ao interregno entre a ação e a reação. É lei básica, natural, de que à ação corresponde uma reação de força igual e em sentido contrário. Essa reação natural sempre se manifesta, mas o espaço de tempo entre a causa e o efeito varia muito segundo as circunstâncias. O não entendimento dessa correlação leva-nos a ignorar o maior perigo que já surgiu para a biodiversidade do planeta: o desequilíbrio definitivo das condições ambientais – situação sem retorno – cuja estabilidade e permanência são fundamentais para o ato de viver.

O que leva muitas pessoas a não enxergar essa hecatombe é justamente o grande tempo requerido entre a ação de envenenamento e degradação que a atividade econômica vem realizando, e os malefícios conseqüentes visíveis e sensíveis que virão com violência inaudita. Deve-se levar em conta que aquelas ações danosas vêm sendo praticadas lenta, cumulativa e exponencialmente a começar da revolução industrial do século XVIII, e acentuação a partir da década de 1980, de uma forma incontrolável, fanática e delirante.

Outro pormenor a ser observado é o de que o padrão de tempo na medida humana é muito pequeno, enquanto a Natureza faz suas contas em escala astronômica, isto é, as conseqüências virão muito tempo depois de praticada a degradação. Um ferimento no braço é feito em um segundo, mas o restabelecimento do tecido ofendido se dá lentamente, imperceptível e requer diversos dias. A Natureza demora, mas não esquece. Executar a ação é esperar a reação. O chamado “progresso” não será praticado impunemente. O “desprogresso” virá inexoravelmente. É lei natural.

Outro aspecto importante dessa visão é o de que o ecossistema se restabelece das feridas até certo limite, até onde lhe é possível. E essa marca já foi ultrapassada em 25% ou mais, por conseqüência das atividades gananciosas das corporações que conduzem a atual civilização e cujos objetivos são ilimitados. Esse índice indica que já estamos num estado de pressão; daí em diante, a pressão vai subir.

Quando um meteorologista anuncia que vai chover nos próximos dois dias, ele não está adivinhando, está interpretando os sinais da Natureza. No caso ambiental, ela já está dando sinais de desequilíbrio climático, mostrando o degelo dos pólos e pontos elevados, da subida de nível das águas oceânicas, secas intensas, partículas em suspensão no ar. São apenas os primeiros atos de reação. O prólogo da grande tragédia. Ainda há tempo para que haja uma reversão das conseqüências mais graves, mas isso impõe situações dolorosas, como a renúncia aos confortos materiais. Se não houver esse sacrifício hoje, amanhã o caos será a paga.

Como já expusemos aqui, o primeiro ato para evitar ou suavizar esse destrutivo rumo civilizacional será a formação de um governo global que deverá implantar a administração ambiental. Isso porque tal problema não é de países – que a rigor não existem – mas é do mundo. Viu-se recentemente em Copenhague a cabal demonstração dessa necessidade. E urgência é o principal fator dessa equação.

O desconhecimento desse espaço temporal entre a ação e reação constitui a grande ilusão da humanidade, agora se ocupando de assuntos secundários e diminutos como guerras, festas, confortos, lucros, consumo, ganâncias cegas. Essa ilusão nos induz a confiar em que a Natureza aceita tudo e que está tudo muito bem. Essa ilusão será fatal.

A acomodação dos aparentes governantes (pois não passam de representantes do sistema econômico) levará o nosso meio ambiente para uma situação irreversível, isto é, para a impossibilidade de vivência de quase toda a biodiversidade. Em que se constitui nosso meio ambiente? É um tênue espaço de 4.000 metros em torno do planeta, onde ainda existem ar, água e terra produtiva.

Estamos no ano de 2010, início de uma década que deveria ser de atividades radicais para preservação de nossas condições básicas de existência. Será uma década histórica, uma encruzilhada vital. A primeira oportunidade foi perdida na COP 15, por completa irresponsabilidade dos “donos do poder”.

Atualmente, o nosso único lar, a Terra, está com um processo insidioso de doença, cujos sintomas mais graves ainda não surgiram, mas já deram os primeiros sinais. Está ela contaminada com infecções civilizatórias, cujas ações produzem diversos tipos de bactérias mortais, entre elas umas pequenas sementes inocentes.

Hoje, estamos plantando sementes de fel. A desídia da humanidade levará a fazê-las nascer, crescer e se impor com o amargor que lhe é próprio. Elas só precisam de uma coisa: tempo. E isso nós lhes estamos concedendo.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

EcoDebate, 18/05/2010

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