Estudo analisa capacidade medicinal da planta amazônica aninga

aninga – nome popular da espécie Montrichardia linifera (Araceae)
aninga – nome popular da espécie Montrichardia linifera (Araceae)

Muito utilizada pelos ribeirinhos como cicatrizante e vastamente distribuída nas margens dos rios amazônicos, pouco se conhece ainda sobre as propriedades químicas, terapêuticas e as atividades biológicas da aninga – nome popular da espécie Montrichardia linifera (Araceae). Para tentar saber mais sobre a espécie, a pesquisadora Cristine Bastos do Amarante, da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCT), realizou o Estudo químico e farmacológico de Montrichardia linifera (Araceae).

A pesquisa teve início em 2007 e os resultados obtidos sugerem a ocorrência de substâncias biologicamente ativas, revelando um potencial fitoterápico ainda a ser investigado. “Considero esse estudo apenas o começo do conhecimento químico sobre a aninga, pois muitos aspectos ainda precisam ser bem investigados”, afirma a pesquisadora, que coletou as amostras da espécie às margens do Rio Guamá, no Campus 1 da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém (PA).

A aninga é uma planta pioneira na formação de ilhas aluviais dos rios amazônicos e no estreitamento de canais dos furos do arquipélago do Marajó, formando grandes populações coloniais e distribuindo-se vastamente às margens dos rios e igarapés da Amazônia. É uma macrófita aquática, planta herbácea que cresce na água, em solos cobertos por água ou em solos saturados com água.

Além de seu uso como cicatrizante de cortes profundos, a seiva da aninga também é usada contra picadas de cobra e ferrada de arraia, entre outras aplicações etnomedicinais. Dentre essas aplicações, também é comum a utilização das folhas amarelas da aninga na forma de chá para o tratamento de doenças do fígado, além dos relatos de ribeirinhos de que as folhas e o fruto dessa planta fazem parte da dieta alimentar de peixes, tartarugas, peixes-boi, capivaras, bois e búfalos. Mesmo assim, “os próprios ribeirinhos também a classificam como uma planta venenosa, já que a sua seiva é urticante e causa queimaduras na pele e, em contato com os olhos, pode causar a cegueira”, lembra Cristine.

Diversos estudos feitos com a planta M. linífera pela pesquisadora Crisitine Amarante, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCT), de Belém (PA), revelou informações importantes e algumas preocupantes a cerca da espécie.

O teste da toxicidade, por exemplo, sugere que a planta contém substâncias biologicamente ativas que justificam o uso tradicional empregado empiricamente pelo caboclo amazônico, denotando que a espécie tem um importante potencial fitoterápico que merece ser investigado em estudos químicos, farmacológicos e toxicológicos. A atividade antiplasmódica relativa à ação contra o parasita causador da malária também foi investigada. Nesse caso, alguns extratos da folha da aninga inibiram em mais de 80% o crescimento do parasita, apresentando alto potencial antimalárico. Por isso, segundo Cristine, os princípios ativos encontrados na planta merecem ser padronizados e identificados futuramente.

Já na folha e no fruto foram realizados estudos de teores de umidade, lipídios, proteínas, resíduo mineral fixo (cinzas), nível de carboidratos e valor calórico, e os resultados mostraram que tanto a folha como o fruto têm baixo valor protéico. Nesse contexto, vale ressaltar que a fruta da aninga é uma infrutescência, já que apesar da aparência externa coesa, ela é formada por um conjunto compacto de frutos, onde cada um encontra-se aderido ao outro, de forma que o conjunto se assemelha a um grande fruto. Essa infrutescência apresentou baixo valor nutricional tanto para os peixes quanto para os quelônios e também aos grandes herbívoros como o boi e o búfalo, principalmente pelo seu pobre teor de proteína.

Sorvente perigoso

Os resultados também indicaram que a M. linifera tem a capacidade de absorver grandes quantidades de minerais presentes no solo, o que foi evidenciado pelos elevados níveis dos macronutrientes cálcio (Ca) e magnésio (Mg). Além desses, as concentrações de manganês (Mn) obtidas também foram consideradas tóxicas, ultrapassando significativamente o limite máximo tolerável para búfalos e gado.

“Dessa forma, a planta pode ser considerada um sorvente natural de substâncias químicas, mas seu uso no controle da poluição ambiental ainda é pouco explorado. As aningas têm grande capacidade de reter metais pesados, óleos e outros poluentes orgânicos”, explica Cristine. “Ela funciona como uma espécie de filtro, acumulando elementos químicos que chegam a níveis considerados tóxicos para os animais que dela se alimentam, tais como o peixe-boi, tartarugas, peixes e búfalos”.

E é justamente pelo seu caráter de sorvente que a utilização da planta pela população ribeirinha é preocupante, principalmente no que diz respeito ao manganês, que é um metal neurotóxico e que pode estar sendo passado para a cadeia trófica (alimentar). Ainda segundo a pesquisadora, a contaminação do homem com esse metal pode causar danos no sistema nervoso e evoluir para doenças neurodegenerativas, tais como o Mal de Parkinson, ou até mesmo causar a morte por envenenamento.

Complicações do chá

As populações tradicionais fazem uso das folhas amarelas da aninga na preparação de chás. Estudos de composição mineral realizados revelam, porém, que os valores dos minerais estiveram muito acima dos limites estabelecidas para o consumo humano.

No chá, os metais magnésio (Mg) e manganês (Mn) ainda permanecem acima do limite máximo tolerável, porém os valores gerais dos metais obtiveram significativa redução dos seus teores. Mesmo assim, esses resultados sugerem que o chá desta planta é uma bebida tóxica e, portanto, desaconselha-se o seu uso. “Além dos minerais, existe a possibilidade desta planta absorver outros poluentes, principalmente nas áreas urbanas, onde a movimentação das marés favorece o acúmulo de lixo em seu habitat”, alerta Cristine.

O local de coleta é elemento fundamental da pesquisa. As amostras coletadas tiveram origem na área urbana de Belém, o que determina que os estudos devam considerar os efeitos da poluição no material pesquisado. “Há necessidade de continuarmos essa pesquisa, elegendo outras áreas de coleta, menos poluídas, a fim de verificar se a planta pode servir como indicadora de poluição ambiental e, assim, explorar o seu uso no controle da poluição”, ressalta a pesquisadora.

As pesquisas foram desenvolvidas por meio de parceria com o Centro Universitário do Pará (Cesupa), Instituto Evandro Chagas (IEC), universidades Federal Rural da Amazônia (Ufra) e Federal do Pará (UFPA), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa).

Informe do MCT-Ministério da Ciência e Tecnologia publicado pelo EcoDebate, 05/03/2010

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