‘Governo’ Mundial, Parte I, artigo de Maurício Gomide Martins

Terra

[EcoDebate] Em diversos artigos, temos citado que, ante o vital problema ecológico por que passa o planeta, a sua solução começa pela efetivação de um governo mundial. Este seria o primeiro passo concreto para estabelecer uma condição lógica com objetivo de revolucionar toda a arquitetura conceitual da sociedade humana. Como não temos sido compreendidos por alguns ao apontar esse rumo, resolvemos fazer uma pequena análise do assunto, procurando justificar nossa posição e esclarecer os pontos em que se fundamenta.

Não chegamos a tal conclusão pelo simples e personalístico fator psicológico do “achismo”, mas por conclusão racional amadurecida após mais de 20 anos de concentrado exercício de observação, estudo e reflexão. E o recente fracasso da COP 15, pela interferência de argumentos inconsistentes e estreitos das nacionalidades, confirma plenamente a nossa tese. O interesse ambiental do planeta só pode ser tratado como um todo, com exclusão das razões dos 179 países que, ambientalmente falando, não existem. Como podemos tratar de um corpo humano com leucemia, cuidando apenas de uma das pernas? Num organismo qualquer, é contraproducente dar-se atenção apenas a uma de suas partes, sob pena de perecer o todo.

Como revela a História, em diferentes estágios a sociedade ficou dependente das decisões de um governo monolítico que abrangia o “mundo” da época. Integrava-se à cultura sedimentada dessas ocasiões o entendimento de que o “mundo” era plano e infinito. Antigamente, sob conceitos pessoais, só se contavam os lugares com importância estratégico-militar e econômica. Esses imensos territórios eram conquistados, geralmente pelo poder das armas, e se lhes dava o nome de império. Tivemos em tempos distintos impérios que abarcavam o “mundo” conhecido ou significativo, tais como os dos egípcios, dos gregos, dos romanos. A Idade Média foi uma longa ocasião em que as diretrizes políticas e religiosas, com amplidão “mundial”, eram ditadas por uma autoridade centralizada no Vaticano. Foi um poder único no contexto universal por diversos séculos.

Posteriormente, revelou-se que o mundo era esférico, limitado mas enorme. Contudo, as partes representativas, mercê de uma população reduzida, eram poucas e cobriam apenas o mundo conhecido. No século XVI, com esse aglomerado humano estimado em 600 milhões de pessoas, o mundo total era excessivamente grande, tão grande que os paises mais poderosos se julgaram no direito de colonizar os de povos mais atrasados para lhes explorar os recursos naturais. A ganância pessoal e acúmulo de bens materiais comandaram o período de intensa anexação de territórios, até onde os canhões conseguiam alcançar. A Inglaterra se gabava de ser um império tão grande que, em seus vastos domínios, a luz do sol nunca deixava de brilhar.

Com o crescimento demográfico para índices absurdos (de 1900 a 2009, apenas 109 anos, a população nominal do planeta quadruplicou e a potencial foi elevada para 750 bilhões); a ocupação de todos os espaços; a extensão da agricultura; a revolução industrial; o desenvolvimento tecnológico acelerado; e a ganância desenfreada, agora universalizada pela formação de inúmeras corporações econômicas, o planeta foi ficando cada vez menor. A tal ponto que, hoje, o nosso hábitat natural global, está insuficiente em 30% da sua capacidade natural de suporte e recomposição. Imagine-se que somente dos EEUU saem diariamente rumo à Europa, 1000 aviões que retornam à tarde. O movimento doméstico de aeronaves naquele país chega a 16.000 vôos diários.

Pelo avanço da dinâmica citada, houve uma mudança muito grande na visão de mundo. O conceito de espaço atualmente é muito diferente do que vigorava quando ainda não havia o problema ambiental. Basta meditarmos quão irracional é a existência de uma cidade com 10 milhões de habitantes. Como conseqüência lógica, temos que ter, no atual século XXI, a consciência de que o mundo é um planeta diminuto, insuficiente, extenuado, anêmico, próximo a entrar nas violentas convulsões da agonia. Está numa situação idêntica à de uma laranjeira que retira da terra 100% de seiva máxima de sua capacidade e transfere, hoje, 30% à colônia de ávidos sugadores de pulgões que não cessam de procriar. Seguidamente, a seiva vital dessa árvore será desviada em 40% para os parasitos, progressivamente, até que a laranjeira se torne inviável e morra.

Esse pequeno histórico é para caracterizar que, no entendimento cultural dos povos – consequente da tradição histórica –, governo mundial representaria a existência de um órgão brutal destinado a se impor ao mundo em benefício dos interesses de um país. Tal como se percebe hoje: vigência de um imperialismo de fato – sob a batuta e atuação secreta do clube de Bilderberg – camuflado sob o eufemismo de globalização. Na verdade, compreendemos que a globalização é realmente um imperialismo, mas não exatamente de um país, e sim de um sistema social de castas, construído sob o arcabouço econômico. Esse entendimento não se coaduna com a ideologia ambientalista, fundamentada na visão de fatos trágicos, concretos e insofismáveis sob o endosso da ciência e da observação. Governança mundial abrangente já existe, só que com presença camuflada, mas com métodos e objetivos vis.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista, colaborador e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

EcoDebate, 07/04/2010

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta utilizar o formulário abaixo. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Participe do grupo Boletim diário EcoDebate
E-mail:
Visitar este grupo

3 comentários em “‘Governo’ Mundial, Parte I, artigo de Maurício Gomide Martins

  1. Bem, a grande pergunta é se com um Governo Mundial legalizado haverá realmente poder para fazer algo em relação ao meio ambiente?
    O Clube Bilderberg “camuflado” tem muito poder e faz valer as suas intenções…
    Será que haverá poder inicialmente para conseguir criar um Governo Mundial?
    Acredito ser muito difícil ser concretizado a existência de um Governo Mundial; a ganância material dos governantes e de grande parte da humanidade é muito grande!

Comentários encerrados.

Top