Os efeitos do aquecimento global e as tragédias no Rio de Janeiro, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Tragédias no Rio de Janeiro. Foto: Tasso Marcelo/AE
Foto: Tasso Marcelo/AE

[EcoDebate] Eu não sei se as tragédias que aconteceram nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, neste começo de abril de 2010, foram causadas pelo aquecimento global. Nem pretendo tratar, neste artigo, dos problemas urbanos e do elevado número de pessoas que perderam a vida de forma dramática, como aquelas que foram soterradas por uma avalanche de terra e lixo, no morro do Bumba, nos bairros niteroienses de Cubango e Viçoso. A cobertura da mídia já foi suficiente para informar e denunciar o acontecido.

Eu sou mineiro, nascido em Belo Horizonte, onde passei a maior parte de minha vida. Morei também em Nova Lima, além de trabalhar e morar alguns anos na cidade de Ouro Preto. Mudei-me para o Rio de Janeiro, onde resido e trabalho desde 2002. Nas cidades onde morava em Minas, o clima é bem mais ameno do que no Rio. Aliás, uma das coisas que mais dificultou minha adaptação aqui na “cidade maravilhosa” foi o calor.

Digo isto para ressaltar, que nestes 8 anos que estou aqui, o calor sempre me incomodou, mas estes 3 primeiros meses de 2010 foram particularmente mais quentes e incômodos. Na minha curta estada, não me lembro de ter passado 3 meses do verão e inicio de outono tão quentes. Não sou climatologista, mas acho que o impacto de uma frente fria com este calor excessivo deve ter provocado as fortes chuvas e tempestades.

Morando no bairro do Flamengo, às margens da Baía de Guanabara, eu tenho o privilégio de pedalar, gratuíta e ecologicamente, por uma pista de ciclismo que vai do aeorporto de Santos Dumont ao Leblon, com uma paisagem tão bonita, que é até dificil de descrever para quem não conhece. Pois bem, no inicio da enseada de Botafogo, um bom pedaço da pista foi destruída pela força da ressaca que atingiu a cidade. A pista de ciclismo fica a cerca de 2 metros do nível do mar em um lugar tranquilo que é protegido das ondas do oceano aberto. Mesmo assim, a pista foi parcialmente destruída.

Fiquei pensando: se as chuvas em 2010 fizeram tantos estragos na cidade, atingindo inclusive locais tranquilos, o que vai acontecer no futuro se o calor aumentar, devido ao aquecimento global, e houver a subida do nivel dos oceanos?

Lendo um artigo de Drauzio Varella (Tempestades, calor e epidemias, FSP, 10/04/2010) ele disse que fica desnorteado quando escuta falar de aquecimento global e não sabe bem a que conclusão chegar sobre as mudanças climáticas. Mas ele apresenta as conclusões de um artigo da infectologista Emily Shuman, publicado na revista “The New England Journal of Medicine”.

De forma resumida, ele mostra que o aquecimento global ao elevar a temperatura e modificar o ciclo da água e das chuvas, terá forte impacto na incidência das doenças transmitidas por insetos. Estes se tornam mais ativos no calor. O mosquito da malária, por exemplo, requer temperaturas acima de 16º C para completar seu ciclo de vida e necessita de água para botar os ovos. Temporadas de calor e chuvas torrenciais poderão causar milhões de novos casos da doença. Já há evidências de que mudanças climáticas introduziram epidemias em regiões anteriormente livres delas. É o caso da malária que hoje se espalha pelas terras altas do leste africano em razão de um clima muito mais quente e úmido do que o habitual na área.

Segundo Varella, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calculou que, no ano 2000, doenças atribuíveis a mudanças climáticas haviam sido responsáveis pela perda de 188 milhões de anos de vida por morte prematura ou incapacidade física, apenas na América Latina e Caribe; na África, foram 307 milhões de anos; no sudeste asiático, 1,7 bilhão.

Portanto, os efeitos do aquecimento global podem se agravar e serem terríveis para a qualidade de vida dos humanos e da natureza. As tragédias acontecidas no estado do Rio de Janeiro, em 2010, que começaram em Angra dos Reis, no reveillon, e agora atingiram as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, podem ser um prenúncio de coisas piores que vão acontecer no futuro, não muito distante.

José Eustáquio Diniz Alves, colaborador e articulista do EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

EcoDebate, 14/04/2010

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