‘Governo’ Mundial, Parte II, artigo de Maurício Gomide Martins

Terra

[EcoDebate] Ante as evidências do desequilíbrio ambiental e identificação do agente causal, ambos gigantescos, torna-se urgente a formação de um governo planetário, isto é, um órgão pleno para gerenciar a preservação do meio ambiente em todo o globo terrestre. Com essa finalidade, calcada na visão realista das dificuldades advindas dos vícios individualistas, deverá ele ser forte, representativo, soberano, dispondo da união das forças coercivas dos principais países. Essa conclusão se baseia na situação inconteste de que o planeta, submisso à estrutura econômica de caráter mundial, está à mercê das conveniências econômicas nacionais, extremamente danosas ao todo.

O arcabouço da atual civilização se fundamenta na ação de transformar incontrolavelmente os recursos naturais finitos não em investimento, mas em renda. É o mesmo que uma fábrica alienar mensalmente parte de máquinas operatrizes. Nesse objetivo, devemos levar em consideração que se chocam os objetivos mercantilistas dos países com os da preservação ambiental global. As nações agem em função de seus interesses econômicos à custa do planeta, e o governo geral deverá atuar em função da sobrevivência da biosfera. Como está, as partes estão opilando todo o corpo. O benefício, ou salvação, do todo deve se sobrepor aos mesquinhos interesses das partes, por uma simples questão de lógica.

Algumas vozes representativas têm se pronunciado incisivamente sobre a degradação planetária. Kevin Rudd, primeiro ministro da Austrália, por exemplo, disse que “Nenhum problema ressalta mais a interdependência entre nações do que a mudança climática. Ela demanda que nosso sistema global faça algo que nunca foi feito antes.” Parece-nos que a Austrália tem o governo mais pragmático em assuntos ecológicos porque esse país vem sofrendo, em termos reais, as conseqüências danosas das ações econômicas e demográficas, pois os recursos naturais daquele país são relativamente pobres e fracos e, por isso, as reações vêm mais cedo.

Emma Duncan, em uma análise ambiental no “The Economist” vaticinou corretamente, sobre a reunião em Copenhague, que “Não se chegar a um consenso significa que a humanidade está desistindo de tentar salvar o planeta.” Consenso em Copenhague só poderia distinguir-se como um protótipo de governo mundial. E, como se viu, não houve consenso sobre nada. Nem o pedido de socorro feito pelo pequeno país Tuvalu, na Polinésia, que vê a subida do oceano pacífico tomar suas terras, logrou qualquer consideração. Nem o representante chefe do poder econômico mundial, Sr. Barack Obama, teve a coragem de se pronunciar adequadamente, contrariando suas próprias palavras em declarações anteriores. Mostrou-se tão irresponsável quanto seus antecessores.

Contudo, há vozes dissonantes, como a do Sr. Peter Braleck Letmathe, gerente geral da Nestlé, em artigo escrito sobre o problema de água no mundo: “… da forma como a água tem sido administrada, ficaremos sem água muito antes de ficarmos sem combustível.” Esse senhor tem a consciência aprisionada pelas influências culturais, não conseguindo enxergar um grau de ângulo fora de seus interesses. Não é capaz de distinguir entre o essencial à vida e o supérfluo. A preocupação dele é com o combustível, um tipo de energia que promove a destruição do planeta.

Alguém dirá que governo mundial constitui uma utopia. Excluindo-se o sentido negativo, posteriormente agregado ao termo, o rumo aventado pode ser chamado de utopia no seu sentido benéfico, justo e racional. Mas – aí é que está a dificuldade – essa utopia, a que corresponde uma revolução, deve ser mesmo implementada, por necessidade de sobrevivência, sob pena de ela se transformar em mortalha. Uma revolução só é utopia antes de ser realizada.

Entendemos que essas ações – que somente podem partir de lideranças mundiais –, se não forem efetivadas com urgência, o planeta chegará a um ponto crítico sem retorno. Daí em diante, a sentença do caos estará decretada.

A respeito de urgência, cabe-nos pôr em relevo um fator importantíssimo na sua conceituação. Referimo-nos ao fator Tempo, que tem a indestrutível propriedade de não voltar atrás, e a razão científica segundo a qual as ações maléficas de hoje produzem reações climáticas a médio e longo prazo. Dentro desse contexto, temos apenas 15 ou 20 anos para reverter o déficit existente de 30%. É um tempo muito curto para uma reviravolta na civilização atual. Obvio que isso vai requerer um sacrifício humano muito grande nos hábitos de conforto da modernidade. E esse sacrifício será progressivamente maior à medida da delonga na implementação de soluções saneadoras.

Defendemos que o único caminho para o refluxo da situação é tomarmos atitudes radicais, orquestradas, que somente um governo único mundial pode e teria condições de empreender. Não há tempo para conscientização de 6.700.000.000 de pessoas nem tempo para educação das crianças. A propósito, All Gore, premio Nobel, em seu pronunciamento na reunião que se realizou em Doha, advertiu os participantes de que “o problema ambiental está se tornando irreversível”.

Observa-se que é da natureza humana unir-se para atingir objetivos comuns. Isso já vem sendo realizado por diversos países, mas sempre sob a óptica de interesses político-econômicos. Cada vez mais vem se acentuando esse procedimento. Temos diversos exemplos: ONU, U.E. (União Européia), Nafta, Mercosul, OEA, Alba (Alternativa Bolivariana para a América), Unasul, OPEP, FMI, APEC (Fórum de Cooperação Econômica Ásia), G-8, G-20, União Africana, Parlamentares para Ação Global, Associação das Nações do Sudeste Asiático e diversas outras com menor expressão. Já se fala em uniões mais amplas, como “Nações Continentais”. Essas alianças denotam a percepção de uma necessidade político-econômica de grupamento, com vistas às necessidades das partes. Só falta os países enxergarem o óbvio, a auto-destruição ambiental que, em última análise, será também a causa do desmoramento total desse maldito arcabouço econômico.

Na verdade, os principais governos nacionais têm conhecimento da situação de suicídio planetário; não têm é coragem para agir, pois isso implicaria perturbar o caminho de enriquecimento da casta privilegiada. Alguns países têm tomado posições discursivas em favor do meio ambiente, mas se limitam a medidas aparentes, demagógicas, inócuas, superficiais. Mesmo países com mais conscientização ambiental como a Holanda, Alemanha, Austrália, Japão, sózinhas, não têm condições para impôr ao restante do mundo ações concretas. Veja-se, por exemplo, a ineficácia dos diversos documentos produzidos pelos principais fóruns internacionais sobre o meio ambiente.

Rajendra Pachauri, presidente da comissão IPCC, no encerramento da apresentação do relatório final, proferiu sábias palavras para o mundo. Disse ele que o IPCC apresentou o resultado dos esforços científicos e intelectuais, ficando a implantação das ações correspondentes aos países que têm músculos.

Temos observado que no mundo são realizadas reuniões em defesa do hábitat natural, com maior ou menor participação de autoridades. Até em âmbito municipal. Sempre tratam o assunto com generalidades abstratas ou enganadoras, notando-se que tais atos se constituem apenas como reforço de visibilidade de posições políticas ou meras vaidades. Quando há fóruns mais representativos, formulam protocolos irreais, inócuos, superficiais que não levam em consideração o verdadeiro sentido do perigo ambiental. Assim foi o Protocolo de Kioto, o de Poznan, o de Bali e o de Copenhague.

Tudo neste mundo tem uma cabeça, ou chefe, ou órgão gerenciador, tais como o corpo animal, família, clubes esportivos, partidos políticos, cidades, províncias, países, corporações econômicas, entidades religiosas. Mas o bem mais importante, mais valioso, guardião da vida – o meio ambiente global – não possui um órgão zelador e gerenciador. Está ele à mercê da espoliação geral – onde qualquer um pode, em holocausto ao deus Lucro, retalhar-lhe as carnes. Está sem dono, agonizante, abandonado pelos filhos ingratos e insencíveis. Chorando, pede piedade; tanto ama seus filhos que não os quer ver extintos.

Somente um Governo Mundial, ou Administração Global, ou Centro Mundial, ou que nome seja, com autoridade exclusiva para o meio ambiente – investido de forças e prerrogativas de soberania – poderá salvar a vida em nosso planeta.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista, colaborador e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

Nota 1: leiam a primeira parte deste artigo em ‘Governo’ Mundial, Parte I, artigo de Maurício Gomide Martins

EcoDebate, 08/04/2010

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