‘A crise ecológica é mais grave que a econômica’. Entrevista com Michael Löwy

O autor do Manifesto Ecossocialista Internacional propôs na Semana de Filosofia uma revolução social frente ao capitalismo. Michael Löwy, sociólogo e filósofo marxista franco-brasileiro, é professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e co-autor do Manifesto Ecossocialista Internacional. Em sua intervenção de 06 de abril na Semana Galega de Filosofia falou sobre a crise do modelo capitalista de consumo associada à crise ecológica e defendeu a alternativa ecossocialista.

A entrevista é de Alfonso González e está publicada no jornal espanhol La Voz de Galicia, 07-04-2010. A tradução é do Cepat.

Qual é o seu posicionamento em relação à crise do modelo capitalista?

Trato de colocar que as crises econômica e ecológica estão muito vinculadas e são aspectos de uma mesma crise fundamental da civilização ocidental capitalista e industrial moderna, que chegou a um ponto dramático. Para mim, a crise ecológica é mais grave, mesmo que menos aparente, que a financeira porque coloca em perigo a vida no Planeta. E se fazem necessário mudanças muito radicais.

O que o ecossocialismo propõe?

A necessidade de uma profunda mudança, revolucionária, não apenas das relações de propriedade, mas do próprio aparelho produtivo, do paradigma de produção e de tudo o que representa a civilização do capitalismo industrial moderno. A alternativa é uma sociedade ecossocialista, na qual é a população que decide as prioridades da produção e do consumo em função de suas necessidades sociais e do respeito aos equilíbrios ecológicos, não em função do benefício do capital.

Pode-se chegar a esse modelo nos países ocidentais com os atuais partidos socialistas ou de esquerda?

Mais que pelos partidos é preciso começar pelas pessoas, pela população, pelos trabalhadores. E não só nos países ricos. Na América Latina as lutas ecossociais estão mais avançadas e têm grande eco em comunidades indígenas que defendem as florestas do capital multinacional. Aqui na Europa é preciso começar por lutas locais concretas. Por exemplo, a luta por transportes coletivos gratuitos em vez do carro particular, que já está se levando a cabo em várias cidades. Ainda não é o ecossocialismo, mas é um primeiro ponto. Há uma dialética entre lutas concretas locais como essas e uma visão de conjunto mais ampla de transformação da sociedade.

As medidas que estão sendo adotadas pelos governos têm alguma serventia?

As políticas aplicadas pelos governos não creio que vão resolver a crise, são medidas restritas aos marcos da própria lógica do capitalismo neoliberal. Necessitamos de medidas mais radicais que enfrentem os interesses privados do capital e uma reorganização da economia. Mas isso, os governos não farão e os mercados também não.

O que procede, então, é outra revolução?

Procede uma transformação social radical e se se quer se pode chamar revolução. Agora, isso não significa que enquanto não houver uma revolução não possamos fazer nada. É preciso colocar, como dizia, medidas concretas em função dos interesses dos trabalhadores, que sejam sociais e ecológicas. Sabemos que os governos não vão tomá-las, mas se houver pressão social suficiente, se verão obrigados a fazer alguma coisa.

Marx ressuscitou?

A ideia de que Marx morreu é velha e cada vez que o matam ressuscita. Os economistas oficiais creem hoje que é interessante para entender a crise. Mas, para além de utilizá-lo para entender a crise, Marx faz uma análise e um diagnóstico de como funciona o capitalismo e a perspectiva de uma alternativa radical.

Se a mudança não se produzir, que futuro nos espera?

Os analistas sociais já têm dificuldade para entender o passado e o presente, e muito mais o futuro. O que podemos fazer são predições condicionais. Como diziam os profetas do Antigo Testamento, se não mudarmos sobrevém uma catástrofe. Podemos prever que se seguirmos com este sistema, com os negócios de sempre, vamos ter uma crise ainda mais grave, econômica e ecológica. Temos que tomar consciência da necessidade de uma mudança de rumo, confiando na racionalidade dos seres humanos, sobretudo dos oprimidos e explorados, para que as coisas mudem.

(Ecodebate, 16/04/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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