A crise não deve ser desperdiçada, resenha de José Eli da Veiga

"Thomas Friedman conclama americanos a deixar de ser devoradores de riquezas acumuladas e naturais"

[Valor Econômico] Uma revolução verde liderada pelos Estados Unidos precisa se tornar inevitável, em vez de inconcebível. Esse é o norte da quinta obra de Thomas L. Friedman, de longe o melhor repórter da atual aceleração do processo histórico da globalização capitalista. Além de insuperável pregador das transformações necessárias para que os EUA retomem a efetiva hegemonia política, em vez de se conformar em manter apenas seu status de maior potência militar.

Mesmo que explícita no primeiro parágrafo dos agradecimentos, tal ambição foi infelizmente diluída no anódino subtítulo escolhido para esta edição revisada de 2010. Era muito melhor o original, de setembro de 2008: “Por Que o Mundo Precisa de uma Revolução Verde – E como Nosso Futuro Global Pode Ser Renovado” (Why the world needs a green revolution – and how we can renew our global future).

A primeira pessoa do plural é sistematicamente usada para se dirigir aos cidadãos americanos, exortando-os a seguir o exemplo da chamada “Grande Geração”, que enfrentou as ameaças avassaladoras da Grande Depressão, do nazismo e do comunismo com ogivas nucleares. Mais: conclama-os a deixar de ser a “Geração Gafanhoto”, devoradora de riquezas acumuladas e naturais, que legará a seus descendentes um enorme déficit econômico e ecológico.

Para denunciar a tendência perdulária e hedonista exportada desde os anos 50 dos EUA para o resto do mundo, talvez não haja mesmo imagem mais contundente que a das várias espécies de gafanhoto que formam enxames devastadores.

Daí porque é tão global quanto nacional o significado do sermão que esse premiadíssimo colunista do “The New York Times” passa em seus compatriotas. Ainda mais nesta edição, em que os três primeiros capítulos foram acrescentados depois de dois fatos cruciais: a eleição de Barack Obama e o que chama de “a Grande Recessão de 2008/9”.

Os três revelam sua obsessão em explicar como a crise deve ser utilizada para revigorar e reorganizar os EUA, cuja liderança – tecnológica, financeira, ética e ecológica – seria vital para que todo o planeta enfrentasse os complexos e singulares problemas que desafiam a humanidade.

Dito assim até pode parecer que é o mesmo mote do anterior “O Mundo É Plano – Uma Breve História do Século XXI”, lançado em 2005. No entanto, quando redigiu esse best-seller, Friedman só enxergava os riscos de que mais protecionismo e temor de competir levassem os EUA a se isolar em busca de elusiva segurança econômica.

Foram acontecimentos posteriores – particularmente os de 2007 – que o fizeram identificar duas outras poderosíssimas forças que estão moldando o mundo: o aquecimento global e a expansão demográfica.

Ao incorporá-las à análise, concluiu que o vetor mais decisivo do mundo atual é a resultante da convergência daquilo que descreveu em 2005 com aquecimento e superlotação. O sentido da época que se inicia – por ele batizada de “Era da Energia e do Clima” – foi sintetizado nos três adjetivos do título: quente, plano e lotado.

Todavia, o próprio autor admite que essa “era” tem ao menos cinco, em vez de três grandes problemas: a crescente demanda por recursos naturais com suprimentos de energia cada vez mais escassos; a maciça transferência de divisas para os ditadores das principais potências petrolíferas; drástica mudança climática; pobreza energética que racha o mundo entre quem tem e quem não tem acesso à eletricidade; e cada vez mais rápida erosão da biodiversidade. Cinco problemas sedutoramente esmiuçados no miolo do livro, em 12 capítulos que preparam a apoteose: uma picante comparação entre China e EUA.

Suas frequentes visitas à China, que começaram em 1990, fizeram-no supor que ela só assumiria a questão da energia limpa quando fosse compelida a seguir a liderança dos EUA. Mas deixou de pensar assim, como indicam três perguntas na página 533: “Quem vai superar quem no verde?”, “Quem vai constranger quem?”, “Será que a China vai se adiantar aos Estados Unidos na corrida pela Terra e dominar a indústria de tecnologia energética?”

Hoje ele avalia que a China deve estar a só cinco anos da decisão de esverdear, independentemente do que façam os EUA. Crê que a China esverdeará logo, não porque milhões de chineses foram persuadidos pelo filme de Al Gore, mas porque a triste realidade da vida cotidiana está convencendo seus líderes de que não há alternativa.

Não se consegue respirar aquele ar, a água dos rios deixou de ser potável, não há lagos onde se possa nadar ou pescar, foram destruídas as florestas, e as mudanças climáticas já afetam o país com secas cada vez mais longas e tempestades de areia cada vez mais frequentes. Por isso, acha que a China esverdeará por necessidade, lembrando aos leitores que a necessidade é a mãe das invenções.

Claro, reconhece que em apenas um ano de governo Obama fez-se muito mais para impulsionar as tecnologias energéticas limpas e renováveis do que nos quatro de Jimmy Carter (1977-80). Todavia, nem governo nem Congresso se mostram prontos para criar um sinal de preço que favoreça a construção de um verdadeiro Sistema de Energia Limpa.

Friedman insiste que o setor privado só alavancará os investimentos do setor público em pesquisa e desenvolvimento se houver sinal de preço que seja significativo, fixo e de longo prazo. Nessa área, investimentos públicos em ciência e tecnologia só gerarão suficientes inovações com progressiva elevação do preço da emissão de carbono. Sem isso, os avanços de Obama em tecnologia limpa jamais alcançarão a escala necessária para fazer dos EUA o líder que ele gostaria que fosse.

Para ilustrar o impasse, oferece circunstanciada narrativa da trajetória da empresa First Solar Inc., que termina com o seguinte lamento: “Eu entendo de política. Não sou ingênuo. (…) Uma crise é uma coisa terrível de se desperdiçar (parafraseando um comercial repetido há mais de três décadas: ‘Uma mente é uma coisa terrível de se desperdiçar’). Mas estamos exatamente nesse caminho. Você já está chorando?”

José Eli da Veiga é professor titular da Universidade de São Paulo do Departamento de Economia da FEA e do programa de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais.

Resenha publicada no Valor Econômico.

EcoDebate, 05/04/2010

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