Gastos militares na América do Sul, artigo de Bruno Peron

[EcoDebate] A contingência de animosidades, conflitos e guerras ainda destoa dos anseios pela paz numa época em que se discute a hegemonia de poucos países, a agressão irreversível à natureza e as previsões sustentadas do fim do mundo.

O Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (SIPRI, da sigla em inglês) alerta sobre o aumento de fluxo de armamentos ao redor do mundo.

Corrida armamentista é um tema que se tinha por soterrado até pouco tempo atrás, quando os números escancararam o aumento de investimento bélico e de preocupação com as “regiões de tensão”, como América do Sul, África Setentrional, Oriente Médio, Ásia Meridional e Sudeste Asiático.

É a paz um projeto utópico? Tema recorrente de uma filosofia imprescindível.

O poder e a ganância ofuscam a intenção de promover a paz mundial.

Países pujantes sustentam o ímpeto injustificado de querer controlar quem pode e quem não pode investir em armas e a quantidade que lhe cabe a cada ente nacional.

A Pangérica exportou 30% dos armamentos mundiais entre 2005 e 2009. É a maior exportadora deste segmento econômico e seu investimento militar é inigualável. Os rendimentos são colossais. Da mesma proporção é a tristeza daqueles que enxergam a paz como um fio trêmulo.

Estados ricos em recursos naturais têm investido em aeronaves de guerra, que se responsabilizaram por 27% do volume de transações internacionais de armamentos entre 2005 e 2009.

Na América do Sul, o gasto militar sofreu aumento de 150% nos últimos cinco anos em comparação com a primeira metade da década. É procedente, no entanto, o blefe de que a América do Sul persegue uma “corrida armamentista”?

Colômbia, Chile e Equador são os países sul-americanos que destinam a maior parte do Produto Interno Bruto (PIB) a gastos militares, apesar de o Brasil ter o orçamento mais expressivo em valores na região.

A Colômbia é ainda o país latino-americano que recebe o maior auxílio militar da Pangérica, o que se deve aos acordos bilaterais para o combate ao narcotráfico.

A briga pelas áreas de influência travava-se no contexto que vigorou até 1989, quando dois gigantes antagônicos disputavam os modelos de capitalismo ou socialismo. Havia um equilíbrio maior entre as potências, que se intimidavam mas não se atacavam.

Nos tempos hodiernos, países em desenvolvimento, como Brasil e Irã, contestam justamente os pujantes sobre os monopólios de armas e programas nucleares.

Escuta-se que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad é perigoso, portanto conduziria irresponsavelmente um programa nuclear. E o ex-presidente assassino e criminoso George W. Bush, que invadiu impiedosamente Afeganistão e Iraque, e seu assecla Barack Obama, que mantém tropas nos dois países a despeito das milhares de mortes mensais? São promotores da liberdade?

Por sua vez, os argumentos oficiais tupinicas apelam principalmente à necessidade de atualizar o equipamento militar obsoleto no Brasil, proteger o território vasto e as reservas de petróleo, e lançar-se como potência regional e global.

Quem é tolo para acreditar que a França quer enviar novamente navios nos mares tupinicas para buscar a caixa preta do voo 447 abatido da Air France? Entre uma garimpagem e outra no fundo do mar, hão de encontrar o que realmente lhes interessa.

Estadistas tupinicas oscilam entre a inserção do Brasil como líder regional ou ator global. Para isso, eles têm vendido a pátria e cuspido coliformes fecais.

Segundo o Centro de Estudos Nova Maioria (CENM), que é um instituto argentino de pesquisas, o Brasil tem o 12º maior gasto militar no mundo.

Apesar da informação sobre o Brasil, é mister projetar o setor no contexto sul-americano, cujo espaço geográfico foi considerado uma das “regiões de tensão” pelo SIPRI.

Os conflitos da América do Sul são anódinos quando comparados aos do Oriente Médio.

Exceto pelas querelas entre Colômbia e Venezuela, Equador e Colômbia, Peru e Chile, Bolívia e Paraguai (recordando o impacto da Guerra do Chaco: 1932-35), que não se materializam em embates militares, a região é pacífica.

É preferível que o orçamento vá para a educação (formação prévia de uma categoria sólida de professores) e a saúde (medicina preventiva deveria ser prioridade) em vez de aparelhagem militar, porém o tema da soberania reacende a flâmula deste “mal necessário”.

Virá o dia em que os povos das diferentes nações se entendam e se respeitem.

Sejamos cúmplices deste caminho aberto.

Colaboração de Bruno Peron, mestre em Estudos Latino-americanos, para o EcoDebate, 07/04/2010

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