Lobby contrário à suspensão de exportações do atum vermelho divide posições na convenção Cites

Entre 1957 e 2007, as reservas de atum vermelho diminuíram 75%, segundo grupos de defesa do meio ambiente. Japão consome 80% do atum vermelho pescado no planeta. (Foto: Bryan Allison/Flickr - Creative Commons by-sa 2.0)
Entre 1957 e 2007, as reservas de atum vermelho diminuíram 75%, segundo grupos de defesa do meio ambiente. Japão consome 80% do atum vermelho pescado no planeta. (Foto: Bryan Allison/Flickr – Creative Commons by-sa 2.0)

A diplomacia do atum vermelho entrou em ação nos corredores da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e da Flora Silvestres (Cites) de Doha, antes da abertura das discussões sobre a proposta de suspender as exportações da espécie.

“Não há nada decidido. Há muita agitação”, disse na segunda-feira (15), à AFP, Patrick Van Klaveren, embaixador do México na Convenção da Cites, que se pronunciará até 25 de março sobre a medida que atinge o atum vermelho do Atlântico oriental e do Mediterrâneo. “O que nós pedimos é que se deixe esta espécie em paz durante cinco ou dez anos, para dar a ela uma chance de evitar a catástrofe anunciada”, afirmou o embaixador.

Mas o Japão, que consome aproximadamente 80% da pesca mundial da espécie, ou a Turquia, um país pesqueiro, já trabalham contra a proposta de Mônaco. Reportagem de Anne Chaon, da France Presse, em Doha.

“A técnica de ‘lobbying’ do Japão é temerária”, denunciou Van Klaveren. “Três ou quatro pessoas da delegação percorrem permanentemente as salas de reunião, dirigindo-se aos países em vias de desenvolvimento, assustando-os a respeito do futuro de suas próprias reservas, com comentários do tipo ‘a vez de vocês vai chegar’. As ilhas do Pacífico e da Ásia são bastante sensíveis” a estes argumentos, explicou.

“São ameaçados”, reforçou Sue Lieberman, diretora política do Pew Environment Group.

Convencimento

No domingo, a delegação japonesa organizou um encontro com países africanos. “Estamos acostumados”, contou um delegado africano. “Eles fazem o mesmo antes de cada comissão baleeira. Na última vez, levaram inclusive dez delegados da Guiné para o Chile, com todas as despesas pagas”, acrescentou.

No entanto, embora não tenha apresentado uma contraproposta, o “Japão não é favorável a continuar com a exploração no ritmo atual”, reforçou Van Klaveren.

“Recebemos certos sinais da indústria japonesa, que está muito preocupada com o risco de colapso das reservas”, acrescentou, citando uma empresa como a Mitsubishi, que possui aproximadamente 60% das 55.000 toneladas de atum vermelho congelado no Japão.

As ONGs alertaram Van Klaveren sobre “a atividade” levada adiante pela Tunísia, país pescador de atum, entre os membros da Liga Árabe (22 países) para convencê-los a votar contra o projeto de resolução de Mônaco, o que foi confirmado por Wael Hmaidan, da organização libanesa IndyAct, que na segunda-feira tentou organizar uma reunião entre Van Klaveren e a delegação tunisiana.

Esta se declarou “escandalizada” com tal suspeita.

“Todo mundo se mobiliza. Nós expressamos nossa posição, sem fazer nada para que os outros a compartilhem”, assegurou Jaled Zahlá, que dirige a delegação tunisiana.

A Tunísia “se oporá a qualquer inscrição do atum na Cites”, disse, sustentando que “este não é um assunto da Cites, mas da ICCAT”, a Comissão Internacional para a Conservação de Atuns do Atlântico.

União Europeia

Mônaco desejaria que a União Europeia se envolvesse mais na defesa da sua posição, a qual apoia oficialmente, embora com uma aplicação adiada até os próximos trabalhos científicos da ICCAT, previstos para novembro.

Mas a UE é dirigida atualmente pela Espanha, um dos principais pescadores de atum, ao lado de França e Itália. E, de fato, segundo um de seus delegados, a UE tem muitas dificuldades em chegar a um acordo sobre o caso.

Até o momento, Mônaco conta com o apoio de Estados Unidos, Noruega, Suíça, Colômbia, Costa Rica, Equador e Sérvia. Mas, segundo fontes europeias, “Canadá, Austrália e Brasil se absterão, e a África ocidental ainda está indecisa”.

Quanto à China, o país é, assim como o Japão, hostil a que a Cites se intrometa na gestão das espécies marinhas comerciais, afirmou Sue Lieberman.

Reportagem da AFP, na Folha Online.

EcoDebate, 17/03/2010

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