‘Ainda é fácil garantir lucros sendo ambientalmente irresponsável’, diz especialista em finanças sustentáveis

lucro a todo custo
Imagem: Corbis/Charles Waller

Expert em finanças sustentáveis comenta relatório Close the Gap, que avalia as políticas de crédito de 49 bancos em 17 países.

De forma geral os grandes bancos brasileiros não têm políticas voltadas para floresta. Ou, se têm, não fazem questão de divulgá-las. Esta é uma das conclusões do recém-lançado relatório Close the Gap, que estuda a qualidade políticas de crédito e de investimento desenvolvidas por 49 bancos de 17 países.

Foram incluídas no estudo políticas bancárias para segmentos como agricultura, pesca, atividade florestal, mineração, petróleo e gás e geração de energia. Além de avaliar as instituições financeiras, o documento, publicado pela rede internacional Bank Track, que monitora as ações dos bancos voltadas à sustentabilidade, indica lacunas que devem ser preenchidas pelo setor bancário para que o segmento se torne mais responsável social e ambientalmente.

No mundo todo, somente um banco ganhou conceito máximo no setor florestal. Banco do Brasil, Bradesco e Itaú/Unibanco, os bancos brasileiros avaliados, levaram zero. Leia entrevista exclusiva com o Coordenador do Programa Eco-finanças da Amigos da Terra Amazônia Brasileira, Roland Widmer.Entrevista realizada por Karina Ninni – estadao.com.br.

O Estado – Qual é a importância mundial da avaliação realizada pelo Close the Gap?

Widmer – É possível medir o compromisso de um banco com a sustentabiliadde através do estado de desenvolvimento e implementação de políticas de créditos deste banco. É verdade que o Banktrack, instituição sem fins lucrativos que publica o relatório, acompanha somente bancos privados. No caso do Brasil, incluímos o BB porque, apesar de ser público, ele tem atuação mundial em nível mundial muito forte. Então, os resultados aqui apontam para o nível de comprometimento com o meio ambiente que essas instituições têm.

O Estado – Nunca se falou tanto nas vantagens da manutenção da floresta em pé e, em contrapartida, os bancos brasileiros parecem passar ao largo dessa discussão. Por que?

Widmer – A Amazônia está sendo mundialmente valorizada pelas comodities que ela proporciona. Há uma riqueza imensa e uma falta de cuidado desproporcional referente não somente à Amazônia, mas também ao Cerrado. Essa falta de cuidado crônica com a floresta por parte dos bancos é um paradoxo. Mas esse estado de coisas tem a ver com a taxa de retorno de determinados financiamentos. E refere-se também um certo lobby corporativo. A verdade é que ainda é mais fácil e mais rápido obter lucro a curto prazo sendo irresponsável.

O Estado – Você consegue dar algum exemplo prático das conseqüências do descaso dos bancos com a floresta para a economia brasileira?

Widmer – O maior exemplo é o das mudanças climáticas. Segundo um relatório recém-publicado, quase 50% das emissões brasileiras vêm de atividades ligadas à pecuária. E onde se origina a maior parte das emissões brasileiras? Na Amazônia. Então existe uma emergência para se fazer alguma coisa para que a pecuária seja mais responsável lá. E são os bancos que financiam a pecuária na Amazônia. Ora, se um banco financia atividades na Amazônia, ele sabe que tem boas chances de ter um cliente em não conformidade com a lei. O banco tem de ter a responsabilidade de ir atrás e checar o que está sendo feito na região com o dinheiro disponibilizado.

O Estado – O que os bancos podem fazer?

Widmer – Em primeiro lugar, para conceder um empréstimo, não basta simplesmente checar a documentação do cliente antes. É preciso acompanhar o bom uso do dinheiro lá na ponta. Existem meios para isso: fotos de satélite, baratas e com alta resolução, podem dizer ao banco se o sujeito está usando a floresta como disse que usaria. A Serasa tem uma ferramenta hoje chamada “conformidade ambiental”. Você lança CNPJ de determinada empresa nesse aplicativo e vê seu histórico sócio-ambiental: se ela tem multas por violação do código ambiental, por trabalho escravo. O software checa uma dúzia de bancos de dados.

O Estado – No caso específico dos produtos florestais madeireiros, o que o relatório recomenda?

Widmer – No caso do setor florestal, se alguém quer realmente trabalhar com crédito para retirar madeira ou outros produtos florestais tem de seguir o padrão FSC (Forest Stewardship Conuncil). Não é uma panacéia, pode até não ser o melhor dos mundos, mas é o único padrão que tem certa representatividade, porque de sua elaboração participaram setores da sociedade civil, e não só empresas do setor.

O Estado – Os bancos originários dos BRICS que foram avaliados não se saíram bem no quesito florestas. Como você enxerga esse sintoma?

Widmer – Os BRICs estão com posições desconfortáveis em relação a políticas florestais, mas, se você analisar a fundo o relatório, a pontuação dos bancos brasileiros na área de agricultura e pesca é a mesma: ou seja, conceito zero. Nos setores de petróleo e gás e mineração também os três bancos conseguiram conceito 1, que é uma pontuação bem complicada, se a gente levar em conta que boa parte da balança comercial brasileira está assentada sobre os resultados da mineração, sobretudo no Pará, com as operações da Vale.

O Estado – Você acha então que uma mudança no estado de coisas passa por uma mudança das políticas dos bancos?

Widmer – Com certeza. Mas passa também pela fiscalização adequada da legislação existente, pela educação e pelo empreendedorismo sustentável. Empresas que usam produtos sustentáveis, comprando direto dos produtores, e que reconhecem que o acesso à sabedoria dos povos que fornecem os insumos têm um valor – e que pagam por ele – são empresas efetivamente sustentáveis.

O Estado – Embora os bancos brasileiros não estejam bem colocados no tocante à política de crédito e de investimento para o setor florestal, eles fazem bastante propaganda. Isso pode ser qualificado como Greenwashing?

Widmer – Sem dúvida. Há uma lacuna entre o discurso e a prática e acredito que a propaganda verde deveria ser objeto de maior controle social.

EcoDebate, 14/05/2010

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